O céu sobre o Reino de Cristal escurecia mais cedo naquele dia.
Nuvens densas se acumulavam ao redor das montanhas, como se o próprio mundo pressentisse a inquietação que crescia entre os dragões. Draco pousou com força sobre uma das plataformas rochosas do conselho, fazendo o cristal do chão vibrar sob suas patas.
— Ele esteve lá outra vez — disse, sem rodeios.
Alguns dragões ergueram a cabeça. Outros permaneceram imóveis, mas atentos. O Conselho dos Anciãos raramente era convocado sem motivo grave.
— Tem certeza? — perguntou um deles, de escamas acinzentadas.
— Absoluta — respondeu Draco. — Aethon continua descendo aos vales humanos. Continua se aproximando deles.
Um murmúrio percorreu o círculo.
— Isso viola os decretos de Xanadu — disse outra voz. — A separação foi criada para nossa p******o.
Draco abriu as asas, exibindo as cicatrizes antigas.
— Eu lutei na última escaramuça — afirmou. — Vi dragões sangrarem por confiar demais. Não permitirei que isso se repita.
Enquanto isso, longe dali, Aethon observava o santuário à distância.
O brilho que havia despertado com Rute já se dissipara, mas ele ainda sentia a energia pulsando sob a terra. A verdade que haviam visto não o deixava em paz.
— Eles precisam saber — murmurou.
— Saber o quê?
Aethon se virou. Draco estava ali.
— Você nos colocou em risco — disse o irmão, aproximando-se. — Não apenas a si mesmo. A todos nós.
— Eu descobri a verdade — respondeu Aethon. — Humanos e dragões já viveram em harmonia. O santuário provou isso.
Draco soltou um riso seco.
— Provas antigas não apagam lanças nem fogo descontrolado.
— Apagam mentiras — rebateu Aethon.
O ar entre eles se tornou pesado.
— Você está sendo manipulado — disse Draco. — Por uma criança humana.
Os olhos de Aethon se incendiaram.
— Não ouse.
Draco recuou um passo, surpreso com a intensidade.
— Veja o que você se tornou — continuou. — Questiona nosso pai. Ignora nossas leis. Tudo por um sonho impossível.
— Todo futuro começa como um sonho — respondeu Aethon.
Draco fechou as asas com força.
— Se continuar, será visto como traidor.
O peso daquela palavra caiu como pedra.
— E você? — perguntou Aethon. — Prefere uma guerra baseada em medo a uma paz baseada em verdade?
Draco não respondeu de imediato.
— Eu prefiro dragões vivos — disse por fim.
Um rugido distante ecoou pelas montanhas.
Xanadu aproximava-se.
Os dois irmãos se calaram.
O grande dragão pousou entre eles, sua presença impondo silêncio absoluto.
— O reino sente a divisão — disse Xanadu. — E divisões atraem destruição.
Seus olhos pousaram em Aethon.
— Suas ações ecoam além de suas intenções.
Depois, voltou-se para Draco.
— E seu medo ecoa como ódio.
Ambos permaneceram imóveis.
— Aethon — continuou Xanadu — você será observado.
— Draco — disse em seguida — contenha seus impulsos.
O pai partiu como chegara, deixando o ar carregado.
Draco olhou para o irmão.
— Isto ainda não acabou.
— Não — concordou Aethon. — Está apenas começando.
E, naquele instante, o Reino de Cristal compreendeu que a paz frágil estava prestes a ruir.