Christopher
Apesar do descaramento de Catarina na academia, consegui convencer Maitê de que entre eu e ela já não havia mais nada e aquela cena foi apenas para me provocar.
Acabei não comentando sobre Dulce, que vi aos risos com Catarina. Provavelmente, as duas se divertiram com a situação. Eram exatamente da mesma laia.
Na segunda-feira, perto do horário do almoço, eu estava ocupado em minha sala quando Christian e Maitê entraram sem bater. Os dois pareciam aflitos.
— Algum problema? — perguntei.
— Senhorita Saviñon mandou cortar as verbas de alguns projetos e os da Maitê foram incluídos.
— Você não sabe o ódio que eu estou! — ela esbravejou. — São projetos grandes e eu precisaria de cada centavo fornecido! — falou em desespero.
— Calma. — levantei e segurei suas mãos. — Você pode pedir uma reavaliação do seu caso no conselho e pode ser que a verba seja reavida.
— Já fiz isso, mas pode demorar! Eu tenho um prazo pra terminar os meus projetos! O que ela quer agora? Arrancar a nossa sanidade mental? Eu deveria dizer umas verdades! — fez menção de sair, mas eu segurei seu braço.
— Opa, não. — eu disse. — Você sabe como as coisas funcionam quando se trata da Dulce.
— Pois é, May. Quanto mais você esperneia, mais errado você está. — Christian completou.
— E o que eu devo fazer? — ela choramingou.
— Manter a calma e ter paciência. — segurei seu rosto entre minhas mãos. — Eu prometo que nós vamos te apoiar e tentar de tudo junto com você. Não admito que você seja injustiçada. — pressionei meus lábios contra os dela, depositando um beijo rápido.
— Obrigada. — ela sorriu.
— E que tal se eu e Christian fôssemos falar com o conselho? Quanto mais gente os pressionando, mais rápido as coisas vão andar.
— Fariam isso por mim?
— Qualquer coisa por meus amigos. — Christian sorriu.
— Vamos lá.
Segurei a mão de May e nós saímos da minha sala. No meio do caminho, avistamos Dulce sair da sala dela, provavelmente indo almoçar.
Segurei firme a mão de May pra que ela não quisesse fazer nenhuma bobagem, mas mesmo assim não foi o suficiente.
— Eu preciso fazer isso. — ela disse, indo rápido em direção à Dulce.
— May! — a acompanhei.
— Qual o seu problema?? — falou parando na frente de Dulce antes que ela entrasse no elevador.
— Perdão? — Dulce franziu a testa.
— Cortou verba de vários projetos e pra que? Pra prejudicar seus próprios funcionários? Eu preciso daquela verba, entende?? Não pode simplesmente querer que a gente se vire dessa forma!! Eu estou cansada das suas crueldades totalmente desnecessárias! — berrou.
Eu já estava com o coração na mão, esperando que Dulce dissesse coisas horríveis e que prejudicasse a May. Mas ela apenas olhava a Maitê confusa, como se toda a situação não fosse de seu conhecimento.
— Antes que a senhorita ameace a Maitê de mil e uma formas diferentes, será que nós podemos ter uma conversa em particular? — falei. Ela assentiu incerta e eu a segui até sua sala. — Então... eu sei que deve estar uma fera pela situação de agora, mas pode apostar que a Maitê não é assim. Ela não fica brava com muita facilidade, a não ser quando algo está a incomodando muito. Como esses cortes de verba.
— Eu acho que o setor econômico se enganou e colocou o nome da Perroni na lista de cortes. — ela disse calmamente enquanto lia alguns papéis. — Encontrei. — ela separou um documento. — Pois é, se enganaram. Vou mandar a Anahi reportar o erro e amanhã mesmo a verba destinada aos projetos da Perroni voltarão. — estava tão calma que eu me perguntava se era mesmo a Dulce na minha frente.
— É isso? Tudo certo? Não vai surtar nem nada?
— Por que eu surtaria? — franziu a testa.
— A May fez um escândalo com você na frente de todos.
— É de se esperar, eu também ficaria nervosa se alguém me prejudicasse. — riu pelo nariz. — Só espero que ela entenda que isso não é minha culpa. Eu dei uma ordem e eles erraram na execução da tarefa.
— Claro, ela vai entender. — assenti. — Então, tudo bem ela ter te ofendido? — eu estava mesmo sem acreditar.
— Não me senti ofendida, Uckermann. — suspirou. — Sei que deve estar preocupado, afinal você gosta dela.
— É... — desviei o olhar.
— Não precisa dessa preocupação. Eu ando fazendo coisas que estão me deixando mais relaxada e não vai ser o surto de uma funcionária que vai tirar a minha paz. — sorriu.
