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2193 Words
Christopher  A noite da festa na empresa chegou e os ânimos no nosso apartamento pareciam à mil.  Fui o primeiro a ficar pronto e enquanto esperava os outros, jogava vídeo game na sala.  Maitê apareceu na minha frente tirando a minha atenção da tela da tv. A olhei de cima a baixo e soltei um longo suspiro.  — Perfeita. — falei.  — Tem certeza? — ela parecia insegura.  — Sim. — levantei e segurei sua cintura. — Não se preocupe. Será a mais linda da festa.  — Você é um amor. — sorriu, segurou meu rosto e me beijou.  As coisas com Maitê estavam evoluindo bem. Nós éramos compatíveis, nos divertíamos juntos, nos conhecíamos bem e nunca discutíamos por nada. E mesmo com mil e um motivos pra me apaixonar, eu não sentia meu coração disparar quando ela estava perto. Mas eu ainda tentaria, porque Maitê era uma mulher maravilhosa.  Annie e Christian ficaram prontos e nós pudemos seguir até a empresa.  O terraço estava muito bem iluminado, tinha muita comida, bebida, boa música e muitos garçons que serviam todos com muita gentileza.  — Devo confessar que dessa vez ela se superou. — falou Christian.  — Quem sabe agora você não começa a aceitar que ela é uma pessoa legal. — Annie alfinetou.  — Não viaja! — Maitê disse antes de Christian.  — Aposto que isso é só uma desculpinha pra arrancar o nosso couro depois. — dramatizou. — Eu vou me divertir vendo ela tentar. — completei.  E então, ela surgiu no meio das pessoas. Vestindo um vestido preto colado ao corpo, os cabelos soltos em cascata e o rosto com uma maquiagem leve, com exceção de seus lábios, pintados de um vermelho fatal.  Não consegui desgrudar os meus olhos de Dulce e estava difícil disfarçar o meu encantamento. Mas eu não era o único. Todos os homens do terraço e até algumas mulheres a encaravam como se fossem comê-la com os olhos.  — Boa noite! — ela chamou a atenção de todos. — Sejam muito bem vindos à primeira de muitas confraternizações que eu pretendo realizar. Esse será o início de uma mudança radical no ambiente da nossa empresa. Não quero me prolongar, só quero que se divirtam e que estejam prontos pra festejar até o amanhecer! — gritos de comemoração foram ouvidos.  Ela parecia satisfeita e realizada com tudo aquilo. Talvez as suas idas ao psicólogo estivessem mesmo surtindo um efeito positivo, transformando-a em uma pessoa mais empática e gentil.  Com o passar da noite, as pessoas foram se agitando gradativamente até aquilo parecer quase uma balada.  Depois de uma noite inteira com meus amigos, Christian se afastou pra paquerar alguém, como sempre fazia e Annie arrastou May até o banheiro.  Corri meus olhos pelas pessoas até parar naquela que mais atraía minha atenção. Dulce estava sentada sozinha, olhando os outros como se esperasse que alguém fosse falar com ela e no fundo da sua expressão, era possível notar um leve desapontamento.  Vi ela levantar e sair do terraço, em direção ao interior da empresa. Não consegui me segurar e a segui.  A porta de sua sala estava entreaberta e eu espiei pela fresta antes de entrar. Ela estava de costas, olhando pelas vidraças o trânsito lá fora. Usava seus braços para abraçar o próprio corpo e não movia um só músculo.  — Senhorita Saviñon? — a chamei, entrando na sala.  — Sim? — ela nem sequer se virou para me olhar.  — Está tudo bem?  — Sim. — suspirou.  Me aproximei e toquei seu ombro e finalmente vi o que ela abraçava contra seu corpo. Era um porta-retratos, um daqueles que ficava sobre a sua mesa.  — Eu posso ver? — perguntei.  Ela afrouxou os braços e deixou que eu olhasse a foto. Eram ela e o pai, sorridentes em um abraço amoroso.  — Ele sempre quis que essa empresa fosse um ambiente bom para todos. Tanto para os de fora, quanto para os de dentro. E por muito tempo eu me preocupei apenas com os de fora, massacrando e arrancando todas as energias dos funcionários. E tudo pra que? Pra construir a imagem de uma mulher má, sem coração, egocêntrica e ambiciosa. — suspirou. — Se o preço de ser respeitada e bem sucedida é a solidão, nada do que eu fiz valeu à pena.  — Por que você resolveu mudar? — foi a única coisa que passou pela minha cabeça.  — Acha que eu mudei? — ela sorriu de lado. — A verdade é que essa sou eu de verdade. Sou só a Dulce. A senhorita Saviñon é uma personagem c***l que eu achei que era muito melhor do que a minha personalidade real.  — Não precisa ser c***l pra ser boa no que faz.  — Agora eu sei disso. — assentiu. — É uma pena que eu tenha descoberto tarde demais. Não dá pra mudar todos os pensamentos de todo mundo que me conhece. Sempre vou ser a megera.  — Isso não é verdade. — ela me olhou de relance. — Essa semana eu vi você exigir bem menos de todos, não ouvi ninguém ser humilhado, nenhuma injustiça proposital e o melhor de tudo: você dava bom dia a todos quando chegava pela manhã. Inclusive à mim, a pessoa que mais detesta aqui dentro.  Ela desviou o olhar e deu as costas, andando até o sofá que ficava de frente à uma tv. Da gaveta na mesinha de centro, ela tirou dois controles remotos de última geração.  — Você quer jogar? — perguntou.  — Quero. — respondi sem pensar no quão estranho aquilo era.  Dulce escolheu o jogo que eu a vi comprar da última vez que tive a chance de vê-la fora da empresa.  Primeiro, começamos a jogar em silêncio, concentrados apenas na tela em nossa frente. Fiquei impressionado em como ela era boa, até melhor do que eu.  Fui notando ela ficar cada vez mais à vontade.  Primeiro, tirou seus sapatos, depois deixou suas pernas sobre o sofá, cruzando-as para se sentar melhor. E com isso, a barra de seu vestido subiu, deixando suas pernas bem mais aparentes.  Não pude deixar de reparar em como aparentavam ser macias e eram tão brancas quanto a pele de seu rosto. Me distraí do jogo e ela passou ainda mais na minha frente.  — Olha pra tela, Uckermann. — riu.  — Eu tava olhando pra tela. — me defendi.  — Sei, eu vi. — me deu um leve empurrãozinho.  Depois de um tempo jogando, já estávamos mais leves e o que era pra ser uma partida silenciosa, virou uma sala barulhenta, cheia de risos e alguns palavrões de ambas as partes.  Nunca havia visto Dulce tão leve quanto agora.  Paramos de jogar e ela levantou pra pegar dois copos de uísque. Me entregou um e me pegou de surpresa, quando sentou ao meu lado e deitou a cabeça em meu peito, aproveitando que eu estava com o braço apoiado na cabeceira do sofá.  — Sabe, Christopher, eu acho que a gente começou m*l um com o outro. — ela disse.  — Olha só, me chamou de Christopher. — ri.  — Você pode me chamar de Dulce se quiser.  — Vou gostar disso. — desci meu braço pelo ombro dela e abracei seu corpo contra o meu.  — Concordo que a gente tenha começado m*l, mas as coisas podem melhorar. — Acho que já melhoraram. — levantou a cabeça para me observar.  Começamos a nos encarar e eu sentia que se continuássemos, com certeza outro beijo iria acontecer.  Me esquivei um pouco em direção à mesa de centro, sem deixar de abraçá-la e deixei meu copo ali. Em seguida, peguei o copo de Dulce e fiz o mesmo.  — O que você espera que a gente faça agora? — perguntei acariciando o cabelo dela.  — Eu jurava que você ia me beijar. — um momento de silêncio e então nós caímos na gargalhada. — O uísque faz um efeito rápido em mim.  — Então, na verdade você não pensou em eu te beijar?  — E se eu disser que sim?  — Você quer que eu te beije? — perguntei num tom mais baixo, quase sussurrando.  — Eu preciso responder?  Sem dizer mais nada, eu a trouxe para mais perto e a beijei com toda a vontade acumulada que gritava dentro de mim. Só esperava que dessa vez, tudo desse certo quando nós nos separássemos do beijo. Eu estava esperando por uma mulher que fizesse o meu coração bater mais rápido e aqui estava ela, bem debaixo do meu nariz o tempo inteiro. Uma mulher tão diferente de mim, mas que fazia o meu dia se tornar mais iluminado só de eu ver o seu sorriso, só de ouvir a sua voz e olhar aqueles olhos tão vibrantes. E mais do que tudo, os lábios dela me levavam ao paraíso e agora eu sabia, eu definitivamente tinha certeza de que estava apaixonado por Dulce, mais do que já estive por qualquer uma.  