Capítulo 11

726 Words
O exílio não foi anunciado com palavras. Ele aconteceu nos espaços vazios. Aethon percebeu isso ao amanhecer, quando sobrevoou as montanhas baixas e não encontrou nenhum dragão patrulhando os céus. As rotas estavam livres, mas não por confiança — por distância. Não havia ordens para expulsá-lo, nem convites para retornar. Havia apenas a ausência calculada. Ele agora caminhava entre dois mundos. E não pertencia plenamente a nenhum. Aethon pousou próximo ao limite do vale humano, onde a vegetação começava a se tornar mais densa. Ali, o ar era diferente, carregado de cheiros simples: madeira, terra úmida, fumaça leve de lareiras apagadas cedo demais. Ele manteve as asas recolhidas, o corpo baixo, evitando assustar quem por acaso passasse. Rute o aguardava. Ela estava sentada sobre uma pedra lisa, abraçando os joelhos. Ao vê-lo, levantou-se de um salto, mas conteve o impulso de correr. — Você ficou — disse ela, com cuidado. — Por enquanto — respondeu Aethon. Havia cansaço em sua voz. Não físico, mas profundo. — Eles vão atrás de você? — perguntou Rute. Aethon observou o céu. — Não imediatamente. O silêncio também é uma estratégia. Rute franziu a testa. — Isso é injusto. — A justiça raramente é clara quando o medo governa — disse ele. Caminharam juntos até um trecho mais afastado do vilarejo, onde árvores antigas formavam um abrigo natural. Ali, poucos humanos se aventuravam. O lugar tornara-se um ponto neutro, improvisado, onde decisões eram pensadas antes de serem tomadas. — Alguns ainda falam m*l de você — disse Rute, sentando-se novamente. — Outros… começaram a perguntar. — Perguntar é bom — respondeu Aethon. — Significa que a certeza começou a rachar. Enquanto conversavam, uma presença se fez sentir. Não hostil. Cuidadosa. Lyren surgiu entre as copas das árvores, pousando com leveza surpreendente para seu tamanho. Ele manteve distância, respeitando o espaço humano. — Não vim trazer ordens — disse. — Vim trazer aviso. Aethon ergueu a cabeça. — Draco está pressionando o conselho — continuou Lyren. — Ele quer que você seja declarado traidor formalmente. Rute levou a mão à boca. — Isso significa… — Caçada — completou Aethon, com calma sombria. Lyren assentiu. — Xanadu ainda resiste. Mas a paciência do reino não é infinita. Aethon permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Então não posso ficar parado — disse. — Nem avançar com imprudência — acrescentou Lyren. — Qualquer erro agora confirmará os medos deles. Rute ergueu o olhar. — E os humanos? Lyren observou-a com atenção. — Alguns começaram a se reunir — respondeu. — Não líderes. Pessoas comuns. Curiosos. Aethon sentiu algo se alinhar dentro de si. — Um exilado pode fazer coisas que um príncipe não pode — disse. Lyren inclinou a cabeça. — Pensei que diria isso. Quando Lyren partiu, o sol já se inclinava para o oeste. As sombras alongavam-se, e o mundo parecia suspenso entre decisões. — Você tem medo? — perguntou Rute, de repente. Aethon não tentou esconder. — Tenho. — Então por que continua? Ele baixou a cabeça até ficar na altura dela. — Porque o medo não é sinal para parar — disse. — É sinal de que o caminho importa. Rute respirou fundo. — Se eles vierem atrás de você… — Eu não lutarei contra humanos — afirmou Aethon. — Nem contra dragões, se puder evitar. — E se não puder? Aethon olhou para o horizonte. — Então defenderei aquilo que ainda pode existir. Naquela noite, fogueiras pequenas surgiram em pontos isolados do vale. Não para sinalizar guerra. Mas reunião. Homens e mulheres aproximaram-se com cautela. Não armados, não confiantes — apenas dispostos a ouvir. Aethon permaneceu nas sombras, enquanto Rute falava primeiro. — Ele não veio dominar — disse ela. — Veio proteger quando pôde. Olhares se cruzaram. — E o que ele quer em troca? — perguntou alguém. Aethon avançou um passo. — Nada — disse. — Apenas a chance de não sermos inimigos por hábito. O silêncio que se seguiu não foi de rejeição. Foi de ponderação. No alto das montanhas, Draco observava as luzes pequenas se acenderem. — Ele está criando algo fora do nosso controle — rosnou. Xanadu permaneceu imóvel. — Ou revelando algo que sempre existiu — respondeu. No vale, Aethon compreendeu o peso real do exílio. Não era estar sozinho. Era ser ponte. E pontes… Sempre são pisadas de ambos os lados.
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