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1620 Words
Dulce Engoli qualquer vestígio de choro que ameaçava aparecer. Tentar ser justa com os meus sentimentos foi uma ideia i****a e o resultado foi bem pior do que eu pensei que seria.  Ele não era pra mim e eu não era pra ele. Não posso ficar com essa ideia estapafúrdia de que por um milagre do destino nós pudéssemos ser compatíveis.  Terminei de pegar minhas coisas e saí da empresa. Mas não fui almoçar, como era previsto. Dirigi até o orfanato com o intuito de estar em um lugar que me trouxesse um pouco de paz, como senti da última vez em que estive ali.  Toquei a campainha e não demorou muito para a porta ser aberta e justamente pelo pequeno Bernardo. Ele usava um pijama e parecia um pouco abatido, mas abriu um largo sorriso e me deu um abraço apertado assim que me viu.  — Que bom te ver de novo, Dul! — ele disse.  — Digo o mesmo, meu anjo. — sorri. — Você parece pálido, se sente bem? — acariciei seu rosto.  — Acordei com um pouco de febre, mas já estou bem.  — Tem certeza? — coloquei minha mão sobre a sua testa.  — Sim, eu estava até brincando aqui na sala. Vem ver. — ele pegou em minha mão e me levou até onde seus brinquedos estavam espalhados no chão.  — E as outras crianças? — perguntei depois de perceber que o lugar estava silencioso.  — Estão na escola. Nós estudamos num colégio integral. Apenas eu e algumas meninas mais novas estamos aqui.  — Entendo. E onde está a Miranda? — Provavelmente na sala dela.  — Eu vou até lá, depois volto pra ficar mais um pouco com você.  — Vou estar esperando. — afaguei seus cabelos e fui em direção à sala de Miranda. Bati duas vezes na porta.  — Pode entrar.  — Com licença. — falei ao entrar. — Dulce! Que surpresa vê-la aqui! No que posso ajudar? — perguntou simpática.  — Eu só queria passar pra ver as crianças, mas soube que estudam num colégio integral.  — Pois é, só o Bernardo e algumas meninas menores ficaram. Acordaram um pouco febris e nós vimos algumas manchas vermelhas pelo corpo.  — Já chamaram um médico?  — Eu adoraria, mas o orçamento está um pouco apertado esse mês, então estamos tentando dar conta.  — Eles podem estar tendo uma reação alérgica ou até uma epidemia. Vamos, ligue para um médico de confiança e eu pago a consulta.  — Faria mesmo isso?  — Mas é claro! Será um prazer ajudar.  — Você é um anjo, Dulce! Agora mesmo vou ligar para o médico das crianças.  — Ótimo! Eu vou estar na sala com o Bernardo.  Voltei para a sala e dessa vez tinham mais três garotinhas junto com o Bernardo. Elas pareciam querer convence-lo a brincar de algo que ele não queria.  — Tudo bem aí? — perguntei.  — Dul, elas querem me obrigar a brincar de maquiagem! Diz pra elas que eu sou homem.  — Maquiagem não é coisa de mulher, Bernardo. Existem homens que usam e até mesmo que trabalham maquiando outras pessoas. E eles não são menos homens por isso. — tentei falar da forma mais clara possível.  — Viu só, cabeça de vento? — uma das meninas disse. — É só pintura.  — Mas vocês também não podem obriga-lo a fazer algo que não quer. Precisam respeitar o espaço das pessoas. — direcionei minha atenção para as meninas. — Isso aí, respeitem. — Bernardo falou. — Mas vocês podiam maquiar a Dul! — disse animado.  — O que? — dei risada. — Gente, eu adoraria, mas...  — Por favor! — as meninas imploraram em uníssono e com um olhar pidão que me fez estremecer.  — Não sei...  — Vamos, Dul. Vai ser legal. — Bernardo segurou minha mão.  — Bem... — olhei meu relógio de pulso. — Acho que ainda tenho um tempinho.  Eles comemoraram com alguns pulinhos e eu sentei no sofá. Além das meninas, Bernardo também fez questão de entrar na brincadeira.  Eu dava algumas dicas, ensinava o nome de alguns produtos e pra que serviam e dei liberdade pra fazerem o que queriam no meu rosto. Depois, era só lavar e refazer minha maquiagem antes de ir para a empresa.  Foi mais divertido do que eu pensei e eu também maquiei as meninas. Não podia ver o meu rosto agora, mas pela quantidade de glitter na minha blusa, dava pra imaginar a explosão de brilho em minha face.  — Dulce? Ah, meu Deus! — exclamou Miranda com surpresa. — Você está... espetacular. — riu.  — Obrigada. — ri junto.  — Todas vocês estão, mas agora vou precisar que se limpem. O médico já está a caminho.  — Droga! — nem notei que já havia se passado uma hora. — Estou atrasada, tenho que voltar para a empresa. — fiquei de pé pegando minhas coisas.  — Ah... Dulce? — Miranda me parou antes que eu saísse. — Quer um demaquilante emprestado?  — Deus, sim! — dei risada. — Por favor.  Ela me levou até o banheiro e assim que me olhei no espelho, caí na gargalhada. Parecia um palhaço de tão colorida e brilhante.  Às pressas, eu usei o demaquilante pra tirar a maquiagem e antes de sair, deixei um cheque com o suficiente para pagar a consulta com o médico e qualquer remédio que precisassem.  Saí rapidamente e dirigi até a empresa. Nem tive tempo de refazer a minha maquiagem.  Quando cheguei, tirei meus sapatos pra andar mais rápido. Quase esqueci da reunião que convoquei depois do horário do almoço.  Provavelmente estavam todos me esperando.  Com os sapatos nas mãos e correndo, eu fui até a maior sala de reuniões da empresa, já que a maioria dos funcionários havia sido convocado.  Abri a porta bruscamente e parei ofegante, olhando para todos eles. Ficaram em silêncio assim que entrei e me olhavam como se eu fosse algum animal de circo.  — Olá. — tentei sorrir. — Desculpem o atraso, eu tive um imprevisto. — caminhei até ficar diante de todos.  Olhei para o canto de relance e pude ver o olhar de estranheza no rosto de Christopher.  Como todos ali, ele me olhava de cima a baixo com um ponto de interrogação no rosto, mas com algo diferente também.  Apesar de parecer confuso, algo como um meio sorriso era aparente.  — Devem estar se perguntando o porquê de uma reunião grande assim. — comecei. — Pois bem... andei pensando sobre as relações interpessoais dentro da empresa e me dei conta de que nunca tivemos a chance de ter algo mais informal entre os funcionários. Algo que pudesse uni-los além da profissão. — mesmo que eu estivesse com a cara lavada, descalço e possivelmente descabelada, mantinha a pose como ninguém. — Pensei em uma festa. — e então o burburinho começou. — Atenção! — gritei. — Quero que vocês se sintam confortáveis dentro da empresa, então isso servirá pra quebrar o gelo. Um gelo que talvez eu tenha formado. — ri sem jeito. — Pois bem, sexta à noite, no terraço da empresa e por minha conta. — mesmo com suas expressões contentes, eles não comemoravam. — Não precisam se reprimir, comemorem, façam o barulho que quiserem. — encorajei.  E assim eles fizeram. Bateram palmas, deram gritinhos de comemoração e disseram algumas palavras gentis antes de se retirarem, um a um da sala.  O único que não saiu foi Christopher, que ainda me olhava como se nunca tivesse me visto antes.  — Precisa de alguma coisa, Uckermann? — perguntei.  — Não. — ele se aproximou e ficou bem próximo à mim. — Estilo legal. — disse olhando para os meus pés. — Libertador. — sorriu.  — Longa história. — dei de ombros. Ele estendeu a mão em direção ao meu rosto e eu prendi a respiração. E então, correu seu polegar por minha bochecha.  — Imagino que seja uma história bem louca. — revelou um pouco de sombra roxa em seu dedo, que com certeza impregnava o meu rosto.  — Oh, céus. — esfreguei minhas mãos na bochecha, tentando limpar.  — Legal. — riu. Franzi a testa o encarando. — Muito legal. — murmurou indo em direção à saída.  O ar até pesava quando ele estava perto, dificultando a minha respiração. Talvez esses fossem os efeitos letais de se estar apaixonada.  Calcei os meus sapatos e saí de lá, indo direto para a minha sala.  — Senhorita Saviñon? — Annie me chamou quando passei por ela.  — Sim?  — Meu Deus, o que aconteceu com o seu rosto? — me olhou com estranheza. — Digo... está maravilhosa como sempre, é só que... tem algumas manchas e acho que um pouco glitter.  — Droga. Eu vou tirar isso no meu banheiro. — ri.  — Claro. Bem, uma moça ligou. Ela disse que o nome dela é Miranda.  — Sei, e o que ela disse?  — Que as crianças estão bem e só tiveram uma infecção por causa da terra.  — Ótimo.  — E tem mais, ela disse que vai haver um evento esportivo no sábado pela manhã e que a senhorita está convidada.  — Ok, eu irei.  — Seria muito intrusivo se eu perguntasse quem é Miranda? — perguntou sem jeito.  — Seria. — respondi séria.  — Ah, sendo assim, me desculpe. — eu assenti.  Tirei o resto de maquiagem do meu rosto e coloquei apenas um batom vermelho. Não sairia da empresa pelo resto do dia, então não iria me preocupar com a minha aparência.  As novas experiências estavam me deixando feliz e me fazendo ver o mundo de uma forma que nunca imaginei poder ver. A simplicidade das coisas pequenas me alegrava e estava me tornando alguém melhor.
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