Proposta

1333 Words
Amanda A porta do bar se fechou, e com ela, qualquer rastro de segurança que a presença do Thiago me trazia. Agora éramos apenas eu, Hugo e o som baixo de uma musica vindo de algum lugar do bar. O silêncio na mesa era denso, me deixava nervosa. Hugo girava o uísque no copo, os olhos fixos no redemoinho dourado, como se estivesse decidindo como e quando me dissecar. — Então... — comecei, minha voz soando um pouco mais instável do que eu gostaria. Eu odiava me sentir vulnerável, principalmente perto de um homem que não conheço muito — é bem louco está aqui, até ontem eu só te conhecia como o cliente novo do escritório... — Prefiro estar te vendo aqui, de qualquer forma. Talvez tenha um outro lugar que eu vá gostar muito mais. Hugo ergueu o olhar. Não havia pressa nele. Havia uma calma predatória que fazia meus pelos da nuca se arrepiarem. — Parece que o álcool te deixa mais confiante — digo com um sorrisinho provocador nos lábios. — Eu não preciso do álcool para ter coragem, Amanda. E você sabe disso — ele disse, a voz vibrando de um jeito que eu sentia lá no baixo ventre — Eu estava apenas observando como você tenta usar o seu sarcasmo como um escudo. É bonitinho. Mas comigo, não funciona. — O que funciona com você, Hugo? — perguntei, inclinando para a frente, desafiando a distância entre nós, talvez o álcool me deixasse corajosa — mulheres dizendo sim, senhor? O controle funciona para você? Funciona para você ser o dono? Ele deu um sorriso lento, quase imperceptível. — Não se trata de ser dono, se trata de ser o guia. Se assistir a live do Viking, e depois a minha, vai perceber muitas diferenças. Arthur vende o romance, a fantasia do Viking que resgata a donzela. Já eu mostro que a donzela, na verdade, quer ser colocada de joelhos. — Ele pousou o copo na mesa com um estalo seco. — As transmissões dele são para quem quer sonhar. As minhas são para quem quer sentir a realidade do controle — ele para de falar por alguns segundos, desviando o olhar para os fundos do bar — eu estou precisando recrutar uma nova submissa, Amanda. Alguém que não tenha medo de descobrir o que acontece quando o "não" deixa de ser uma opção e o prazer se torna uma obrigação. Senti minha boca secar. Eu deveria estar horrorizada, mas havia uma curiosidade doentia e excitante crescendo em mim. — Recrutar... está comendo pelas beiradas? Ou só nao está sabendo como fazer o convite?— cruzei os braços, tentando manter a postura — Uma estagiária de vinte e um anos te parece uma boa candidata? — Eu não quero a sua competência técnica, Amanda. Eu quero a sua intensidade. — Ele estendeu a mão sobre a mesa, mas não me tocou. Seus dedos pararam a milímetros da minha mão. — Eu vi como você se inclina quando eu falo. Eu vi como você respira mais fundo quando eu abaixo o tom de voz. Você é reativa a mim. Você é... moldável. — Uau... você diz isso com uma certeza... E se eu te disser que eu gosto de estar no controle? — provoquei, sentindo meu coração martelar — E se eu for a pessoa que dá as ordens? Se eu for quem gosta de moldar as pessoas? Hugo soltou uma risada curta e sombria que me fez estremecer. — Todos dizem isso até sentirem o peso de uma mão no pescoço ou o som de uma ordem que não pode ser desobedecida. Você gosta da ilusão do controle porque nunca teve um homem que fosse forte o suficiente para tirae isso de você — Ele se inclinou, o cheiro de madeira e fumo dele inundando meus sentidos — No meu mundo, a dor e o prazer são a mesma moeda. Eu procuro uma submissa que queira participar das minhas lives, sim. Mas antes disso, eu procuro alguém que queira ser minha. Sem câmeras. Sem chat. Apenas a minha vontade contra a sua necessidade de ser dominada. — Isso é loucura — sussurrei, mas não me afastei. Pelo contrário, meu corpo parecia imantado ao dele — Você está me convidando para ser sua... o quê? Sua boneca de exposição? — Estou te convidando para ser minha. Vai dizer que não está curiosa para saber como é pertencer a mim? Eu vejo o ponto de interrogação nesse seu rostinho. — O modo como ele disse aquilo, com uma autoridade tão calma, fez meu corpo todo vibrar — Encare isso como um convite... — E se eu disser não? — Minha voz falhou. — Você não vai dizer não. Porque você passou a noite inteira imaginando como seria se eu te tirasse dessa cadeira agora mesmo e te levasse para outro lugar — Ele se levantou, a silhueta imensa bloqueando a pouca luz que restava — Eu não vou te dar a chance de pensar sobre isso, Amanda. Eu não vou esperar você pensar. Eu estou indo para casa agora. E eu quero que você venha comigo. Porque eu sei que você quer vir comigo. Eu olhei para ele, para o homem que exalava uma segurança que me desestabilizava. A ideia de ir para a casa de um estranho — um Master de BD.SM — deveria acionar todos os meus alarmes de perigo. Mas o que eu sentia era uma fome de algo que o cotidiano não me dava. Que os homens comuns não são capazes de dar. — Agora? — perguntei, sentindo minhas pernas bambas enquanto eu também me levantava, quase em transe. — Agora. — Ele estendeu a mão. Não era um convite gentil. Era uma convocação, e isso me deixava em choque — Vamos sair daqui. Eu vou te mostrar o meu mundo. E se você atravessar a minha porta, estagiária, não haverá mais volta. Você vai descobrir que ser submissa é a coisa mais libertadora que você já sentiu em toda a sua vida. Eu olhei para a mão dele. Olhei para os olhos escuros que prometiam coisas que eu só ousava ler em livros de Dark romance. Sem dizer uma palavra, coloquei minha mão na dele. Seus dedos se fecharam com força, uma posse imediata que me fez perder o fôlego por um momento. Saímos do bar juntos, o contraste do ar frio da noite contra o calor que subia pela minha pele me deixando tonta. Hugo não soltou minha mão em nenhum momento. Ele caminhou com passos firmes em direção ao carro dele depois de pagar a conta e deixar uma gorjeta gorda, e eu o segui, sentindo que estava deixando a "Amanda estagiária" para trás. Entramos no carro. O cheiro de couro do banco parecia uma antecipação do que estava por vir, meu estômago revirava um pouco pelo nervosismo. Ele deu a partida e me olhou por um segundo, um olhar que dizia que, a partir daquele momento, eu estava sob a jurisdição dele. E talvez eu descubra que, era exatamente isso que eu queria... — Boa menina... Gosto quando fazem as escolhas certas, Amanda. Não concorda? — ele perguntou, a voz baixa enquanto manobrava para fora da Augusta. — Vou me certificar de que siga as regras corretamente a partir de agora. Eu apertei o cinto, sentindo um frio na barriga que era puro tes.ão misturado com um medo delicioso. Eu poderia estar caminhando facilmente para um covil... — Eu nunca tive tanta certeza de algo tão errado na minha vida, Hugo. Ele sorriu. Um sorriso de quem tinha acabado de conquistar um novo território. Enquanto o carro deslizava pelas ruas desertas de São Paulo, eu olhava pela janela pensando se eu seria capaz de suportar o que o Master tinha reservado para mim. Ou se eu, finalmente, encontraria o meu lugar no mundo, aos pés de um homem que sabia exatamente como me comandar.
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