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2255 Words
Christopher  Diferente do que Dulce previu, Catarina me ligou no dia seguinte, convidando-me para acompanhá-la em um baile beneficente da alta sociedade.  Talvez eu preferisse um jantar, cinema ou até mesmo que ela me levasse de novo para a sua casa, mas já que esse seria o encontro perfeito pra ela, eu a acompanharia de bom grado.  Quando chegamos ao evento, ela quis ir correndo falar com a Dulce. Provavelmente, pra que as duas pudessem se provocar.  Eu não podia entender as mulheres. Se não se gostavam, por que perder tempo conversando só pra se irritarem uma com a outra?  Nos afastamos e depois de Catarina cumprimentar mais algumas pessoas, nós pegamos algumas bebidas perto do bar.  — Gostei de como você colocou a Dulce no lugar dela. — riu.  — Eu só falei a verdade. Não tive o intuito de fazer ela se sentir m*l, só fui sincero. — dei de ombros.  — A Dulce precisa de um choque de realidade. Reclama horrores do pessoal da alta sociedade, mas ela é a mais horrível de todas só por se achar superior.  — Você a conhece a muito tempo? — perguntei com curiosidade.  — Ela e o Allan eram muito amigos no ensino médio e consequentemente, ela vivia na minha casa. Nunca nos gostamos.  — E por que não?  — Dulce sempre foi uma mimada que acha que pode falar como quiser com qualquer pessoa e isso é irritante. — assenti concordando.  — Acha que existe um motivo pra que ela seja assim?  — Toda menina rica é direcionada a ser uma mulher fina, poderosa e com um ar de liderança. Mas ela? A mãe da Dulce conseguiu transformá-la numa bruxa nojentinha e egoísta. — fez cara de nojo. — Mas ela é bem pior que a mãe. É tão r**m que não consegue manter ninguém por perto. O único que gostava dela era o pai e como você já deve saber, o velho morreu. Depois da morte dele, todo mundo simplesmente meteu o pé e ela ficou sozinha. Nem a família quis ficar perto.  — Talvez a família seja pior que ela. — Christopher, olha pra ela. — nós dois olhamos em direção da onde Dulce estava, sentada em um dos sofás. — Nem o meu irmão que a convidou pra acompanhá-lo está perto dela. E todo mundo desvia o caminho pra não ter que falar com ela.  Dulce bebia uma taça de champanhe enquanto outras 4 taças vazias estavam sobre o centro de frente à ela. Mantinha um olhar distante, quase tedioso e suspirava de tempos em tempos. Se a solidão tivesse uma face, seria aquela.  — Nossa... — algo pesou em meu peito por vê-la assim. Por mais terrível que ela fosse, nenhum ser humano merece a solidão.  — Não tá com pena dela, está? Tudo isso é culpa dela! Ela afasta as pessoas porque quer!  — E o seu irmão? Por que eles deixaram de ser amigos?  — Olha, eu confesso que nesse ponto a culpa não foi da Dulce. O meu irmão fez muita coisa suja com ela. Não que ela não tenha merecido, mas dá pra compreender o porquê de tanto ódio.  As doações começaram e eu me impressionei ao ver os milionários se matando pra se destacarem. A única que parecia não dar a mínima era a Dulce, que continuava a beber enquanto gargalhava assistindo às discussões em volta.  Vi ela fazer poucas doações, sem chamar tanta atenção e sempre para causas animais.  Por que uma mulher que parecia clamar por poder não tentaria chamar a atenção para ela num evento de caridade? Dulce havia acabado de ficar estranhamente interessante.  Depois que as doações acabaram e a festa começou de fato, eu continuei a conversar com Catarina, de uma forma mais pessoal dessa vez.  — Você é linda, sabia? — ela sorriu e me beijou.  — Você que é. — chegou mais perto e começou a enrolar seus dedos em meus cabelos. — Me diz... o que há de novo no trabalho? Digo, tem algo te entusiasmando? Talvez uma parceria super importante da empresa? — franzi a testa tentando analisar o que acabei de ouvir.  — O que?  — Não pode dizer? Tem tipo algum segredo? — correu os dedos por meus lábios.  — Por que quer saber essas coisas?  — Só curiosidade... depois que soube que você trabalha pra alguém tão importante, eu fiquei curiosa em saber como é a sua rotina... o que você faz... — tirei as mãos dela de perto de mim devagar e me ajeitei na cadeira.  — Já entendi. — ri pelo nariz. — Você me traz a um lugar importante com o intuito de sair comigo, me trata super bem, fala m*l da minha chefe e agora se interessa pelo que fazemos dentro da empresa... — suspirei pensando no quão patético aquilo era. — Qual o problema? Eu só quero ficar mais próxima à você. — falou num tom de ofensa.  — Ou mais próxima da Dulce, mais especificamente, próxima dos planos dela. Quer saber o que a Dulce faz pra ser tão boa? Eu posso lhe dizer. — ela arqueou a sobrancelha e se mostrou interessada. — Sabe todas essas características horríveis que você ressaltou nela? Isso faz dela uma chefe de pulso firme, uma pessoa que ninguém quer irritar. Os funcionários acabam dando tudo de si por medo de serem prejudicados. Porque pode ter certeza que ela não tá nem aí se precisar demitir alguém por algo pequeno como uma mancha de café na roupa dela. — lembrei do episódio com a estagiária. — É por isso que a empresa é tão boa. Os funcionários se dedicam ao máximo.  — Não pareceu que você tinha medo dela.  — Porque eu não tenho. Por mais que essa atitude faça dela uma boa empresária, também faz dela um ser humano r**m. E eu não vou deixar que ela me trate como menos do que eu realmente sou.  — Entendo... — desviou o olhar.  — Sabe o que eu acho? Você nem queria sair comigo de novo. Só me chamou porque descobriu que eu sou funcionário dela.  — Como pode dizer isso? — franziu a testa.  — Eu sou sincero, Catarina. Talvez não tão sincero quanto a Dulce, mas sou. — levantei do banco onde estava. — Foi um prazer te conhecer. Literalmente. — dei uma piscadela e me afastei dela.  Ela não me questionou, nem insistiu pra que eu ficasse. O que só me fez confirmar a teoria de que a única coisa que ela queria de mim eram informações sobre a Dulce.  Caminhei em direção ao sofá onde Dulce estava sentada. Ela estava com os olhos fechados, a cabeça encostada no apoio e segurando uma taça com quatro dedos de champanhe pendendo entre suas pernas.  Tirei a taça de sua mão devagar e sentei ao seu lado. Não tinha certeza se aquilo era sono, ou se ela tinha bebido demais. Provavelmente a segunda opção.  — Senhorita Saviñon? — sussurrei em seu ouvido, mas ela nem se mexeu. — Dulce?  — Que? — acordou assustada. — Ah, Uckermann. — colocou a mão sobre a testa. — Sua mãe não te ensinou a não incomodar as pessoas em momentos inoportunos? — disse com grosseria.  — Bebeu demais, chefinha? — dei risada.  — Cuide da sua vida! — resmungou.  — É por isso que ninguém fica perto de você. É sempre tão grossa! — a repreendi.  Ela me olhou de lado com a expressão séria e eu vi os olhos dela começarem a brilhar, enchendo-se de lágrimas. Abri levemente a boca em sinal de surpresa em ver que pela primeira vez Dulce iria desmoronar.  — Eu sou uma pessoa horrível, não sou? — agora ela começou a chorar.  — Ah... eu...  — Ninguém gosta de mim! Ninguém! Eu tento ser a melhor que posso! Mas sempre tô errada!  — ela soluçava aos prantos. — Eu só não quero que as coisas desmoronem! O meu pai lutou muito pra conquistar aquela empresa! Eu tentei ser boa e gentil no início, mas isso quase me faliu! São necessidades que ninguém entende!  A única coisa que se ouvia dela agora era o seu choro descontrolado.  Ainda incerto e me sentindo desconfortável, eu abri os meus braços e me aproximei devagar, a puxando para perto de mim.  Por incrível que pareça, Dulce rapidamente enlaçou o meu corpo e enterrou seu rosto em meu peito se deixando levar pelo desespero que sentia.  Ainda a abraçando, eu acariciei sua cabeça com o intuito de fazê-la se acalmar.  Aos poucos, foi parando de chorar e quando finalmente estava em silêncio, continuou me abraçando sem dizer nada.  — Você tá bem? — perguntei. Ela se desvencilhou de mim devagar e me olhou. O rosto vermelho e encharcado.  — Eu quero ir embora. — disse.  — Quer que eu procure o Allan pra te levar?  — Não. A última coisa que quero é que ele me veja derrotada assim. Você pode me levar? — Eu? — franzi a testa.  — É... se não quiser, tudo bem, eu peço um táxi.  — Não, é melhor que você vá com alguém de confiança. Tá um pouco alterada por causa do álcool, então pode ser perigoso. — ela assentiu. — Vem. — fiquei de pé e estendi minha mão para ajudá-la a levantar.  Dulce escorregou sua mão para dentro da minha e segurou firme, buscando apoio para levantar.  Era aparente o seu estado por conta do álcool. Ela nunca conseguiria sair dali sozinha.  Senti que se eu a deixasse caminhar por conta própria, certamente iria de encontro ao chão. Então, segurei sua mão até que nós saíssemos pelos fundos do evento.  A mão de Dulce dentro da minha era pequena, quente e tão macia quanto algodão. Eu diria que a sensação de segura-la era bastante satisfatória. Saímos numa rua escura e pouco movimentada e assim que se viu livre, ela largou minha mão e se afastou, quase como se ficar perto de mim fosse r**m.  — Por aqui. — apontei para o final da rua, onde havia estacionado meu carro.  Andei na frente, sempre me certificando de que ela continuava perto. O estado dela me preocupava, parecia que ia desmaiar a qualquer momento.  — Só vou destrancar o carro, rapidinho. — falei.  — Droga! — ela disse nervosa.  — O que?  — O Allan! Deve estar me procurando! Não quero que ele me veja! — virou o rosto na minha direção.  — Merda... é a Catarina.  — Se desentenderam?  — Você tinha razão, ela é uma megera.  — Claro que eu tinha razão. E agora? Eles não podem nos ver. — mordeu o lábio inferior.  O que passou pela minha cabeça era loucura, mas pareceria ser a única forma de passarmos despercebidos pelos dois.  — Promete que não vai me demitir?  — Por que eu iria...  Antes que ela terminasse a frase, eu agarrei sua cintura, a puxei para mim e colei nossos lábios.  Dulce pareceu assustada e custou a querer me tocar, mas logo, envolveu seus braços em meu pescoço e me beijou de volta, numa intensidade ainda maior do que eu esperava.  Abri os olhos por um instante e vi que Allan e Catarina voltaram para dentro da festa. Porém, por algum motivo que eu desconhecia, não consegui parar de beija-la.  A encostei contra o meu carro e continuei a envolvendo com meus lábios, usando minha língua pra explorar sua boca de forma suave e ao mesmo tempo, sedenta.  Alguma coisa me atraía a ponto de eu desejar continuar beijando-a até que nosso fôlego cessasse, ou mesmo depois disso.  Com Dulce não era diferente, já que ela corria seus dedos por dentro dos meus cabelos, tocava meu rosto com as mãos e aprofundava ainda mais o beijo, não deixando nenhum espaço possível entre nós. De fato, ela parecia com ainda mais vontade daquele beijo do que eu.  Quando senti meu ar se esvair, parei o beijo e afastei meu rosto do dela, ainda segurando sua cintura com minhas mãos. A olhei e vi um sorriso sereno ser plantado em seus lábios, como se estivesse anestesiada pela sensação.  Acariciei seu rosto com as pontas dos dedos enquanto olhava em seus olhos, que agora não me eram mais fatais, e sim doces. Tão doces que me faziam querer observá-los por um longo período de tempo.  — Dulce, eu... — e então, ela desmaiou em meus braços. — Droga.  A ergui e a levei até o banco de trás do carro. Antes de fechar a porta, a analisei. Era uma mulher linda, atraente, inteligente e com uma vida interessante. Mas não era nada boa como pessoa. Por mais que eu sentisse uma pequena atração física por Dulce, isso não era algo suficiente pra me fazer ficar perto. Com toda certeza, ela não era o tipo de mulher por quem se valia à pena lutar.  Liguei para a Annie pedindo o endereço de onde Dulce morava e expliquei toda a situação.  Dirigi até a mansão e depois de achar as chaves dentro da bolsa dela, a peguei no colo e entrei.  Subi as escadas ainda com ela no colo e depois de avistar o quarto com as únicas portas duplas, deduzi que aquele seria o dela.  Entrei e a deitei sobre a cama, depois tirei seus sapatos e a cobri com o cobertor.  Pude notar vários retratos em família pelo cômodo, pareciam felizes e pareciam amar a Dulce. Eu custava a acreditar que podia existir uma família tão r**m a ponto de deixar um dos membros sozinho.
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