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1542 Words
Dulce Na manhã de domingo, eu dirigi até o endereço que Angelique havia me passado.  Parei em frente à uma mansão de três andares e dei uma última olhada antes de sair do carro.  Os portões do jardim estavam abertos, então eu andei até a porta de entrada e toquei a campainha. Uma senhora de meia idade que parecia ser a governanta abriu e sorriu gentilmente ao me ver. — Bom dia, no que posso ajudar? — perguntou.  Antes que eu respondesse, três crianças passaram correndo apressadamente pela porta, quase me derrubando. Olhei para o jardim, onde eles riam e corriam.  — Ah, essas crianças! — exclamou a senhora. — Por favor, queira entrar.  O convite me soou estranho. A mulher m*l sabia quem eu era e me deixa entrar?  Sem questionar, eu a acompanhei até a sala de estar. O espaço era grande, com três grandes sofás e algumas poltronas, pra pelo menos umas vinte pessoas poderem sentar.  Sentadas no carpete, estavam duas garotinhas com várias bonecas. Franzi a testa perguntando a mim mesma quantas crianças mais eu veria.  — Como a senhorita se chama? — a senhora me perguntou.  — Dulce. — respondi.  — Só um minuto, eu vou chamar a diretora pra conversar com a senhorita. — ela se afastou entrando no corredor.  Diretora? Aqui seria alguma espécie de internato?  Sentei em um dos sofás e sorri de leve para as meninas que brincavam. Uma delas levantou e veio até mim.  — Você é muito bonita. — ela disse.  — Obrigada, você também é linda. — fiquei realmente tocada com o elogio.  — Vai ser a mamãe de alguém? — perguntou.  — O que? Eu não entendi. — franzi a testa.  — É que quando as mulheres querem ser mamães, elas vêm aqui e levam algum de nós. Está aqui para isso, não? — ouvir aquilo me fez começar a entender.  — Você ainda não tem uma mamãe?  — Não. Mas a tia Miranda disse que logo eu vou ter uma família.  — E quem é Miranda?  — Sou eu. — levantei o olhar e avistei uma mulher parada em minha frente. — Muito prazer, sou Miranda Julien, diretora do orfanato. — fiquei de pé e nós demos um aperto de mãos.  — Sou Dulce Maria Saviñon.  — Te reconheci das revistas. — sorriu. — Vamos, me acompanhe até a minha sala.  Ela começou a andar e eu fui logo atrás, até chegarmos à sua sala.  — Por favor, fique à vontade. — ela disse. Sentei em uma das cadeiras de frente à sua mesa e ela sentou do outro lado. — E então, pretende adotar? Sei que não é casada, mas é comum que busque uma companhia para a sua vida aqui.  — Não, não vim adotar.  — Então, fazer uma doação?  — Bem, talvez outro dia. — dei de ombros. — No momento, eu só quero conhecer o lugar. Será que posso conversar com as crianças?  — Ah, mas é claro! — falou com animação. — As pessoas vêm aqui o tempo inteiro pra conhecer as nossas crianças. É uma atitude super comum.  — Ótimo. — sorri.  — Como hoje é domingo, eles estão aproveitando o dia lá fora. Venha comigo.  A acompanhei até a parte externa do local. Era incrível a quantidade de crianças, mas tinham pelo menos mais dez senhorinhas além daquela que atendeu a porta para mim, cuidando de todos.  As crianças brincavam em grupos ou duplas, riam muito, exploravam as plantinhas do jardim e pareciam transparecer alegria. Corri meus olhos por todos eles com um sorriso de satisfação no rosto. Se Angelique achava que aqui eu encontraria alguém que se sentisse como eu, ela estava errada. Essas crianças com toda certeza eram muito felizes.  Mas então, meus olhar encontrou um garotinho que estava sozinho em uma mesa, afastado das outras crianças brincando com alguns blocos de encaixe.  — Por que aquele menino não está brincando com os outros? — perguntei.  — Ele sempre foi assim, desde que chegou ao orfanato. Prefere ficar sozinho do que interagir com as outras crianças.  — Eu posso ir falar com ele?  — Fique à vontade.  Devagar, eu andei até a mesa onde ele estava e sentei na sua frente. Sem parar de dar atenção aos seus blocos, ele me olhou e sorriu.  — Oi, tudo bem? — me perguntou.  — Tudo. Me chamo Dulce, e você?  — Bernardo.  — E então, Bernardo, por que está brincando sozinho?  — Os outros não gostam muito de mim.  — E por que não?  — Eles acham que eu sou estranho, não querem ficar perto. — ele falava de modo despreocupado.  — E tudo bem pra você?  — Uma hora a gente acostuma... — deu de ombros.  — Eu posso brincar com você? — Pode. O que você quer montar?  — Que tal nós criarmos um forte para estes soldados? — falei pegando alguns bonecos de plástico que estavam jogados ao lado. — Podemos fingir que estão em guerra.  — Ótimo! Quero ver se você é boa montando.  — Olha que você pode se surpreender. — sorri.  Começamos a montar as peças enquanto ele me enchia de perguntas aleatórias sobre minhas comidas favoritas, que cor eu mais gostava de vestir ou as minhas músicas mais ouvidas. Até que ele começou a fazer perguntas bem mais íntimas do que eu imaginei que uma criança faria.  — Você tem papai e mamãe? — perguntou.  — Só mamãe. — respondi. — Meu papai morreu faz alguns anos.  — Os meus morreram num acidente.  — É mesmo? E faz muito tempo?  — Eu era bem pequeno, não lembro de muita coisa. Só lembro de ter ficado no hospital por uns dias e depois uma moça me buscou e me trouxe pra cá. Ela disse que meus pais estavam num lugar melhor.  — Eu sinto muito... — desviei o olhar. — Sente falta deles?  — Não me lembro muito dos dois, mas com certeza eu gostaria de ter uma família comigo. E você? Deve sentir falta do seu papai.  — Sim, muita.  — Pelo menos você tem a sua mamãe com você. — ficou cabisbaixo. Coloquei minha mão sobre a dele e o olhei com ternura.  — Não se preocupe. Você terá a sua família em breve e tenho certeza que eles te amarão e protegerão você de qualquer coisa. — ele abriu um sorriso de leve. — Além do mais, eu meio que não tenho a minha mãe comigo. Ela mora bem longe e só a vejo em ocasiões super especiais.  — E com quem você vive?  — Com ninguém. Sou completamente sozinha no mundo.  — Acho que você me entende.  — As pessoas também não ficam perto de mim por muito tempo. Acho que eles têm medo, sei lá... — suspirei. — Mas agora parece que eu encontrei alguém que está disposto a conversar comigo, não é mesmo?  — Sim, você é muito legal, Dul.  — "Dul"?  — Ninguém nunca te chamou assim? — Não.  — Pois agora eu chamarei. — sorriu e eu retribuí.  Continuamos a montagem dos blocos e brincamos com os bonecos por um longo tempo. Me sentia até uma criança de novo de tanto que eu me divertia.  Naquele momento com Bernardo, eu me senti em total paz. Como se todo e qualquer problema que existia na minha vida fossem abafados pelo som da risada daquele garotinho que foi a primeira pessoa a criar um apelido pra mim sem o intuito de me ofender.  — Eu preciso ir. — falei olhando meu relógio de pulso que marcava quase meio dia.  — Mas já? — resmungou.  — Tenho um almoço de negócios com alguns sócios estrangeiros e esse é o único horário da semana em que estão disponíveis. — eu disse esperando que ele não entendesse nada.  — Você é tipo empresária? — arqueei as sobrancelhas em sinal de surpresa.  — É, eu sou.  — Que irado! Empresária de que? — Publicidade e propaganda.  — Agora que você disse, lembrei de onde já te vi. Em uma das revistas que a tia Miranda lê.  — Pois é, eu saio nelas às vezes, mas confesso que eu detesto. — sussurrei como se aquilo fosse segredo e ele riu.  — Deve ser chato ficar parado um tempão enquanto tiram fotos de você.  — Sim, ainda mais quando se é uma pessoa ocupada como eu. Bom, eu tenho que ir. Adorei te conhecer, Bernardo. — fiquei de pé.  Ele levantou, veio até mim e me abraçou apertado. No primeiro instante, o toque carinhoso me pegou de surpresa e eu fiquei sem reação, mas logo me abaixei um pouco mais e enlacei meus braços em volta dele.  Sentia que aquele menino era precioso e me fez sentir mais viva do que nunca antes.  — Você vai voltar pra me ver de novo? — perguntou ainda me abraçando.  — Não vejo a hora de voltar. — falei sorrindo.  — Até mais. — acenei uma última vez antes de me afastar.  No final, ir até lá me fez muito bem, me renovou por inteira, me fazendo sentir outra pessoa.  Fazia tempos em que eu não precisava ficar na defensiva com outra pessoa, simplesmente fui eu mesma, o mais leve possível e me diverti brincando com uma criança.
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