Thay
Eu tinha acabado de acordar e estava me preparando para mais um dia de trabalho, quando Falcão entrou no quarto. Ele tinha o costume de acordar primeiro e fazer uma visita surpresa para os seus comandados. Sempre muito desconfiado, não confia em ninguém, com exceção de uma pessoa... Eu.
— Bom dia minha rainha.
— Bom dia Falcão — dei um beijo suave e me afastei — pare de me chamar de rainha, você sabe o quanto odeio ser chamada assim.
— Mas você é minha rainha, querendo ou não. Sou o rei nesse lugar, o que lhe cabe o posto de rainha.
— Já falei que eu não gosto. Sinto-me ridícula por onde passo e os seus soldados ficam se curvando.
— Eu que dei a ordem. Você deve ser reverenciada. É linda, pulso forte e minha mulher.
— Você faz isso porque quer que todos tenham inveja de você, isso sim.
— Claro que eu quero isso. Tenho 37 anos, quase o dobro da sua idade. Imagine como eles devem se sentir, vendo que tenho uma Lolita ao meu lado? — ele ri.
Revirei os olhos e segui para o banheiro.
— Tivemos algum problema hoje? — perguntei enquanto escovava os dentes.
— Sempre temos problemas.
— O que os idiotas fizeram agora?
— Você quer dizer o que o i****a fez, não é?
Parei com minha escovação e coloquei a cabeça para fora do banheiro.
— Quem é o da vez?
— Corvo, quem mais poderia ser?
André, ou Corvo como era conhecido por todos, era um garoto magricela, branco como uma folha de papel. Era um dos escalados para ser olheiro na favela, a missão de sempre avisar quando a polícia resolve aparecer.
— O que ele fez dessa vez?
— O mesmo de sempre. Besteiras. Ainda não sei como você me convenceu a deixar ele vivo.
— Falcão, o coitado não tem família ou uma renda. Era isso ou vender drogas. O que levaria ele para a morte mais rápida.
— Que morresse então. Ele só está me dando prejuízo.
— Ainda não me disse o que ele fez — perguntei.
— A anta estava desfilando com um fuzil próxima a base dos tiras. Justo aqueles que não consegui comprar. Estou querendo expandir meus negócios, mas se eu continuar rodeados de idiotas, alguém vai tomar a dianteira. Preciso resolver isso logo.
Lavei e o rosto e saí do banheiro segurando uma toalha no rosto.
— Falcão, você me deu sua palavra de que não tocaria um dedo no Corvo...
— Eu sei. Você não sabe o quanto estou arrependido.
— Vou falar com ele...
— Ele é burro demais para entender que não pode sair por aí desfilando com nossas armas. Não sei como pode defender ele.
— Devo minha vida a ele Falcão... Se não fosse por ele...
Falcão se aproximou e me segurou forte pelo braço.
— É a mim que deve sua vida. Eu te tirei daquela vida de m***a que tinha. Se não fosse por mim, estaria vendendo seu corpo em uma esquina qualquer para não morrer de fome.
Falcão pensa que é meu dono pelo simples motivo de ter me livrado de ser morta por um de seus inimigos quando ele invadiu uma facção rival. Eu tinha dezessete anos e tinha entrado para a prostituição logo depois de ter fugido de casa.
Ele não gostava de saber que Corvo tinha me ajudado a fugir de casa. Encontrei-o uma vez na rua perto da minha casa tentando vender drogas. Eu estava fugindo de mais um dos namorados da minha mãe.
Ele viu quando o cara me agarrou e tentou me arrastar para casa. Eu estava gritando para que ele me soltasse, quando Corvo apareceu e acertou a cabeça dele com uma barra de ferro. Assustada, agradeci e continuei a correr. Só fui encontrar ele novamente quando Falcão me trouxe para cá e me transformou em sua mulher.
Desde então sou considerada sua propriedade. Tenho minhas regalias, mas não posso nem sonhar em deixá-lo. Sei do que ele é capaz e para minha segurança, tenho que abster de minha liberdade para permanecer viva.
— Eu sei Falcão. Só estou querendo dizer que...
— Chega dessa conversa. Não quero ficar de mau humor logo cedo. Sabe o que eu quero agora? — perguntou soltando meu braço.
— Não faço ideia.
— Preciso de você agora. Ontem eu estava com muita preocupação e não conseguiria te dar a atenção de que precisa. Mas hoje estou cem por cento — diz retirando a parte de cima do meu baby doll.
Eu tenho sempre que estar disposta para ele. Não importa o momento ou meu estado. Quando Falcão me quer, eu devo obedecer.
Pode parecer que não tenho amor próprio, mas é isso a sofrer as consequências. Essa não é a vida que escolhi, mas é a única que eu tenho.
Sem nenhum ato de carinho, sou jogada na cama, tendo o resto da minha roupa retirada. A única regra do nosso relacionamento é o uso de p**********o. Impus isso assim que me tornei sua esposa. Convenci a preservar minha saúde.
— Odeio usar essa m***a com você. Queria poder senti-la sem ter essa borracha me impedindo — disse enquanto me puxava para o final da cama.
— Eu sei, mas temos um acordo...
— Vamos esquecer isso por agora.
Ele nunca é carinhoso comigo, e sempre preciso fingir que estou gostando. Cada vez que ele me toma, é como se estivesse me apunhalando com um punhal.
— Esqueci de falar, hoje você vai conhecer o seu novo segurança — disse enquanto fechava o zíper da calça.
— Achei que tinha deixado bem claro que não preciso de um cão de guarda — falei enrolando uma toalha no meu corpo e indo para o banheiro.
— Você não tem que querer Thay. Você quase morreu da última vez.
— Foi um caso à parte. Eu estava distraída e não percebi a emboscada.
— Nem você e nem o i*****l do Dado. Ele era pago para te manter a salvo, mas ao invés disso te deixou sozinha para bancar o herói.
— Falcão...
— Chega de falar nesse assunto. Ele está morto agora. Depois do almoço quero que você marque presença no galpão para conhecer seu segurança ou sua sombra, como você gosta de chamar.
Falcão colocou sua arma presa na parte de trás da calça e depois saiu do quarto.
Só de imaginar a morte c***l de Dado, fiquei toda arrepiada. Fiquei dias sem dormir depois de assistir seu julgamento e assassinato. Ele foi torturado e depois colocado no micro-ondas, sendo queimado vivo.
Falcão não tem piedade dos seus inimigos, não tolera traição e muito menos que toquem no que é seu, ou seja, eu. Sou intocável para qualquer outro. Todos tem que me respeita.
Os amigos do Dado me odeiam. Vejo isso em cada olhar que recebo quando passo por eles, minha nuca até fica arrepiada só em pensar no que fariam comigo se tivessem uma chance.
Eu apenas tento passar despercebida, por isso não gosto de se chamada de rainha. Tento manter uma vida separada da vida de Falcão. Claro, que tenho que estar envolvida nos planos dele, mas mantenho distância o máximo possível.
Segui para meu banho, para limpar meu corpo do toque de Falcão. Depois segui para o único lugar em que me sinto em paz, onde ninguém, nem mesmo meu dono entra, meu estúdio de dança.