Capítulo 8

595 Words
O silêncio após a reunião não trouxe paz. Ele trouxe ecos. O vale, que horas antes reunira humanos e dragões em uma tentativa frágil de diálogo, agora estava vazio. Apenas marcas no chão e cristais quebrados denunciavam o que havia acontecido. A notícia espalhou-se rápido — rápido demais para ser contida. Nos vilarejos humanos, portas se fecharam. Nas montanhas, dragões se reuniram em grupos inquietos. O medo, antigo e paciente, acordara. Rute caminhava apressada pelas ruas do vilarejo. Pessoas murmuravam ao vê-la passar. Alguns desviavam o olhar. Outros cochichavam palavras que ela fingia não ouvir. — Foi aquela menina — disse uma voz. — Ela trouxe os dragões para perto demais — disse outra. Rute apertou o tecido do vestido com força. Ao mesmo tempo, nas alturas, Aethon pousava em um platô cercado por dragões jovens. As asas agitadas e os rugidos contidos mostravam que a inquietação era geral. — Humanos nunca mudarão — rosnou um deles. — Viram o que aconteceu! — Um dragão ferido apareceu — respondeu Aethon. — Isso não é prova de traição. — É prova de fraqueza — rebateu outro. — A reunião os encorajou. Aethon sentiu o peso da responsabilidade. — O medo não pode decidir por nós — disse, elevando a voz. Mas suas palavras não alcançaram todos. Naquela mesma noite, um alarme soou no vilarejo. Fogo. Não das montanhas. Do celeiro. Chamas subiram rapidamente, iluminando rostos aterrorizados. Gritos ecoaram. Baldes de água passaram de mão em mão. — Dragões! — alguém gritou. Rute correu até o local, o coração disparado. — Não foram eles! — gritou. — Eu sei que não foram! Mas o medo não escuta. Uma sombra cruzou o céu. Pânico. Aethon mergulhou do alto, pousando perto do incêndio. O impacto fez o chão tremer, mas ele manteve as asas recolhidas. — Afastem-se! — ordenou. Alguns correram. Outros congelaram. Aethon expirou uma rajada controlada, abafando as chamas com precisão. O fogo cedeu. Silêncio. — Ele salvou o celeiro… — murmurou alguém. Nesse instante, uma pedra foi lançada. Ela acertou uma das escamas de Aethon. Não feriu. Mas doeu. — Vão embora! — gritou um homem. Aethon sentiu o impulso antigo — o fogo querendo responder. Ele respirou fundo. Rute colocou-se à frente dele. — Chega! — gritou, a voz falhando. — Ele salvou vocês! Os olhos se voltaram para a menina. — Você não entende — disse o homem. — Dragões trazem destruição. — O medo trouxe — respondeu ela. Do alto, outros dragões apareceram, atraídos pela luz do incêndio. — Aethon! — rugiu Draco, pousando com força. — Afaste-se agora! O clima tornou-se explosivo. — Eles nos atacam! — rosnaram dragões. — Eles vão queimar tudo! — gritaram humanos. Aethon ergueu a cabeça. — PAREM! — bradou. Sua voz ecoou pelo vale. — Hoje, ninguém atacará ninguém — disse. — Se houver fogo, será apenas o que ilumina, não o que destrói. Draco o encarou, incrédulo. — Você se coloca entre nós e eles outra vez. — Porque alguém precisa — respondeu Aethon. O silêncio voltou, tenso. Lentamente, os dragões recuaram. Os humanos baixaram armas. Mas algo havia se quebrado. E algo novo havia nascido. O medo fora enfrentado. Não vencido. Ainda. Quando a noite caiu, Rute sentou-se perto de Aethon, à margem do vilarejo. — Eles ainda têm medo — disse ela. — Eu também — admitiu ele. Ela apoiou a mão em uma escama dourada. — Mas agora sabem que existe escolha. Aethon olhou para o céu estrelado. O caminho para a paz seria longo. E perigoso. Mas não havia mais volta.
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