Thay
Eu m*l havia conseguido dormir depois que Falcão saiu. Chorei em silêncio para não atrair a atenção de Lucas, que estava na minha sala como um cão de guarda. Limpei o local onde Falcão havia quebrado a garrafa, e causado cortes na sua mão. Joguei tudo na lixeira do banheiro, inclusive a toalha e depois caí na cama.
A violência de Falcão estava ficando cada vez mais constante. E isso estava me deixando assustada. O consumo de bebidas e drogas estava levando-o a se tornar uma pessoa mais assustadora do que quando o conheci.
Eu precisava fugir, mas não sabia como e nem em que confiar. Ninguém iria me ajudar a fugir e correr o risco de ser pego. E se eu fugisse, para onde iria? A quem pediria abrigo?
Falcão acabaria me encontrando e teria muita sorte se tivesse uma morte rápida. Mas eu precisava arriscar, não poderia viver com medo para sempre, esperando ele perder completamente o controle e me ferir de verdade.
Eu só tinha Corvo como alguém de confiança, e embora soubesse que ele me ajudaria, eu não poderia pedir algo tão perigoso, colocando sua vida em perigo. Mas depois de presenciar Lucas tentando me proteger na noite passada, talvez... Talvez eu houvesse encontrado alguém que me ajudaria.
Eu precisava saber mais sobre sua vida e ver se ele seria mesmo de confiança e ter a certeza que não me entregaria para Falcão.
Iria investigar sua vida e saberia até que ponto, ele seria um guarda-costas obediente. Enquanto isso, eu precisaria conseguir algum dinheiro, que me ajudasse a ficar longe de Falcão. E para onde eu iria, precisaria de muito. Nova identidade e quem sabe ter a vida que sonhei quando era criança.
Só saí do quarto, por volta das onze, quando meu estômago me avisou que estava na hora de comer alguma coisa. Quando abri a porta, um aroma delicioso vindo da cozinha me chamou atenção.
— Não sabia que tinha sido contratado para ser meu cozinheiro também – falei quando o vi mexendo em uma panela.
— Estou morrendo de fome, e já que estou bancando sua babá, achei que não seria legar ficar de estômago vazio – respondeu sem tirar os olhos da panela.
— Já vi que não o único aqui feliz com nossa condição. Odeio me sentir vigiada. Parece que tenho dez anos.
Entrei na cozinha e fui até o fogão ver o que ele estava fazendo.
— O que está preparando? – perguntei ficando bem próxima a ele.
— Risoto de frango, não é a melhor opção, mas foi o que encontrei na sua geladeira, que por sinal precisa abastecida.
— Não preciso me preocupar com isso. Nunca faço minhas refeições em casa. Odeio comer sozinha e Falcão quase sempre está fora. Então por que lotar a geladeira, se tudo vai estragar?
Tomei a colher de p*u que estava em sua mão e peguei um pouco do risoto para experimentar.
— Hum... Nada m*l. Onde aprendeu a cozinhar? Tenho certeza que não foi na favela... Caras como você não perdem tempo cozinhando.
Lucas pegou a colher de volta e começou a mexer novamente.
— Aprendi com meu pai – respondeu tampando a panela e seguindo para a pia.
— Seu pai é algum tipo de chefe de cozinha?
— Não. Ele apenas gostava de cozinhar.
— Gostava? Não gosta mais?
— Sabia que você pergunta demais?
— Não vejo problema algum querer saber um pouco da pessoa que estará comigo até... Perder a vida por mim – completei indo para a geladeira pegar uma cerveja, algo que nunca faltava.
— Por que acha que vou morrer por você?
— Você está sendo pago para me proteger, e já que sabe que não sou nenhuma santa, e muito menos querida por aqui, alguém algum dia tentará contra minha vida.
— Não foi você quem falou que ninguém seria louco de tocar em você?
— E nós dois sabemos que sempre pode haver alguém que queira arriscar a sorte. Quer uma cerveja? – perguntei enquanto abria minha garrafa.
— Estou de serviço, não posso beber.
— Falando assim até parece um policial...
Lucas parou de lavar a louça e me olhou sério.
— Só por que não quero beber, pareço alguém da lei?
Ergui minhas sobrancelhas e tomei o primeiro gole da bebida.
— Tem algo em você, ainda não sei o que é... Não está me convencendo...
Senti que ele ficou tenso, mas logo disfarçou com um sorriso.
— Não sabia que eu precisava ter um jeito para cuidar de você.
Coloquei a garrafa em cima da mesa e caminhei lentamente até ele. Fiquei próxima o bastante para que ele sentisse meu perfume.
— Vamos deixar uma coisa bem clara aqui... Posso cuidar de mim mesma. Faço isso a mais tempo do que imagina. Se você está aqui é porque nem mesmo eu posso ir contra o Falcão. Não tente bancar o esperto ou nem saberá o que lhe atingiu.
— Então já que pode cuidar de você mesma, por que ainda está aqui? Você poderia ir embora para qualquer lugar...
Eu ri pela primeira vez em meses.
— De onde você veio? Não sabe que sou propriedade dele? Se eu tentar sair daqui, não durarei duas noites.
— Já pensou em fugir?
— Fugir? Para onde? E quem me ajudaria, se todos foram comprados pelo Falcão?
— Eu não fui comprado por ninguém...
— Então me ajudaria a fugir se eu pedisse?
— Você quer fugir? – me respondeu com outra pergunta.
