Descoberta do Passado
O caminho até as colinas antigas não era usado havia muito tempo.
Rute o conhecia por histórias sussurradas no vilarejo — histórias que falavam de ruínas esquecidas, de pedras que cantavam quando o vento certo passava. Naquela tarde, ela caminhava com passos atentos, como se o chão guardasse memórias frágeis demais para serem pisadas com pressa.
Aethon voava acima, discreto, acompanhando cada curva do terreno.
— É aqui — disse Rute, apontando para um arco de pedra semioculto pela vegetação.
O lugar parecia respirar.
Colunas quebradas emergiam do solo, cobertas por musgo prateado. Símbolos antigos estavam gravados nas rochas, tão gastos pelo tempo que mais pareciam sombras do que inscrições. O ar ali era diferente — mais fresco, mais denso, carregado de uma quietude respeitosa.
Aethon pousou lentamente.
— Este é um santuário — murmurou. — Muito antigo.
Rute sentiu um arrepio.
— Quem o construiu?
Aethon aproximou o focinho das inscrições.
— Dragões… e humanos.
Ela arregalou os olhos.
— Juntos?
— Sim.
O silêncio que se seguiu era pesado de significado.
Aethon fechou os olhos por um instante. Algo se agitava dentro dele — uma lembrança que não era exatamente sua, mas que pulsava no sangue.
— Meu pai falava desses lugares como mitos — disse. — Espaços onde a confiança existia antes da separação.
Rute passou os dedos por uma das pedras.
— Então não era só lenda.
— Não.
Eles avançaram para o centro do santuário. Ali, um círculo de cristal emergia do chão, opaco e rachado, mas ainda imponente. No centro, uma marca em espiral unia símbolos humanos e dragônicos.
Quando Rute se aproximou, a superfície brilhou suavemente.
Aethon recuou, alarmado.
— Rute, espere—
Mas era tarde.
A luz se intensificou, e imagens começaram a se formar no ar.
Dragões pousando entre humanos. Crianças humanas tocando escamas sem medo. Dragões protegendo vilarejos do frio e da fome.
Rute levou a mão à boca.
— Eles eram… amigos.
— Eram aliados — corrigiu Aethon, com a voz embargada.
As imagens mudaram.
Fogo descontrolado. Gritos. Uma construção humana em chamas. Dragões sendo atacados por lanças.
— Foi aqui que tudo se quebrou — sussurrou Aethon.
A espiral escureceu.
— Não foi ódio — disse Rute, com cuidado. — Foi medo.
Aethon a encarou.
— Medo cria monstros — respondeu.
O brilho cessou tão repentinamente quanto surgira. O santuário voltou ao silêncio antigo.
— Se isso for verdade… — começou Rute.
— Então tudo o que sabemos está incompleto — concluiu Aethon.
Um som distante ecoou — asas cortando o ar.
Aethon se retesou.
— Não estamos sozinhos.
Rute sentiu o coração acelerar.
— Quem?
Aethon ergueu o olhar para o céu.
— Dragões não visitam este lugar há séculos.
A sombra passou sobre as ruínas.
E o passado, adormecido por gerações, acabava de despertar.