Lucas
Quando voltei para casa, encontrei Kevin negociando com alguns caras na sala. Achei que seria a oportunidade para colher algumas informações.
— Olha só quem resolveu voltar para casa. O que aconteceu? Resolveu aproveitar para tirar uma casquinha da rainha? – Kevin provocou quando me viu entrar.
— Então é ele quem está cuidando da p*****a do chefe? – outro cara com quem não tive empatia perguntou.
— Cuidado com o que fala. Ele é seu novo segurança, portanto alguém de confiança do Falcão e se por acaso ele resolver soltar que você andou ofendendo a mulher dele, será um homem morto – Kevin respondeu contando o maço de dinheiro em suas mãos.
— E você acha que tenho medo? Foi por causa dela que Dado morreu.
— Quem é Dado? – perguntei.
— O antigo segurança da Thay. Ele falhou com sua segurança e sofreu as consequências.
— Você sabe que esse não foi o real motivo. Ele andou se engraçando com a rainha e com certeza ela deu corda e Falcão acabou descobrindo.
— Se isso realmente fosse verdade, Falcão não a deixaria viver e continuar com a vida mansa que tem. Ela é seu braço direito, quem cola com ela, tem a confiança dele – Kevin finalizou a frase e guardou o dinheiro no envelope – a quantia está correta, pode pegar a mercadoria.
Ricardo pegou uma bolsa que estava no chão e seguiu para a porta, acompanhado dos outros caras.
— Esteja avisado. Aquela lá não vale nada. Faz-se de boazinha, mas é capaz de cortar seu p*u sem pestanejar.
Quando eles saíram, voltei a olhar para Kevin.
— Seus amigos são bem legais.
— Não tenho amigos, tenho clientes.
Kevin se levantou, pegando o envelope e caminhando para o seu quarto.
— Não fique perto dela. Thay é a causa de muitos problemas aqui.
— Ela não parece ser perigosa.
— É aí que você que se engana.
— Ela já matou alguém?
— Nunca precisou, mas está sempre presente nos julgamentos e ela nem pisca quando o condenado recebe a pior pena. Se mexer com ela, sua sentença de morte estará lançada.
— Você não tem algum interesse nela? – provoquei.
— Com um corpo que ela tem, qualquer um aqui pira quando ela passa, mas os mais inteligentes guardam isso para si mesmo.
— Então está querendo me dizer que todos os caras a querem?
— E quem não quer entrar nas calças da mulher do chefe? Ela é nova demais para ele e como homem, posso imaginar o fogo que ela deve ter.
— Você acha que ela teve um caso com o antigo segurança?
— Eu não sei de nada.
— E nunca procurou saber?
Kevin me olhou estranho.
— Por que está tão interessado?
— Estou apenas curioso. Como você mesmo disse, Falcão é bem mais velho do que ela.
— Por acaso ouviu o que falei sobre mexer com as propriedades do Falcão?
— Thay não me parece propriedade de alguém.
— Mas é. Ele a salvou de outro traficante, dando-lhe abrigo e comida. Tudo o que ela tem é graças a ele.
— Só porque a salvou, não quer dizer que ela pertença a ele.
— Eu sou apenas mais um soldado, ele é o chefe. Aqui ele manda e desmanda. Você pode ter qualquer mulher, menos a Thay, estamos entendidos?
Antes que eu pudesse responder, Kevin deixou a sala. Fui até a cozinha procurar alguma coisa para comer, mas ao abrir a geladeira, não tinha nada, apenas embalagens vazias.
— Ninguém come nessa casa não? – perguntei batendo a porta da geladeira e seguindo para a saída.
Fui até uma banca de cachorro-quente e comprei um, acompanhado de um refrigerante. Senti alguns olhares quando paguei e fiquei esperando o meu pedido.
— Temos carne nova na área?
Olhei para trás e vi duas garotas vestidas com vestidos tão curtos que até pareciam blusas. Uma era morena com longos cabelos negros até metade da cintura. A outra era loira, cabelos cacheados abaixo dos ombros.
— Sou Lorena e essa aqui é minha amiga Andreza – a morena se apresentou.
— Oi – falei não querendo puxar papo.
— Ouvi por aí que você é segurança da Thay – a loira puxou assunto quando eu não falei mais nada.
— Para um lugar tão grande, as notícias correm rápidas aqui.
As duas riram.
— Quando se fala de Falcão e Thay, as notícias voam – respondeu Lorena.
— Aqui está seu pedido.
Virei-me para pegar meu pedido e depois comecei a me afastar das duas, voltando para casa.
— Mais tarde tem baile... Não quer aparecer por lá? – perguntou Lorena.
— Tenho que acordar cedo.
— Claro que tem. Thay acorda cedo para malhar e precisa do seu segurança.
