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2178 Words
Dulce Minha cabeça latejou como se tivesse um martelo esmagando os meus miolos. Abri meus olhos devagar, sentindo a luz do sol invadir e incomodar a minha retina. Eu estava em casa e meu estômago embrulhava me deixando com uma agonia interna.  Deslizei minhas pernas para a lateral da cama e sentei colocando a mão sobre o estômago. Eu não devia ter bebido tanto champanhe.  Outras lembranças chegaram até a minha cabeça e então eu revivi os momentos que apesar de estarem um pouco confusos agora, eram completamente reais.  Christopher me beijou e eu o beijei de volta, com muita vontade. Lembro-me bem da sensação de desejo que percorreu meu corpo e de como eu não quis parar de sentir os lábios dele.  Odiava o fato de que a bebida me fazia não parar pra pensar em meus atos. Com que cara eu olharia para ele nessa manhã? O que deveria fazer? Fingir que nada aconteceu? Parar pra conversar?  Se fosse pra pensar nisso, que eu pensasse debaixo do chuveiro. Já estava mega atrasada.  A água gelada iria me aliviar e esclarecer mais os meus pensamentos. Não interessava o que senti em relação ao beijo, não importava o tamanho do meu desejo. Era apenas momentâneo, fruto de uma quantidade de álcool que eu não costumava ingerir. Apenas não podia correr o risco de que Christopher pudesse se gabar por aí, ou até mesmo alimentar uma chance que ele nunca teria. Eu era mulher demais pra ele.  {...} Borboletas saltaram no meu estômago quando eu entrei no elevador. Mentalizei uma forma de conseguir passar por Christopher com desdém e total desinteresse.  As portas do elevador se abriram e eu saí de cabeça erguida com o meu ar superior de sempre. Dei graças a Deus por chegar à minha sala sem ter me encontrando com ele.  — Bom dia, senhorita Saviñon. — Annie disse ao meu ver.  — Bom dia, Annie.  — Sente-se bem? Precisa de um café? Talvez um comprimido? — parei bruscamente e me perguntei se talvez ela sabia de algo.  — Por que eu precisaria dessas coisas?  — É que o Christopher me contou que teve que levá-la pra casa e que estava um pouco... "alta". — fez sinal de aspas com os dedos.  — Sei... e ele disse mais alguma coisa?  — Não. Aconteceu mais alguma coisa?  — Não. Claro que não. — desviei o olhar nervosa. — No momento, eu quero que você chame o Uckermann na minha sala. Quero agradecê-lo por ter me ajudado ontem.  — Sim, senhorita.  Entrei em minha sala e suspirei aliviando o pânico. Jurei a mim mesma que se ele tivesse contato para alguém, eu o mataria.  Não demorou muito até que eu ouvisse algumas batidas em minha porta.  — Entre! — falei.  Primeiro, ele colocou apenas a cabeça e me olhou com incerteza, depois entrou devagar, como se estivesse na defensiva. Parou em minha frente com os braços para trás e com uma expressão de nervosismo, desviando o olhar para qualquer lugar que não estivesse na minha direção.  — Bem... — comecei. — Eu só queria te agradecer por ter me levado pra casa ontem. Confesso que exagerei um pouco no champanhe. — eu tentava falar calmamente, sem deixar transparecer que eu também estava nervosa. — Foi muita gentileza da sua parte ter feito aquilo por mim.  — Imagina. Faria isso por qualquer pessoa.  — Por que? — apoiei meu queixo em uma das mãos.  — Porque eu sou uma boa pessoa...?— respondeu com dúvida.  — Interessante... — a falta de costume em ver alguém sendo bom comigo fazia com que eu me intrigasse com a situação.  — Fico feliz em ver que a senhorita está bem. Deve ter sido uma noite difícil.  — Eu só estava com muito tédio e como não tinha nada melhor pra fazer, bebi mais álcool do que deveria. — ri pelo nariz.  — Ok. — deu de ombros. — Era só isso? Já posso voltar pra minha sala?  — Só mais uma coisa. — fiquei de pé e andei até parar na frente dele. Christopher pareceu ficar tenso com a aproximação. — Preciso que você me prometa que não vai contar à ninguém sobre o que aconteceu entre nós...  — "Entre nós"? — franziu a testa.  — Você sabe... — ajeitei a gravata dele e apoiei minha mão em seu peito. Em nenhum instante, ele tirou os olhos do meu rosto. — Ontem você me viu mais frágil do que eu realmente sou. Isso acontece quando eu bebo. Fico totalmente sensível, mas eu não sou assim na realidade. Não tem que levar a sério as coisas que eu disse ontem e muito menos a ceninha melancólica que eu fiz.  — Não tem problema nenhum em ter ficado daquele jeito. Todo mundo tem seus altos e baixos. — me consolou.  — Eu não. Nunca. — falei firme. — Não sou uma mulher fraca e não quero que você ache que sou.  — Se te preocupa que eu diga a alguém que vi a senhorita chorar, pode relaxar. Não disse, nem direi nada.  — Ótimo. — assenti. — Tem outra coisa. Usando minha carta mais poderosa, eu enlacei meus braços em seus ombros e o encarei, desafiando-o a me tocar, mas ele não moveu um músculo e manteve-se estático, mesmo com meu corpo colado ao dele.  — Pode falar. — sua voz pareceu ter sido forçada a sair, o que me fez acreditar que eu estava conseguindo deixá-lo abalado, exatamente como eu queria.  — A gente se beijou. — ele engoliu em seco e assentiu devagar. — E esse é mais um segredo que você terá que guardar.  — Claro.  — E acho bom que esqueça que isso aconteceu. As coisas vão ser exatamente como sempre foram, ok? Aquilo foi apenas um erro que não irá se repetir.  — Ok. Agora, se a senhorita me der licença... — ele retirou meus braços de seus ombros e se afastou dois passos de mim. — Preciso voltar às minhas funções. Passar bem, senhorita Saviñon.  — Tenha um bom dia, Uckermann.  Ele deu as costas e se retirou rapidamente. Creio que eu tenha conseguido o convencer a esquecer toda aquela situação. Não posso nem imaginar pra onde iria a minha reputação se alguém descobrisse que andei aos beijos com um funcionário.  Fiz todas as minhas atividades da manhã e na hora do almoço, pedi que Annie avisasse aos funcionários que naquele dia, o horário de almoço teria trinta minutos a menos.  Depois do último problema com as ações da empresa, eu iria fazê-los trabalhar até que meus lucros dobrassem.  Podia imaginar todos os resmungos e reclamações, mas ninguém ousaria me desrespeitar ou descumprir alguma de minhas vontades.  Resolvi que eu iria comer no refeitório. Um ar que fosse diferente das paredes cinzas da minha sala me fariam bem.  Esperei o horário do almoço dos funcionários acabar e me dirigi até lá. O local estava vazio, exceto por Christopher, que se concentrava em seu prato.  Tossi duas vezes para chamar sua atenção.  — Olá. — falou despreocupado.  — O que faz aqui? Acho que deixei bem claro que hoje só teriam trinta minutos! — cruzei os braços.  — A senhorita vai me desculpar, mas eu preciso de mais tempo que isso pra comer.  — Eu não me importo! Trate de se levantar e voltar aos seus afazeres! — ele bufou e não disse nada, apenas continuou a comer. — Vai me desobedecer?? — perguntei com indignação.  — Eu não tenho que te obedecer.  — Uckermann! — bati meu punho com força na mesa e ele me olhou de relance.  — Só saio daqui quando terminar o meu almoço. — o seu tom calmo deixava o meu sangue fervilhando.  — Ok... muito bem... então, só vai sair dessa empresa quando terminar todas as tarefas do dia. — Não estou preocupado com isso.  — Veremos.  Voltei para a minha sala e pedi pra que Annie fosse até o refeitório e preparasse a minha refeição. Se eu ficasse mais um segundo na presença de Christopher, iria perder a cabeça.  — Aqui está. — ela colocou a bandeja na mesa.  — Annie, preciso que faça algumas coisas pra mim. — abri minha gaveta onde eu tinha alguns projetos que só precisavam ser feitos dali a alguns meses. — Entregue esses projetos ao Uckermann. — eram um total de 5 envelopes. — Ele tem duas semanas.  — O que? — arregalou os olhos. — Mas esses projetos não precisam ser entregues tão rápido. — Eu quero que sejam entregues rápido! — falei firme.  — Tudo bem. Vou agora mesmo deixar na sala dele.  — Diga a ele que só vai sair dessa empresa quando terminar a introdução de cada um desses projetos.  — Ok.  Ele estava muito enganado se achava que podia fazer o que quisesse dentro da empresa. Se eu precisasse adestra-lo como um cachorrinho, assim eu faria. Logo ele entenderia que para a sua vida ser fácil, ele tem que andar conforme as minhas vontades.  {...}  Aquele dia foi cheio e até mesmo eu me atarefei demais a ponto de ficar na empresa até anoitecer.  Saí da minha sala e fui direto para o elevador. Quando as portas estavam prestes a se fechar, um par de mãos as segurou e então ele entrou.  Estava com um semblante cansado e o mais sério que já vi na vida. Não pude deixar de notar que ele segurava os envelopes dos projetos em mãos. Estavam amassados e pareciam terem sido revirados diversas vezes.  Imaginei que ficaríamos em silêncio até chegar ao térreo, mas minha expectativa foi quebrada quando ele apertou o botão que faz o elevador parar.  — O que está fazendo? — perguntei.  — Eu que deveria te perguntar isso. — chegou perto e eu me afastei até me encontrar com a parede. — Eu acho que você nasceu na época errada. As pessoas não podem mais ter escravos, sabia? — elevou o tom de voz.  — Uckermann... tá perto demais de mim.  Tão perto que eu tinha que esquivar a minha cabeça para trás, evitando que o rosto dele tocasse o meu.  Ele me olhava com tanta fúria que eu quase podia ver as faíscas em suas pupilas. Nunca um homem me desafiou de uma forma tão intensa apenas usando o olhar. Era óbvio que ele estava com muita raiva e eu não queria mostrar que isso me amedrontava.  — Sai de perto de mim! — gritei e o empurrei bruscamente.  — Por que? — riu. — Se sentiu vulnerável, senhorita Saviñon? — debochou.  — Vai pro inferno! — cerrei os dentes.  — Você já me mandou pra lá. — disse mostrando os envelopes. — Qual a necessidade? Sente prazer em fazer as pessoas sofrerem?  — Não é sofrimento nenhum, é só o seu trabalho. — cruzei os braços.  — Só a droga de um trabalho que vai me custar noites sem dormir! — exclamou.  — Melhor você controlar o volume da sua voz.  — Por que? O que vai fazer em relação a isso?  — tornou a se aproximar e dessa vez eu não recuei.  — Tá brincando com fogo, Uckermann.  — É, eu sei. — sussurrou. — Posso sentir a temperatura.  Seus lábios estavam muito próximos, eu podia sentir a sua respiração em minha face, tão convidativa quanto na noite passada.  Involuntariamente, eu fechei os meus olhos e esperei que ele se aproximasse mais, esperei um beijo que não veio.  Abri meus olhos e o vi afastado, olhando para a frente, menos sério do que antes. Mantinha um sorrisinho de canto, como se tivesse alcançado o objetivo de algo.  Logo depois, apertou o botão do térreo e o elevador voltou a se mover até chegar ao nosso destino.  Quando as portas se abriram, eu saí na frente, quase correndo, mas pude ouvir os passos rápidos dele, enquanto tentava se aproximar.  — Irritei a senhorita? — perguntou, mas eu não parei de andar. — Sinto muito se eu não aceito ser tratado igual uma ovelhinha sua. — parei bruscamente e o encarei.  — Eu juro por Deus que se você falar assim comigo de novo, eu te demito. — dessa vez ele se manteve calado, mas ainda com aqueles olhos que me desafiavam a todo instante. — Melhor se apressar pra chegar em casa, você só tem duas semanas. E não esqueça que amanhã nós dois vamos apresentar o seu último projeto para os diretores da Dior.  — Muita coisa pra uma pessoa só. — resmungou.  — Procurou problema comigo, Uckermann. Agora vai aguentar as consequências. — sorri. Ele arqueou as sobrancelhas e assentiu devagar. — Com licença.  Segui meu caminho até o meu carro, onde o motorista me aguardava. Segurei minha melhor pose até que sentasse no banco de trás.  Ali, eu desmoronei, deixei que minha face mostrasse a frustração que me consumia.   Christopher me intrigava, me irritava e ao mesmo tempo, não saía da minha cabeça. Não conseguia entender se aquilo era ódio, ou se nele existia algo que me atraía. Eu me recusava a acreditar na segunda opção.
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