Capítulo 4

476 Words
Amizade em Construção A manhã nasceu tranquila no vale, como se o mundo tivesse decidido descansar. O rio corria manso, refletindo o céu claro, e as árvores balançavam suavemente com a brisa. Rute caminhava sozinha pela trilha estreita que levava além dos limites do vilarejo. Trazia consigo apenas um pequeno embrulho de pano e um sentimento estranho no peito — uma mistura de expectativa e esperança. Ela parou perto da colina coberta de flores silvestres e ergueu o olhar para o céu. — Você vai voltar… não vai? — sussurrou. Por alguns instantes, nada aconteceu. Então, uma sombra dourada cruzou o sol. O ar vibrou levemente quando Aethon desceu, pousando com cuidado atrás da colina, onde não poderia ser visto pelos humanos. Suas asas se dobraram lentamente, e seus olhos azuis encontraram os de Rute. — Eu disse que voltaria — falou ele. O sorriso de Rute surgiu sem esforço. — Eu sabia. Ela se aproximou devagar, como se cada passo fosse parte de um acordo silencioso. — Trouxe algo para você — disse, estendendo o embrulho. Aethon inclinou a cabeça, curioso. — Não precisamos de alimento humano. — Eu sei — respondeu ela. — Mas é um presente. Ele aceitou o gesto, tocado não pelo pão em si, mas pelo cuidado por trás dele. — Obrigado. Sentaram-se próximos, separados apenas pelo tamanho e pela forma, mas unidos por algo novo. O silêncio entre eles não pesava. — Como é viver entre os dragões? — perguntou Rute. Aethon demorou a responder. — É belo — disse. — E solitário. Rute assentiu. — Ac ho que entendo. Ele a observou com atenção. — Por que você não teve medo de mim? Rute pensou por um momento. — Porque monstros não escutam — respondeu. — E você escutou. As palavras ecoaram dentro de Aethon com força inesperada. — Você sonha muito — disse ele. — Sonhar é tudo o que tenho — respondeu ela. — Especialmente em voar. Aethon abriu uma das asas lentamente. — Quer ver o mundo do alto? Rute prendeu a respiração. — Mesmo? — Um voo curto — garantiu ele. — Seguro. Com cuidado, Aethon abaixou o corpo. Rute subiu entre as escamas mornas, segurando-se com firmeza. — Confio em você — disse ela. O voo foi breve, mas transformador. O chão se afastou. O rio virou linha de luz. O vento cantou nos ouvidos de Rute, arrancando-lhe lágrimas silenciosas. Quando pousaram, ela demorou a falar. — Agora sei — disse por fim. — O quê? — Onde pertenço, mesmo que ainda não seja lá em cima. O sino distante do vilarejo soou. — Preciso ir — disse Rute. Antes de partir, ela tocou suavemente uma escama dourada. — Amigos guardam segredos — falou. Aethon observou-a desaparecer entre as árvores. Naquele instante, compreendeu que algo havia se formado. Não era apenas curiosidade. Era amizade.
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