Amélia
O sol já invadia o céu com uma luz forte e dourada quando Laís empurrou a porta do alojamento com força. Os sapatos nas mãos, o vestido amarrotado, o rosto pálido. Seus passos eram rápidos, decididos. O batimento acelerado ecoava no peito como um alarme insistente.
Ela não dormira. Não depois do que descobrira.
Subiu as escadas sem respirar, entrou no pequeno quarto compartilhado e correu até a cama de Amélia, onde a amiga ainda dormia, encolhida, os cabelos emaranhados e a respiração suave. Laís hesitou por um segundo. Como dizer? Como explicar que aquele homem que mexia tanto com a cabeça de Amélia era mais perigoso do que qualquer coisa que já haviam enfrentado?
— Amélia! — sussurrou, tocando no ombro dela. — Acorda. É sério. É urgente.
Amélia resmungou algo, virou-se na cama, os olhos ainda meio fechados.
— Laís… que horas são?
— Já amanheceu. Mas não importa. Acorda, por favor. A gente precisa conversar.
Algo na voz de Laís fez Amélia se sentar de imediato. O tom não era de drama, como de costume. Era grave. Assustado. Ela piscou algumas vezes, tentando entender.
— O que aconteceu?
Laís sentou-se ao lado dela e respirou fundo. Seus olhos estavam vermelhos, as mãos trêmulas.
— Eu saí com aquele cara, o Nikolai… Lembra? O russo que me chamou pra jantar. A noite foi incrível, parecia um sonho. Mas, Amélia… ele trabalha pra aquele homem. O Maxin. O cara que vive indo ao restaurante atrás de você.
O corpo de Amélia enrijeceu.
— Como assim, trabalha pra ele?
— Eles são da máfia. Russa. Maxin é o chefe. Nikolai é o braço direito dele. E o pior… eles estão investigando você. Querem saber quem você é. O passado da sua mãe. Estão vasculhando tudo.
— Por quê?
Laís balançou a cabeça, aflita.
— Eu não sei. Mas esse homem, o Maxin, ele acha que você tem alguma ligação com algo do passado dele. E Amélia, isso é sério. Muito sério. A gente tem que sair daqui. Agora.
Amélia não respondeu de imediato. Ficou apenas olhando para o lençol amarrotado, a respiração presa.
— Ele esteve aqui ontem à noite — disse, quase num sussurro.
— O quê? — Laís arregalou os olhos.
— Maxin entrou aqui. No nosso quarto. Não sei como. Eu tava sozinha… e ele… ele me beijou.
Laís levou a mão à boca.
— Amélia… não. Ele invadiu seu quarto?! Isso é crime! Você devia ter gritado, chamado alguém. Por que não me contou?
Amélia abaixou a cabeça, envergonhada.
— Porque eu… não consegui. Eu fiquei paralisada. Mas também… não sei. Foi tudo tão confuso. Eu devia ter gritado, sim. Mas… eu não quis. Parte de mim estava com medo. A outra…
Ela não terminou a frase. Mas Laís entendeu.
— Você tá apaixonada por ele? — perguntou, incrédula.
Amélia demorou, mas assentiu, muito lentamente.
— Eu sei que é errado. Que ele é perigoso. Mas tem algo nele que me puxa. Como se eu já o conhecesse. Como se ele fosse a única pessoa capaz de enxergar quem eu realmente sou.
Laís se levantou de um salto.
— Isso não é amor, Amélia! É controle! Ele é um homem mais velho, manipulador, um mafioso! Ele está usando você, mexendo com sua cabeça. Ele já fez isso com outras mulheres, aposto! E agora está usando sua história, sua dor, pra te prender!
Amélia sentiu as lágrimas virem aos olhos. Mas não chorou. Respirou fundo.
— Você acha que eu não sei disso? Eu tenho medo dele, Laís. Muito medo. Mas também tenho medo de mim mesma. Porque, mesmo assim, eu espero vê-lo de novo. Mesmo sabendo que ele pode me machucar… eu quero entender por quê.
Laís se ajoelhou diante dela, segurando suas mãos com força.
— Então foge disso agora, enquanto ainda pode. Antes que seja tarde. Você não sabe do que esse tipo de gente é capaz. Se ele está fuçando sua vida, é porque há algo mais. E se descobrir que você não é quem ele quer, você acha mesmo que ele vai poupar você?
Amélia apertou os lábios. O silêncio entre elas se tornou pesado.
— Ele não vai me machucar — disse por fim. — Pelo menos não ainda. E talvez… talvez eu precise saber por que ele está tão obcecado por mim. Talvez tudo isso esteja ligado à minha mãe.
Laís se afastou, derrotada.
— Você é minha melhor amiga. Eu te amo como uma irmã. E por isso tô te dizendo: esse homem vai destruir você se você deixar. Ele não ama ninguém. Ele é perigoso, frio, calculista. Você não pode confiar nele.
— Eu não confio. Mas… não consigo ignorar.
As duas ficaram em silêncio por longos minutos.
Lá fora, a manhã avançava, e a cidade despertava em meio ao barulho dos carros e buzinas. Mas naquele quarto, entre duas amigas, tudo estava suspenso — medo, raiva, lealdade, amor e o perigo invisível que se aproximava cada vez mais.
Amélia sabia que não era mais uma menina inocente. Sabia que seu passado estava cheio de buracos, e talvez Maxin tivesse respostas. Mas também sabia que cada passo em direção a ele era um passo em direção ao abismo.
E mesmo assim… algo dentro dela a empurrava para o fogo.
Amélia queria fugir, mas depois do beijo tudo que ela quer é mais.
Ela fechava os olhos e podia ser os lábios dela no seu, o toque de suas mãos no seu corpo.
Ela não contou o que sentia para Laís, por algum motivo a sua amiga sabia o que Amélia sentia, a garota apenas abaixou a cabeça com vergonha.
Amélia ficou por horas pensando, então decidi que iria confronta Maxin, ela iria exigir que ele fosse embora e deixar ela em paz.
Só que é tarde demais mais para isso o russo já estar apaixonado, não vai deixar Amélia ficar longe dele de jeito nenhum.