O dia amanheceu com um vento diferente.
Não mais carregado de ameaça imediata, mas de algo mais sutil — expectativa. Após a tentativa de captura frustrada, o vale entrou em um estado de vigília silenciosa. Pessoas observavam mais. Falavam menos. E, ainda assim, algo começava a se mover sob a superfície do medo.
Aethon permaneceu afastado, nas colinas, onde a vegetação se fechava em curvas naturais. Não por esconderijo, mas por respeito. Sabia que sua presença constante poderia sufocar aquilo que precisava nascer sozinho.
Rute, por outro lado, caminhava entre os humanos.
Ela não discursava.
Não liderava.
Apenas ouvia.
— Eles quase o levaram — disse uma mulher, enquanto consertava uma cerca quebrada. — Meu filho viu tudo.
— Ele não atacou — respondeu Rute, com simplicidade.
— Não… não atacou — confirmou a mulher, hesitante.
Mais adiante, dois homens conversavam em tom baixo.
— Se fosse qualquer outro dragão, teríamos perdido o celeiro — disse um deles.
— Ou a vila inteira — concordou o outro.
Rute parou por um instante, mas não interferiu.
As palavras precisavam circular sem empurrões.
Ao cair da tarde, pequenas reuniões começaram a se formar. Não anunciadas. Não organizadas. Pessoas sentavam-se em torno de fogueiras modestas, em grupos de cinco ou seis. Falavam sobre o que viram. Sobre o que temiam. Sobre o que não queriam mais repetir.
Aethon observava à distância.
Lyren pousou ao seu lado, silencioso como uma sombra antiga.
— Eles estão falando — disse.
— Isso assusta mais do que gritos — respondeu Aethon.
— O conselho sente o mesmo — acrescentou Lyren. — Quando vozes comuns começam a concordar, o poder perde previsibilidade.
Nas montanhas, algo semelhante acontecia.
Dragões jovens questionavam rotas de patrulha. Outros lembravam histórias antigas que não eram mais contadas em voz alta. Alguns, discretamente, deixavam marcas nas rochas — símbolos de neutralidade, usados muito antes da separação definitiva.
Kaelith encontrou Aethon ao entardecer.
— Há dragões que não querem caçar — disse. — Mas também não querem desafiar Draco abertamente.
— Então estão exatamente onde eu estive — respondeu Aethon.
— Isso os torna perigosos?
— Não — disse ele. — Torna-os necessários.
Naquela noite, Rute foi convidada a falar.
Não em um palco.
Em um círculo.
— Você conhece o dragão — disse um homem idoso. — Diga-nos o que ele quer.
Rute respirou fundo.
— Ele quer que vocês não sejam inimigos por costume — disse. — Só isso.
— E o que ele oferece? — perguntou outro.
— p******o quando puder — respondeu ela. — Verdade sempre.
O silêncio que se seguiu não foi de reprovação.
Foi de reconhecimento.
— Isso não é pouco — murmurou alguém.
Do alto, Aethon sentiu algo mudar.
Não como um rugido.
Como uma porta destrancando.
No mesmo instante, longe dali, Draco caminhava pelo platô do conselho. Suas garras riscavam o cristal com impaciência.
— Eles falam — disse. — Humanos falam. Dragões hesitam.
— Hesitar não é trair — respondeu um ancião.
— É o primeiro passo — rebateu Draco.
Xanadu permaneceu em silêncio, observando o céu escurecer.
— Força não calará ideias — disse por fim.
— Ideias causam guerras — respondeu Draco.
— Guerras nascem do medo de perdê-las — corrigiu o pai.
Draco virou-se, frustrado.
— Você está disposto a perder o controle do reino?
— Estou disposto a perder a ilusão — respondeu Xanadu.
No vale, as fogueiras se apagavam uma a uma.
As pessoas retornavam para casa.
Mas algo ficara.
Não um plano.
Não uma rebelião.
Uma concordância silenciosa.
Quando Rute se aproximou de Aethon naquela noite, seus olhos estavam cansados, mas firmes.
— Eles não pediram que você aparecesse — disse ela.
— Isso é bom — respondeu ele.
— Disseram que querem decidir por si.
Aethon fechou os olhos por um instante.
— Então estão começando.
— E você?
— Eu permanecerei próximo — disse. — Sem liderar. Sem comandar.
— E se pedirem?
— Então ouvirei primeiro.
Rute sorriu, pequena.
— Você mudou.
— Não — respondeu Aethon. — Apenas parei de fingir.
Naquela noite, nenhum dragão voou baixo.
Nenhum humano dormiu em pânico.
Não porque o perigo tivesse acabado.
Mas porque, pela primeira vez, o silêncio não era imposto.
Era escolhido.
E vozes, quando se levantam assim, raramente voltam a se calar.