Capítulo 5

471 Words
Descoberta do Passado O caminho até as colinas antigas não era usado havia muito tempo. Rute o conhecia por histórias sussurradas no vilarejo — histórias que falavam de ruínas esquecidas, de pedras que cantavam quando o vento certo passava. Naquela tarde, ela caminhava com passos atentos, como se o chão guardasse memórias frágeis demais para serem pisadas com pressa. Aethon voava acima, discreto, acompanhando cada curva do terreno. — É aqui — disse Rute, apontando para um arco de pedra semioculto pela vegetação. O lugar parecia respirar. Colunas quebradas emergiam do solo, cobertas por musgo prateado. Símbolos antigos estavam gravados nas rochas, tão gastos pelo tempo que mais pareciam sombras do que inscrições. O ar ali era diferente — mais fresco, mais denso, carregado de uma quietude respeitosa. Aethon pousou lentamente. — Este é um santuário — murmurou. — Muito antigo. Rute sentiu um arrepio. — Quem o construiu? Aethon aproximou o focinho das inscrições. — Dragões… e humanos. Ela arregalou os olhos. — Juntos? — Sim. O silêncio que se seguiu era pesado de significado. Aethon fechou os olhos por um instante. Algo se agitava dentro dele — uma lembrança que não era exatamente sua, mas que pulsava no sangue. — Meu pai falava desses lugares como mitos — disse. — Espaços onde a confiança existia antes da separação. Rute passou os dedos por uma das pedras. — Então não era só lenda. — Não. Eles avançaram para o centro do santuário. Ali, um círculo de cristal emergia do chão, opaco e rachado, mas ainda imponente. No centro, uma marca em espiral unia símbolos humanos e dragônicos. Quando Rute se aproximou, a superfície brilhou suavemente. Aethon recuou, alarmado. — Rute, espere— Mas era tarde. A luz se intensificou, e imagens começaram a se formar no ar. Dragões pousando entre humanos. Crianças humanas tocando escamas sem medo. Dragões protegendo vilarejos do frio e da fome. Rute levou a mão à boca. — Eles eram… amigos. — Eram aliados — corrigiu Aethon, com a voz embargada. As imagens mudaram. Fogo descontrolado. Gritos. Uma construção humana em chamas. Dragões sendo atacados por lanças. — Foi aqui que tudo se quebrou — sussurrou Aethon. A espiral escureceu. — Não foi ódio — disse Rute, com cuidado. — Foi medo. Aethon a encarou. — Medo cria monstros — respondeu. O brilho cessou tão repentinamente quanto surgira. O santuário voltou ao silêncio antigo. — Se isso for verdade… — começou Rute. — Então tudo o que sabemos está incompleto — concluiu Aethon. Um som distante ecoou — asas cortando o ar. Aethon se retesou. — Não estamos sozinhos. Rute sentiu o coração acelerar. — Quem? Aethon ergueu o olhar para o céu. — Dragões não visitam este lugar há séculos. A sombra passou sobre as ruínas. E o passado, adormecido por gerações, acabava de despertar.
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