O exílio não foi anunciado com palavras.
Ele aconteceu nos espaços vazios.
Aethon percebeu isso ao amanhecer, quando sobrevoou as montanhas baixas e não encontrou nenhum dragão patrulhando os céus. As rotas estavam livres, mas não por confiança — por distância. Não havia ordens para expulsá-lo, nem convites para retornar. Havia apenas a ausência calculada.
Ele agora caminhava entre dois mundos.
E não pertencia plenamente a nenhum.
Aethon pousou próximo ao limite do vale humano, onde a vegetação começava a se tornar mais densa. Ali, o ar era diferente, carregado de cheiros simples: madeira, terra úmida, fumaça leve de lareiras apagadas cedo demais. Ele manteve as asas recolhidas, o corpo baixo, evitando assustar quem por acaso passasse.
Rute o aguardava.
Ela estava sentada sobre uma pedra lisa, abraçando os joelhos. Ao vê-lo, levantou-se de um salto, mas conteve o impulso de correr.
— Você ficou — disse ela, com cuidado.
— Por enquanto — respondeu Aethon.
Havia cansaço em sua voz. Não físico, mas profundo.
— Eles vão atrás de você? — perguntou Rute.
Aethon observou o céu.
— Não imediatamente. O silêncio também é uma estratégia.
Rute franziu a testa.
— Isso é injusto.
— A justiça raramente é clara quando o medo governa — disse ele.
Caminharam juntos até um trecho mais afastado do vilarejo, onde árvores antigas formavam um abrigo natural. Ali, poucos humanos se aventuravam. O lugar tornara-se um ponto neutro, improvisado, onde decisões eram pensadas antes de serem tomadas.
— Alguns ainda falam m*l de você — disse Rute, sentando-se novamente. — Outros… começaram a perguntar.
— Perguntar é bom — respondeu Aethon. — Significa que a certeza começou a rachar.
Enquanto conversavam, uma presença se fez sentir.
Não hostil.
Cuidadosa.
Lyren surgiu entre as copas das árvores, pousando com leveza surpreendente para seu tamanho. Ele manteve distância, respeitando o espaço humano.
— Não vim trazer ordens — disse. — Vim trazer aviso.
Aethon ergueu a cabeça.
— Draco está pressionando o conselho — continuou Lyren. — Ele quer que você seja declarado traidor formalmente.
Rute levou a mão à boca.
— Isso significa…
— Caçada — completou Aethon, com calma sombria.
Lyren assentiu.
— Xanadu ainda resiste. Mas a paciência do reino não é infinita.
Aethon permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Então não posso ficar parado — disse.
— Nem avançar com imprudência — acrescentou Lyren. — Qualquer erro agora confirmará os medos deles.
Rute ergueu o olhar.
— E os humanos?
Lyren observou-a com atenção.
— Alguns começaram a se reunir — respondeu. — Não líderes. Pessoas comuns. Curiosos.
Aethon sentiu algo se alinhar dentro de si.
— Um exilado pode fazer coisas que um príncipe não pode — disse.
Lyren inclinou a cabeça.
— Pensei que diria isso.
Quando Lyren partiu, o sol já se inclinava para o oeste. As sombras alongavam-se, e o mundo parecia suspenso entre decisões.
— Você tem medo? — perguntou Rute, de repente.
Aethon não tentou esconder.
— Tenho.
— Então por que continua?
Ele baixou a cabeça até ficar na altura dela.
— Porque o medo não é sinal para parar — disse. — É sinal de que o caminho importa.
Rute respirou fundo.
— Se eles vierem atrás de você…
— Eu não lutarei contra humanos — afirmou Aethon. — Nem contra dragões, se puder evitar.
— E se não puder?
Aethon olhou para o horizonte.
— Então defenderei aquilo que ainda pode existir.
Naquela noite, fogueiras pequenas surgiram em pontos isolados do vale.
Não para sinalizar guerra.
Mas reunião.
Homens e mulheres aproximaram-se com cautela. Não armados, não confiantes — apenas dispostos a ouvir. Aethon permaneceu nas sombras, enquanto Rute falava primeiro.
— Ele não veio dominar — disse ela. — Veio proteger quando pôde.
Olhares se cruzaram.
— E o que ele quer em troca? — perguntou alguém.
Aethon avançou um passo.
— Nada — disse. — Apenas a chance de não sermos inimigos por hábito.
O silêncio que se seguiu não foi de rejeição.
Foi de ponderação.
No alto das montanhas, Draco observava as luzes pequenas se acenderem.
— Ele está criando algo fora do nosso controle — rosnou.
Xanadu permaneceu imóvel.
— Ou revelando algo que sempre existiu — respondeu.
No vale, Aethon compreendeu o peso real do exílio.
Não era estar sozinho.
Era ser ponte.
E pontes…
Sempre são pisadas de ambos os lados.