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1525 Words
Christopher  Cansado era apelido para descrever o meu estado de ânimo atual. Estava tão exausto que não quis arriscar de dirigir até a empresa pela manhã e dormi no banco do carona enquanto Christian o fazia.  Quando chegamos, May me despertou com um peteleco no nariz e nós seguimos até a parte interna da empresa.  — Tá parecendo um zumbi. — ela disse enquanto esperávamos o elevador chegar até nosso andar.  — Dulce me encheu de projetos e eu não dormi nada. — bocejei. — Acho que ela me odeia.  — Isso não é verdade. — Annie a defendeu. — Você só disse as coisas erradas para a pessoa errada.  — Annie, cai na real! — Christian revirou os olhos. — Precisa começar a culpar a sua chefe pelas coisas ruins que ela faz com os outros.  — Tudo o que ela faz tem uma explicação. — continuou firme em sua defesa.  — Claro que tem. — May se intrometeu. — Ela gosta que as pessoas rastejem aos pés dela. E quando não fazem isso, sofrem as consequências.  — Vocês só precisam ter uma visão menos preconceituosa dela. Convivo com a Dulce a maior parte do dia e posso afirmar que ela não é essa pessoa horrível que vocês dizem.  — Annie, pelo amor de Deus! — dessa vez eu teria que entrar na discussão. — Você diz isso porque nunca precisou se virar em duas pra fazer algum trabalho super exagerado a mando dela. Ela gosta de você e você gosta dela. Sempre vai defendê-la.  Ela não disse mais nada e apenas deu de ombros. Não entendia se ela era assim com Dulce porque gostava mesmo dela, ou tinha tanto medo que achava que estávamos errados em achar que Dulce estava errada.  Usei a primeira hora da manhã para tirar um cochilo sobre a minha mesa, usando todos os papéis dos projetos como travesseiro. A reunião com os diretores da Dior seria em poucos instantes e eu precisava descansar pelo menos alguns minutos.  No horário marcado, eu fui até a sala de reuniões onde todos já se encontravam, menos a pessoa principal, Dulce. Enquanto aguardávamos sua chegada, íamos conversando sobre os projetos e todos os detalhes que eu havia pensado. Eu estava me entendendo com eles.  — Desculpem o atraso. — Dulce entrou e sentou-se ao meu lado. — Tive alguns imprevistos, mas cá estou. Podemos começar?  Retomamos as conversas, dessa vez com os palpites dela. E ali eu pude ver que ela era realmente brilhante. Por mais horrível que sua personalidade fosse, quando se tratava de publicidade, ela articulava como ninguém e era bastante convincente em suas propostas.  Minhas falas nem estavam sendo tão necessárias quanto eu achei que seriam.  Ainda estava um pouco cansado e enquanto os diretores conversavam entre si, eu fechei meus olhos por alguns segundos. Tempo o suficiente pra sentir uma cotovelada certeira em minha costela.  Fiz uma careta pela dor e olhei para Dulce com uma interrogação estampada em meu rosto.  Mas ela simplesmente acompanhava a reunião fingindo não ter feito nada à mim.  Fechamos negócio e terminamos tudo. Os diretores saíram na frente e antes que Dulce cruzasse a porta, eu segurei seu braço. Ela me olhou com estranheza.  — O que? — perguntou.  — Aquilo doeu. — falei me referindo à cotovelada.  — Só não doeu mais que os meus olhos que foram obrigados a presenciar você dormindo numa reunião de negócios. — disse ríspida.  — Isso porque passei a noite inteira acordado tentando agilizar todos os projetos que você desnecessariamente deixou em minhas mãos.  — Achou desnecessário? São projetos importantes e se eu os deixei em suas mãos, é porque confio na sua habilidade. Não se sinta ofendido por estar cheio de trabalho, Uckermann. Sinta-se lisonjeado.  — Preferia ser um Henri Cortez da vida do que ter que aguentar isso. Aposto que o Henri dorme tranquilamente à noite. — ela olhou para os lados parecendo pensar.  — Não. Ele anda bem pior que você. — riu pelo nariz.  — Senhorita Saviñon, por Deus, estes projetos só precisam ser entregues daqui a meses. Não pode me dar duas semanas! É desumano. — abaixei a guarda por um instante, esperando que ela tivesse compaixão.  — Bem... — ela olhou seu relógio de pulso e suspirou. — Você ainda tem uma semana e seis dias. — sorriu da forma mais maléfica possível.  — Fala sério! — resmunguei.  — Melhor se apressar.  Ela deu as costas e abriu a porta, mas eu rapidamente me aproximei e fechei com força.  