Sem parar de beija-la, a puxei até que sentasse em meu colo. Aprofundamos o beijo que vinha acompanhado de nossos toques corporais, com mãos sedentas que pareciam procurar por algo na pele um do outro.  Eu corria meus lábios por seu pescoço, voltava a atenção para a sua boca, enterrava minha mão em seus cabelos e desenhava a curva de seu corpo com meus dedos, tateando sua pele.  Afastei seu rosto por alguns instantes, desejando olhar para ela. Ofegantes, nos encaramos por alguns segundos e começamos a rir de satisfação, até ela abraçar meu corpo e tornar a me beijar, na mesma intensidade de antes.  Segurei firme suas pernas, subindo minhas mãos por dentro de seu vestido, desejando que aquilo passasse de apenas beijos, que o contato se tornasse muito mais caloroso.  A boca de Dulce era macia, doce e com um ar convidativo e viciante. Sua língua era fria e conhecia movimentos cruciais, capazes de me deixarem em êxtase e imaginando diferentes situações onde eu a tinha ao meu gosto.  Dulce começou a rebolar em meu colo e então eu senti uma ereção começar a se formar dentro da minha calça. Aquilo definitivamente precisava ser consumado naquela noite.  — Ai. Meu. Deus. — ouvimos alguém exclamar da porta da sala.  Dulce e eu paramos de nos beijar e olhamos em direção à voz.  Quando vi o rosto de Maitê enrijecido enquanto nos encarava, eu tirei Dulce de cima de mim rapidamente e fiquei de pé, assustado com toda a situação. — May, por favor... — comecei.  — Cala a boca! — gritou com os olhos marejados e então saiu correndo.  Pensei em ir atrás dela no mesmo instante, mas algo me travou. Olhei para Dulce que mantinha-se inexpressiva.  — Não olha pra mim, você que tem que saber se quer ir atrás dela ou não. — ela disse.  — Acontece que eu não sei.  — Você gosta dela?  — Eu... eu não sei... — não queria precipitar as minhas palavras.  — Christopher... — ela ficou de pé e apoiou as mãos em meu ombro. — Eu sei que vocês dois combinam muito mais do que você e eu. Maitê pode ser a sua única chance de ser feliz, não a perca por causa de uma atração física por mim.  Ela deu as costas e caminhou até ficar de frente às vidraças, exatamente como a encontrei quando cheguei aqui.  Tomei fôlego e saí de lá, voltando para o terraço onde a festa acontecia. Procurei por Maitê, mas só vi Annie de longe, perto das bebidas. — Annie, você viu a May? — falei ao chegar perto dela.  Anahi me olhou com tanto ódio que eu quis saltar daquele prédio no mesmo instante. E sem dizer nenhuma palavra, ela depositou uma bofetada em meu rosto.  — Você não vale nada! — gritou. — Como teve coragem de fazer isso com a May?  — Olha, eu entendo que você está com raiva, mas agora não é hora de me dar sermão. — falei enquanto esfregava o lado do meu rosto em que ela havia batido.  — Maitê foi pra casa com o Christian. Não imagina o quanto ela está arrasada! Você é uma decepção, Christopher!  — Annie... você não entende...  — Sim, eu entendo! Você é homem e não conseguiu se segurar quando a Dulce se jogou pra cima de você, não é?  — Ela não se jogou... nós só...  — Olha, você cala essa boca, se não vai ganhar outra bofetada! — nunca vi Annie tão irritada quanto agora.  — É melhor eu ir pra casa. Com você eu falo depois.  Dirigi até em casa e assim que entrei, fui direto para o quarto da May. A porta estava aberta e eu vi ela dormir abraçada em Christian.  Provavelmente, deitaram assim que chegaram, pois ainda estavam com a roupa da festa.  Me dei por vencido e resolvi ir dormir também, pra que tudo aquilo sumisse um pouco da minha cabeça.  Eu não traí a Maitê, afinal, nunca oficializamos nenhuma relação, só estávamos nos conhecendo melhor. E como eu poderia resistir à Dulce? Apenas era desastroso que só agora eu me dei conta de que estava apaixonado por ela.
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