Deveria ser algum tipo de teste. Falcão gostava de fazer esse tipo de coisa para testar quem estava do seu lado. E o meu novo segurança parecia muito aquele tipo que cumpria as ordens.
— Não, eu não quero fugir. Por que iria querer isso? Tenho tudo o que eu quero aqui, um teto, dinheiro e até meu próprio segurança.
Voltei para pegar minha cerveja.
— Vai demorar muito aí? – perguntei apontando para a panela.
— Não muito.
— Ótimo, vou tomar banho e volto para almoçar.
— E quem disse que fiz almoço para você? – me provocou.
— Você está na minha casa, usando a minha cozinha, então acho que vou almoçar também.
Larguei a garrafa em cima da pia, ao seu lado e voltei para o quarto. Tomei um banho demorado, aproveitando para lavar meus cabelos. Depois de secar com o secador, coloquei uma legging cinza, regata preta e voltei para a cozinha descalça. Lucas já estava almoçando quando entrei.
— Que falta de educação. Por que não me esperou para almoçar?
— Odeio comer comida fria – disse me direcionando um olhar travesso.
Tentei parecer chateada, mas não deu para evitar um sorriso tímido. Fui até a geladeira e peguei outra cerveja.
— Vai beber outra?
— Também vai controlar quantas cervejas vou beber?
— Não. Só que cerveja não combina com risoto.
— E quem liga para o que combina com o quê? É apenas comida.
— Ainda bem que você é melhor com arma, do que com combinações culinárias.
— Como sabe que sou boa com armas? – perguntei enquanto abria a garrafa e levava a boca.
— Vi sua arma no dia em que fomos apresentados.
— Humm... Achei que tinha olhado para minha b***a ao invés da minha arma.
Lancei um olhar de desafio, esperando sua reação.
— Só se eu estivesse querendo perder minha cabeça. Falcão foi bem claro na nossa conversa...
— De não se aproximar... Eu sei... E se quer um conselho, quer dizer, mais um, obedeça.
Soltei a garrafa em cima da mesa e peguei o prato.
— Vamos ver se sua gororoba ficou bom mesmo.
Coloquei uma pequena porção, para o caso de não gostar muito. Voltei para a mesa e me sentei de frente para ele. Não pude deixar de perceber seu olhar enquanto eu levava o risoto a minha boca.
— E então? Passei no teste? – perguntou quando demorei a falar.
— É, não está tão r**m. Dá para comer.
Ele riu.
— Admita que nunca comeu nada igual.
— Não vamos exagerar...
Comemos em silêncio. Observei como ele se portava à mesa, não parecia com alguém que foi criado no morro. Quem era o Lucas de verdade? E por que estava na minha casa bancando meu protetor?
Eram tantas perguntas para serem respondidas.
— Seu machucado está bem melhor.
Sua voz me trouxe de volta ao presente.
— É parece que sim. Logo poderei voltar ao trabalho. Preciso está pronta no sábado.
— O que tem na sábado?
— Falcão não lhe passou nada?
— Além de ser sua babá? Não.
— Podemos parar com essa m***a de me tratar como se fosse uma criança? Você não é minha babá – falei pegando minha cerveja de volta.
— Estou vendo que não gosta de piadas.
— Suas piadas são péssimas, mas voltando ao assunto anterior, tenho que fazer uma entrega e Falcão só confia em mim para fazer isso. E se eu vou, você com certeza também vai.
— A onde vamos?
— Você precisa apenas se preocupar em me manter longe das balas.
— Mas se eu não souber a onde vamos, como a manterei salva?
— Sabe que você não é só um corpo bonito? Quantos anos você tem? – perguntei querendo mudar de assunto.
— Quantos anos você quer que eu tenha?
— A idade verdadeira. A não ser que você tenha alguma frescura em relação à idade.
— Sou muito bem resolvido com minha idade. Tenho 25 anos.
— Não é tão velho assim.
— E você, quantos anos tem? Parece-me bem jovem.
— Eu não pareço... Eu sou jovem, mas conhece aquele velha frase? É f**o perguntar a idade de uma mulher.
— Então não vai me responder?
— Não. Vou deixar você imaginar.
Quando ele ia falar alguma coisa, ouvi a barulho da porta da sala sendo aberta. Falcão estava de volta. Senti a tensão me alcançar.
Levantei-me da mesa e coloquei meu prato na pia e fui para a sala ver como estava o humor dele.
A primeira coisa que percebi foi uma faixa em volta da sua mão. Colocou sua arma em cima da mesa e sentou no sofá. Quando ele fazia isso, era porque queria que eu lhe fizesse companhia.
— Onde está Lucas?
— Na cozinha terminando de almoçar.
— Achei que ele tinha ido embora.
— Você pediu para que ele ficasse aqui até seu retorno.
— Pode dispensá-lo. Preciso ficar um pouco com minha mulher. Estou limpo, como você gosta – disse me puxando para seu colo e me beijando – você está com aquele perfume que gosto...
— Sabia que iria gostar.
— Vá logo se livrar do garoto. Vou para o quarto, tenho uma surpresa para você.
— Surpresa?
— Não demore.
Levantou-me e me empurrou para a cozinha.
Quando cheguei à cozinha, Lucas já havia limpado a louça.
— Está dispensado. Pode ir.
— Vai ficar bem?
Fui pega de surpresa.
— Sim, por que não iria?
— Ontem, ele...
— Ele estava sobre efeito de álcool. Esteja aqui no mesmo horário.
Sem falar mais nada, dei as costas e segui para o quarto.