Dulce
Acabei ouvindo Christopher conversar com Annie do lado de fora da minha sala. Ele disse que chamaria Maitê Perroni pra sair, além de também ter ouvido a própria Annie dizer que mulheres ricas como eu e Catarina eram difíceis de lidar.
Não que aquilo devesse ter importância pra mim, mas mesmo assim me incomodou.
O breve momento de pegação com ele no elevador não saía da minha cabeça e mesmo negando aos quatro ventos, sim, eu havia gostado mais do que deveria.
E agora, lá está ele. Fugindo de mulheres iguais à mim. Não o julgo por isso, principalmente depois de eu ter dito que ele não merecia ser um de meus desejos por ser um funcionário.
Foi difícil dizer isso, mas é a verdade. Uma mulher como eu não pode se envolver com qualquer um. Preferia ficar solteira pelo resto da vida do que acabar com minha imagem social.
Minha cabeça começou a latejar e eu sabia que Christopher martelaria em minha mente por alguns dias, até que eu esquecesse o incidente do elevador. A única forma de relaxar era indo à uma consulta com Angelique.
Ao invés de pedir para a Annie ligar, eu mesma fiz a ligação pelo meu celular.
— Consultório de psicologia da Dra Angelique, no que posso ajudar? — a recepcionista falou ao atender.
— Boa tarde, aqui é Dulce Maria Saviñon. Eu tenho uma consulta marcada para a próxima semana, mas gostaria de adiantar o mais rápido possível.
— Só um minuto, senhorita Saviñon. — esperei por um curto período de tempo. — A única vaga disponível é para o sábado à tarde.
— Pode marcar.
— Às 15:00 horas a senhorita pode vir.
— Ok, obrigada.
— Tenha uma boa tarde.
— Você também.
Desliguei e voltei aos meus afazeres. Não admitiria que Christopher rondasse os meus pensamentos, nem que eu precisasse de uma lobotomia pra tirá-lo da minha cabeça.
{...}
No sábado pela manhã, eu resolvi ir até a academia do centro novamente. Essa podia ser uma rotina da qual eu pudesse começar a gostar.
Estava na aula de ioga, quando pela vidraça da sala, eu vi Christopher ajudando Maitê a se alongar.
Eu sabia que eram amigos e até dividiam apartamento, mas pareciam bem mais que isso agora. Ele tocava nela de forma firme e os dois trocavam olhares à todo instante.
Não consegui desviar o meu olhar e acabei me desequilibrando em uma das posições. Definitivamente, minha concentração havia indo embora.
Desisti da aula de ioga e fui até o bebedouro, sem tirar meus olhos daqueles dois que mais pareciam estar num parque de diversões do que em uma academia, tendo em vista como eles riam.
— Senhorita Saviñon! — Annie apareceu ao meu lado.
— Ah, oi! — sorri.
— Que bom vê-la aqui de novo.
— Pois é, eu estou testando fazer exercício em um lugar mais desafiador.
Eu tentava olhar diretamente para ela, mas meus instintos me traiam, fazendo-me encarar Christopher e Maitê incessantemente.
— Isso é bom. — ela também olhou na direção deles. — Fofos, não? Eu disse que eles combinavam. — disse com satisfação.
— Você acha?
— Sim. Eles saíram pra jantar ontem e voltaram bem tarde. Aposto que foram à um lugarzinho mais íntimo, se é que me entende.
— piscou.
— Sei... claro. — ri sem graça.
— Bom, eu tenho que ir. Até mais, senhorita Saviñon.
— Até.
Ela saiu andando e eu tornei a olhar o casal de pombinhos. Nem notei que Maitê havia se afastado dele.
Christopher agora segurava uma barra de ferro com alguns pesos de cada lado e fazia agachamentos com a barra em suas costas.
Corri meus olhos por todo o seu corpo, sem deixar de notar cada definição que chamavam a minha atenção completamente. Prendi meu olhar no corpo dele, enquanto ele se movimentava e seu suor corria por entre seus músculos.
— É uma delícia, não? — ouvi uma voz feminina ao meu lado e saí do meu transe.
— Catarina?
— Não, Cleópatra. — zombou e eu revirei os olhos. — Acho que vou colocar as minhas mãos naquela carne outra vez. — sorriu de lado.
— Não perde seu tempo, ele tá saindo com uma garota.
— Está saindo, mas não está compromissado. Pode muito bem tropeçar e cair na minha cama. — riu.
— Pelo amor de Deus! — falei com asco.
— O que? Vai me dizer que não tem curiosidade pra saber se Christopher é tão bom na cama quanto os seus braços o fazem parecer que é? — me peguei pensando naquilo, mas logo balancei a cabeça negativamente.
— Eu tenho escrúpulos, Catarina.
— E eu tenho necessidades. — falou olhando na direção dele. — Pode apostar que aquele pedaço de m*l caminho sabe muito bem do que uma mulher gosta. — dizia como se estivesse lembrando de algo. — Os movimentos dele não saem da minha cabeça.
— Me poupe dos detalhes da sua vida! — eu disse antes que ela continuasse com aquilo. — Aí... por que não vai lá falar com ele agora? A garota com quem ele sai está aqui e aposto que ela morreria de ciúmes se te visse dando em cima dele. — aquela era uma ideia podre, mas podia funcionar.
— Não estou te entendendo, Dulce. No que isso te beneficiaria?
— Detesto o Uckermann e daria tudo pra vê-lo se dando m*l com a princesinha dele.
— Pois bem, aproveite o show. — ela saiu andando na direção dele.
Os meus motivos iam muito além de odiar o Christopher. Eu realmente não queria que ele saísse com a Maitê. Aquilo me incomodava e esse incômodo me fazia sentir suja e errada, mas eu queria que isso parasse. E se eu precisasse jogar a Catarina nele pra isso, assim eu faria.