— Para ter aquele corpo, ela precisa malhar que nem uma louca. Ela poderia malhar onde malhamos, mas se acha boa demais para se misturar... – a loira começou a falar.
— Cala a boca Andreza, você pode entrar em apuros se isso cair em ouvidos errados.
— Estou mentindo por acaso? Ela tem sua própria academia, onde ninguém entra. Nem mesmo Falcão.
Lorena ignorou sua amiga e voltou a me olhar.
— Não liga para o que ela falou. Andreza tem uma língua que não cabe na boca... Mas voltando ao nosso assunto, se de repente mudar de ideia, estaremos no camarote... Você terá ótimas companhias...
— Obrigado, mas vamos deixar para outra oportunidade.
— Vou cobrar.
Afastei-me, mas ainda pude ouvir a conversa das duas.
— Você pirou de vez? Ele é segurança da Thay. Sabe que ele pode contar tudo.
— E quem liga? Eu quero mesmo que ela saiba que nem todos gostam dela aqui.
Pelo jeito, Thay precisava de mais segurança do que ela achava. E devia ser por isso que Falcão queria alguém com ela o tempo todo.
♠
Falcão estava saindo do quarto quando abri a porta da sala.
— Que bom que chegou, preciso falar com você.
Será que ela tinha descoberto minha identidade?
— Cheguei atrasado?
— Não. Thay está no banho. Temos tempo para conversar.
Falcão foi para outra sala e eu lhe acompanhei. O lugar não era nada mais que um espaço cheio de armários trancados. Uma mesa com cerca de um metro e meio ocupava o centro da sala, contendo um computador e nada mais.
— Como Thay está se comportando?
A pergunta me pegou de surpresa.
— Quieta, eu acho.
— Eu não quero que você ache, quero sua certeza – disse olhando sério.
— Ela está na sua. Não conversamos muito.
— Ela é assim. É difícil arrancar alguma coisa dela. Onde foram ontem?
— Fomos à academia, mas não entrei.
— Ninguém entra lá.
— Ela deixou isso bem claro.
— Thay adora dançar, mas são raras as vezes que ela faz isso na presença de alguém. E depois foram para onde?
— Voltamos para casa. Ela não queria que vissem o machucado em seu rosto – soltei para ver se ele falava alguma coisa.
— Claro, o machucado... Thay é um pouco desastrada, vive batendo em alguma coisa.
Eu sabia muito bem o que a tinha machucado, mas não falei nada, não queria bater de frente com ele e correr o risco de colocar minha missão em perigo.
— Quero que fique olho nela.
— Está desconfiando de alguma coisa? Alguém está tentando machucá-la?
Além de você, pensei comigo.
— Há algumas semanas, fui informado de que ela anda falando com alguém fora daqui.
— E quem seria essa pessoa?
— Imagino que seja alguém que ela não quer que eu saiba. Preciso que descubra quem é.
— Por que não pergunta diretamente a ela?
— Se eu quisesse saber através dela, não estaria aqui lhe dando essa ordem. Ela vai às compras hoje, veja se ela se encontra com alguém. Thay pode tentar distraí-lo por alguns minutos... Não permita que fique sozinha.
Uma batida na porta cortou nossa conversa.
— Se vocês já terminaram, preciso sair em dez minutos.
Thay estava vestida em uma calça jeans justa ao corpo, uma regata preta e um blazer rosa. Salto alto havia substituído seus tênis, e seus cabelos estavam soltos e escovados. Uma maquiagem suave concluía seu visual.
— Já terminamos. Estava apenas informando Lucas o cuidado com você.
— Como se uma ida ao salão de beleza fosse uma missão – disse entrando na sala e beijando Falcão rapidamente antes de sair.
— Pode ir, e não se esqueça do que lhe pedi. Quero informações o quanto antes. Não gosto de ser enganado e se ela está fazendo isso, quero logo cuidar do problema.
— Pode deixar.
Saí da sala e fui atrás de Thay. Se ela realmente estava escondendo alguma coisa, deveria saber o risco que estava correndo. E o que ele iria fazer se suas suspeitas estivessem certas? O que aconteceria com ela? E quem seria a pessoa que falou com Falcão?
Thay estava posicionado no carro quando cheguei.
— Mais um pouco e eu iria sozinha – ela disse quando sentei no banco do motorista.
— Não prefere ir no banco de trás? – perguntei.
— Você é meu segurança, não meu motorista.
— Se alguém nos parar será fácil meter uma bala em sua cabeça.
— E você acha que correria menos risco indo no banco de trás? Alguém pode simplesmente parar ao lado e atirar. De um jeito ou de outro eu morro. Agora vamos logo, tenho hora marcada.
— Vai encontrar alguém? – perguntei querendo obter alguma informação.
— Minha manicure não gosta de atrasos – respondeu rápido.
— Ok. Para onde vamos?
— Botafogo.