— Bom, fico feliz com isso. Sinal de que está evoluindo.
— Minha evolução também precisa ser pessoal e não só profissional.
— Claro. Enfim, obrigado. Eu vou avisar a May que ela não precisa ficar preocupada. — dei as costas para ir embora.
— Então, é sério? — tornei a olhá-la com a testa franzida. — Entre vocês dois... as coisas estão sérias?
— Como sabe que a gente tá junto?
— Então vocês estão mesmo juntos? — elevou suas sobrancelhas em sinal de surpresa.
— A gente saiu pra jantar na sexta e estamos tentando fazer dar certo. — dei de ombros. — Não entendo porquê isso te interessaria.
— Só curiosidade. — ela se aproximou e enlaçou meus ombros com os braços, me deixando um tanto quanto tenso. — Eu quero que você me perdoe por ter falado aquelas coisas no elevador. Eu estava errada. Não tem problema nenhum sentir desejos por um funcionário... — desviou o olhar. — Mas tem problema demais em ser uma babaca. — Dulce parecia sincera e arrependida.
— Uau... — foi a única coisa que eu consegui dizer.
— Eu sei que você me odeia, mas eu não me orgulho disso. Não queria que fosse assim. — acariciou meu rosto com as pontas dos dedos.
— E como você quer que seja?
E então, ela se aproximou. Olhando meus lábios enquanto unia nossos corpos pouco a pouco. Eu também não pude resistir e me deixei levar por todas aquelas sensações momentâneas.
Quando me dei conta, nossas bocas já estavam coladas uma na outra e nós dois nos envolvíamos num beijo sedento e insaciável, que só teve fim quando ouvimos algumas batidas na porta.
Dulce se afastou bruscamente e arrumou seus cabelos.
— Quem é? — perguntou. A porta foi aberta e Annie entrou.
— Eu só queria saber se a senhorita vai almoçar fora ou se quer que eu traga o almoço aqui.
— Eu já estou de saída. — Dulce respondeu.
— Ok, sendo assim, eu já vou almoçar. Com licença. — se retirou.
— Christopher...
— Não. — a interrompi. — Acha que é assim tão fácil? Sim, eu acho você incrivelmente linda e sim, você me atrai demais. Mas isso não é motivo o suficiente pra eu deixar os meus princípios de lado e esquecer as coisas terríveis que já me disse, ou todas as noites torturantes que passei sem dormir só porque você queria me ver sofrer.
— Mas não vê que estou tentando ser melhor? — suplicou.
— Não é se jogando pra cima de mim que você vai provar que é melhor! Catarina já fez isso uma vez e se mostrou completamente o contrário do que eu imaginava!
— Eu não sou a Catarina! — exclamou.
— Mas é exatamente igual à ela! — berrei.
— Não. — negou com a cabeça. — Nunca.
— Sim. É. E a menos que você realmente comece a ser uma pessoa melhor, eu nunca vou acreditar em você. Fica longe de mim.
— Christopher...
— Fica. Longe. De mim. — falei pausadamente.
Ela parecia que iria desmoronar e eu não iria ficar ali para ver isso.
Saí de sua sala imediatamente e fui ao encontro de May, que estava no refeitório, com um copo de água em mãos. Sentei-me ao seu lado e acariciei seu rosto.
— Está tudo bem agora. Ela disse que tudo foi apenas um engano e que amanhã mesmo a verba voltará para os seus projetos.
— Graças aos céus! — comemorou e me deu um abraço. — Será que ela ficou muito brava por eu ter falado com ela daquela forma? — perguntou com preocupação.
— Por incrível que pareça, não. Disse que te entendia e que estava tudo bem.
— Tem certeza que foi a Dulce, nossa chefe que disse isso? — franziu a testa.
— Tenho.
— Tá tudo bem com você? Parece tenso. — segurou meu rosto entre suas mãos.
— Só estou um pouco cansado. Acho que vou usar o horário do almoço pra tirar um cochilo na minha sala. — ela assentiu. — Te vejo depois. — dei um selinho nela e me levantei.
A verdade é que nem se eu tentasse muito conseguiria tirar um cochilo. Dulce rondava os meus pensamentos e se fazia presente, apesar de todas as minhas tentativas de afastá-la.
Não posso negar que algo nela estava mesmo diferente, mas não sou i****a de confiar nela assim logo de cara. Era preciso mais do que um breve momento de compaixão e um aparente arrependimento.
Passei dias em pé de guerra com uma mulher que certamente tinha ódio por mim, não seria assim, de uma hora para outra que eu iria dar minha confiança de bandeja e deixá-la entrar em minha vida.
Eu nunca entregaria o meu coração para uma mulher tão podre quanto ela, por mais que meu corpo e minha mente implorassem pela Dulce.