Observei quando ela se aproximou, já tocando o peitoral dele, que deu um passo para trás na defensiva, mas logo se mostrou fraco diante das investidas dela. Catarina sabia como prender a atenção de um homem.
Do outro lado da academia, Maitê surgia, segurando um copo com água. Travou assim que viu Catarina conversar com Christopher.
Ele notou a presença dela e antes que pensasse em se explicar, a mesma deu as costas e saiu apressada, com cara de poucos amigos.
Depois de obter sucesso, Catarina se afastou voltando ao meu encontro. Eu não consegui segurar o meu riso e nós duas rimos juntas com tudo aquilo.
Christopher pareceu chocado quando me viu com ela e me olhou com a fúria cotidiana que costumava despejar em mim.
Meu sorriso se desfez e uma pontada de remorço cresceu em meu peito. Eu não queria que ele me olhasse assim, muito menos que continuasse sentindo aquele sentimento vazio em relação à mim.
— Dulce, quando quer você é excelente! — falou Catarina ainda rindo.
— Tanto faz. — me desanimei.
— Ele ficou um pouco bravinho comigo, mas aposto que logo vai dar o braço a torcer. Principalmente depois que aquela sem sal brigar com ele. — deu uma piscadela e logo tratou de ir embora.
Nem que eu precisasse fazer uma prece, ele jamais voltaria a se deitar com ela. Preferia até que continuasse com a sem graça da Maitê do que ter que vê-lo aos pés de uma Morgan.
E o que era esse sentimento? Essa vontade de que Christopher ficasse sozinho? O que aquilo queria dizer? Queimava o meu peito como uma lâmina ardente e era diferente de qualquer coisa que já senti por alguma pessoa.
Me dava medo e eu custava a acreditar que em mim pudesse existir algum tipo de carinho por Christopher.
Nos encaramos uma última vez antes de eu dar as costas e ir para longe de seu olhar.
{...}
Assim que cheguei ao consultório, fui atendida e a primeira coisa que fiz foi relatar as coisas novas que experimentei durante a semana. Isso incluía o meu videogame, a ida até a academia e claro, o almoço no restaurante italiano com Christopher.
— E quem é Christopher? — ela perguntou. — Não lembro de termos falado dele.
— Ele é um dos meus funcionários.
— Achei que não tivesse uma boa relação com os seus funcionários. — franziu a testa.
— E não tenho, muito menos com o Christopher. — suspirei. — É uma longa história.
— Eu quero ouvir.
— Eu e Christopher nos detestamos, vivemos discutindo e tudo o que ele diz é com o intuito de me irritar.
— Mas você almoçou com ele. Por quê?
— Achei que isso fizesse parte da minha tentativa de fazer coisas novas. E naquele dia, ele até que estava mais simpático, principalmente depois de saber que eu também gosto de jogos eletrônicos. Foi um almoço bem agradável, na verdade. Parecia até que a gente estava tentando recomeçar do zero. Mas... — e então as lembranças daquele beijo voltaram à tona.
— Mas...? — ela me encorajou a continuar.
— A gente se beijou.
— Uau... — indagou surpresa. — E como você se sentiu em relação à isso?
— Eu gostei de beijar ele. Já tinha feito isso uma vez, quando estava bêbada... — desviei o olhar. — Confesso que dessa vez foi muito melhor. — ri. — Mas eu estraguei tudo, como sempre. Acabei falando o que não devia, fui uma completa babaca.
— Por que?
— Porque eu me recuso a aceitar que estou tendo desejos por alguém que não está no mesmo patamar social que eu. — tomei fôlego.
— Acredito que eu preciso zelar pela minha imagem e me envolver com um funcionário está fora de cogitação.
— Você admite que isso é babaquice e mesmo assim continua agindo dessa forma? — arqueou a sobrancelha.
— Eu nunca disse que ser babaca me incomodava. Eu sempre fui, com todo mundo.
— Dulce, você tem um problema sério de falta de empatia. — suspirou.
— Não é bem assim. Eu me senti m*l por ele, mas sou orgulhosa demais pra jogar os meus princípios de lado. — fiquei em silêncio por alguns segundos. — É estranho se eu disser que ele é a primeira pessoa que me faz sentir remorço pelas coisas que faço? Eu odeio a forma como ele me olha. Parece que sente uma raiva incontrolável por mim. E pode ser que sinta mesmo. — falei cabisbaixa.
— Vamos aos pontos principais. Primeiro: você está apaixonada por ele. — balancei a cabeça negativamente. — Não, não negue. Quanto mais você reprime isso, maior vai ser a sua frustração. Segundo: precisa aprender a entender os sentimentos dos outros. E terceiro: tem que ter pessoas ao seu redor que entendam os seus sentimentos.
— Não há ninguém.
— Mas você pode procurar. E acho que conheço o lugar certo pra isso. — ela anotou algo numa folha de caderno e me entregou. — Amanhã eu quero que você visite esse endereço e converse com as pessoas de lá.
— Que lugar é esse?
— Eu vou deixar que você se surpreenda. — sorriu. — Você vai encontrar pessoas que assim como você, acreditam estar sozinhas. Vai entender melhor quando chegar lá.
— Ok.
O meu horário terminou e eu fui para casa.
Muito daquela sessão ainda estava na minha cabeça. Apaixonada? Eu? Não podia negar que Christopher rondava os meus pensamentos e que imagina-lo com outra mulher me incomodava profundamente, mas... ok, Angelique tinha razão. Chega de mentir para mim mesma.
Eu estava apaixonada por alguém que com toda certeza nunca me corresponderia igualmente. Se um dia Christopher teve algum interesse, eu massacrei depois de despreza-lo por ser menos que eu.