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Estacionamos na primeira vaga que encontrei e depois seguimos para o elevador. O salão ficava em um prédio comercial, rodeado de lojas finas, onde apenas pessoas com muito dinheiro frequentava.
— Fique ao meu lado. Não quero que as pessoas percebam que estou com segurança. Já sou observada na favela, não preciso atrair olhares aqui também.
— Ao lado, como se fosse seu namorado? – perguntei sorrindo.
— Isso, como se fosse meu namorado.
— E terei que segurar sua mão?
Thay me olhou erguendo suas sobrancelhas.
— As pessoas não vão achar estranho eu ser seu namorado e não me comportar como tal?
— Às vezes acho que você não teme por sua vida. Apenas ande ao meu lado. E fique de olho a quem está ao meu redor. Você não quer meu sangue manchando suas roupas, quer?
— Acha que alguém tentaria fazer alguma coisa contra você aqui?
— E por que não? Estou fora do meu escudo. Aqui sou apenas uma garota normal de dezenove anos.
— Só assim para descobrir sua idade.
Eu ri, mas ela continuou séria.
Saltamos no quarto andar e seguimos para o salão que ficava no final do corredor. O lugar estava parcialmente cheio. Metade das clientes eram mulheres bem mais velhas do que ela, e pude notar os olhares em nós dois quando entramos.
— Thay, chegou cedo – uma mulher aparentando ter uns trinta e poucos anos veio nos recepcionar.
— O trânsito estava ao meu favor – disse cumprimentando a mulher.
— E esse seria...
— Lucas, meu namorado.
— Olá Lucas, sou Abigail, prazer em conhecê-lo – ela disse me olhando dos pés à cabeça.
— O prazer é todo meu – falei apertando sua mão quando me ofereceu.
— Espero que seja paciente. Thay demora sempre que vem aqui – disse sorrindo.
— Sou conhecido pela minha paciência exagerada – sorri de volta.
— Olha só, tem senso de um humor. Fique a vontade, vou pedir para que uma das meninas traga algo para beber. O que prefere, café, chá ou refrigerante?
— Água está ótimo.
— Ok, água então. Venha Thay, chegaram novas cores de esmaltes que você vai adorar...
As duas seguiram para uma cadeira vazia que já estava separada para ela e fiquei esperando alguém trazer minha água.
Peguei uma das revistas e abri em uma página qualquer. Fiz uma vistoria rápida no local, para constatar que não tinha ninguém nos seguindo. As mulheres voltaram seus olhares para suas respectivas revista e pude ficar livre para observá-las.
— Aqui está sua água.
Baixei a revista e olhei para a garota que trazia uma bandeja em suas mãos.
— Obrigado.
A garota sorriu quando peguei o copo.
— Aceita mais alguma coisa? Temos bolo de laranja...
— Obrigado, estou satisfeito apenas com a água.
— Se me permite falar, você é bem mais simpático do que o antigo namorado.
— Humm... Devo levar isso como um elogio, então.
Sorri deixando a garota com o rosto vermelho.
— Não a deixe saber que confessei isso.
— Não deixarei.
Duas horas depois, eu já não tinha mais posição para sentar. Thay tinha feitos as unhas, limpeza de pele, depilação e agora estava finalizando os cabelos.
— Parece exausto – disse Abigail sentando ao meu lado.
— Apenas entediado por ficar aqui na mesma posição – sorri.
Abigail olhou para os lados e falou baixinho.
— Nós dois sabemos que você não o namorado da Thay.
Olhei para ela enrugando minhas sobrancelhas.
— Sei quem ela é e quem é o seu namorado, mas fique tranquilo, pelo o que ela gasta aqui, não me preocupo em saber de onde vem o dinheiro.
Abigail tocou minha mão gentilmente.
— Resta saber se você é tão gentil quanto o outro segurança.
— O que quer dizer com isso?
Ela pegou um cartão contendo seu telefone e me entregou.
— Me procure quando tiver uma folga e comprovaremos se é tão gentil, quanto é bonito.
— Acho que já podemos ir.
A voz de Thay atrás de Abigail chamou minha atenção. A mulher se levantou e virou para falar com ela.
— Você está linda. Podemos marcar a próxima visita?
— Claro.
— Ótimo, então eu a vejo novamente na próxima semana.
— Deixei um presentinho para as meninas que cuidaram tão bem de mim.
— Você sempre mimando minhas garotas.
— Elas merecem. Vamos Lucas, aposto que está louco para dar o fora daqui.
— Já estava me sentindo parte do salão.
— Seu namorado tem ótimo senso de humor – disse Abigail sorrindo.
— Você não imagina o quanto.
Deixei Thay sair na frente e a segui.
— Agora vamos às compras
— Por um acaso tirou o dia para me torturar?
— Não... Talvez...
Vi um vislumbre de um sorriso enquanto no encaminhávamos de volta para o elevador.