Vi ela dar um leve pulo pelo susto e virou bruscamente de frente para mim.  Continuei com meu braço apoiado na porta e me aproximei dela, sentindo toda a tensão que se acumulava entre nós.  Ela tentava, mas não podia disfarçar a sua vulnerabilidade toda vez que eu chegava perto e eu, por minha vez, sentia vontade de agarra-la ali mesmo e provar todo o sabor que seu corpo tinha para oferecer. Talvez minha raiva dela estivesse tão intensa que eu quisesse descontar tudo assim.  — O que você quer de mim? — perguntei a encarando de forma séria.  — No momento, quero que você se afaste. — ela tentou me empurrar, sem sucesso.  Cheguei ainda mais perto, deixando minha mão apoiada na lateral de seu corpo. Senti ela estremecer com o meu toque e até sua respiração se tornou desregular.  — Vamos... somos adultos, podemos resolver os nossos problemas com uma boa conversa. Qual o problema da senhorita comigo? — eu falava num tom baixo, quase sussurrado.  — Por que você não consegue me respeitar? — enfim, eu cheguei ao meu objetivo.  — Então é isso? Acha que eu não a respeito? — respirei fundo e me afastei.  — É. Isso é meio que bem claro. — ela relaxou.  — Só não está acostumada a ser tratada como uma pessoa normal.  — Eu nunca fui uma pessoa normal. — a frase seria cômica, se ela não tivesse dito aquilo da forma mais sombria possível.  — No baile beneficente, você disse algumas coisas sobre as pessoas não suportarem você...  — Uckermann, por favor! — ela levou as mãos até a cabeça. — Esqueça daquele baile! Eu entendo que você me ache c***l, malvada ou sei lá mais o que. Mas eu não vou mudar te vendo agir de uma forma tão ousada assim. Tudo o que vai conseguir fazer é me deixar com raiva, então por favor, pare.  — Por que não procura um psicólogo? Você realmente precisa.  — Viu só? Mais uma vez falando com desrespeito comigo! — exclamou.  — Não é desrespeito, é um conselho. Todo mundo precisa entender a si mesmo em algum momento da vida. Eu acho que o seu momento chegou.  Dei de ombros e saí da sala. Nunca em toda a minha vida eu tive que lidar com uma mulher assim. Tinha uma personalidade diferente de qualquer pessoa que eu já conheci. E de certo modo, por mais r**m que fosse, isso a tornava única.  Era uma mulher tão intensa e tão impactante que não saía da minha cabeça e sempre estava nos meus pensamentos mais raivosos e também, nos mais graciosos.  A personalidade dela me deixava furioso, mas a aparência me acalmava. Era um parâmetro um tanto quanto estranho. Como uma balança perfeita que permitia que eu a suportasse, mesmo a vivência com ela sendo complicada.  Ao mesmo tempo que ela me atraía, também me afastava.  O ambiente de trabalho era desafiador, mas mesmo assim todos conseguiam transformar o local em algo caloroso e cheio de conversas animadas e risadas que ecoavam aos quatro ventos. Especificamente hoje, todos pareciam animados e ao mesmo tempo que trabalhavam, dedicavam-se às conversas e brincadeiras entre colegas. Eu gostava mesmo de trabalhar aqui.  — Que baderna é essa?? — e a voz dela se fez presente, abafando e calando todas as outras. — Acham que estão numa colônia de férias?? Não se esqueçam que têm que trabalhar dobrado agora!! Querem que essa empresa decaia? Porque se isso acontecer, podem ter certeza que a prejudicada não serei eu! Tenho dinheiro o suficiente pra viver bem até o resto dos meus dias! Quem precisa dessa empresa erguida são vocês!! Então respeitem o emprego que têm!! — seu tom era de uma mãe que acabara de pegar os filhos fazendo traquinagens. E os olhares cabisbaixos dos funcionários faziam jus a esse tom. — Bando de incompententes!  Eu era o único que ainda olhava diretamente para ela, com um sorriso de canto e os braços cruzados. Ela observou o local com cuidado até parar em meu rosto. E enquanto eu me divertia com a cena, as chamas em seus olhos se acendiam como se a qualquer momento fossem explodir em um incêndio.  Dessa vez, ela não parou pra me repreender por meu jeito "desrespeitoso" com ela. Simplesmente seguiu andando até a sua sala, sem parar de me encarar.  E mesmo depois de sua saída, os funcionários continuaram calados e se voltaram totalmente aos seus afazeres.  Essa mulher era como um veneno que matava todas as cores do jardim quando passava. A felicidade se desfazia em cinzas quando ela estava por perto.
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