Danos, Ressacas e Tudo o Que Há de Bom

1144 Words
Thiago - PettitGattô A luz do sol era minha inimiga pessoal nessa manhã. Ela atravessava a cortina do quarto com a precisão de um laser na mão de um adolescente pestinha, atingindo exatamente o centro da minha retina. Eu me sentia como se um exército de pequenos auditores fiscais estivesse marchando dentro do meu cérebro, carimbando cada neurônio com a palavra REPROVADO. — Nunca mais... — resmunguei, minha voz soando como se eu tivesse engolido areia e cacos de vidro ao mesmo tempo. — Eu nunca mais bebo nada que não seja água mineral sem gás! A bebida conseguiu me humilhar de um jeito épico! Sentei-me na cama com a lentidão de um homem de oitenta anos. As memórias da noite anterior vinham em flashes, como slides de um pesadelo vergonhoso. O bar chique. O gim-tônica. O riso do Arthur. O braço do Arthur na minha cintura. O banheiro. Enterrei o rosto nas mãos, sentindo a pele arder de vergonha. Eu tinha vomitado na frente do meu cliente favorito. O homem que eu idolatro em segredo me viu em meu estado mais deplorável, me deu banho e me deu miojo na boca. Eu queria morrer. Não, eu queria ser auditado e liquidado. Como eu olharia para ele na segunda-feira sem lembrar que ele tirou a minha camisa botão por botão? Pulei da cama e fui direto para o banheiro, precisava de um banho, e ao olhar para o relógio na parede, tive a certeza de que estava na hora de agitar o dia, e lidar com o que precisasse lidar por hoje. Tentaria ao menos não surta.r. — Adolescente rebelde... — repeti a frase dele, sentindo um calafrio que não era de frio exatamente. Era mais um fogo que serpenteava o meu pescoço, causando um desconforto na nuca — Trinta e nove anos. Ele é um homem feito. E eu sou um desastre de vinte e dois que não aguenta três doses de Negroni, sem fazer uma vergonha generalizada. Tirei minhas roupas, abri o chuveiro e sem pensar duas vezes, entrei no box, sentindo a água quente deslizar em meu corpo. Me pegava pensativo em relação a noite passada. O que me tirava do sério, eu não queria lembrar, queria apagar isso da minha memória. Mas meu corpo queria lembrar de cada mínimo e miserável detalhe. Pois mau pa.u estava duro, e sem perceber, já estava na minha mão. Depois do banho e de uma bela punh.eta, vesti a mesma roupa. O som da campainha ecoou pelo apartamento, perfurando meu crânio, mais uma novidade para um lindo sábado ensolarado? Eu não esperava ninguém. Me arrastei até a porta, usando a calça de moletom velha e a camiseta amassada que cheirava a... Arthur. Droga, ele tinha deixado seu cheiro em vários cantos da casa, e em mim. Não que fosse desagradável, mas se eu ligasse muito para esse fato, logo estaria com o pa.u na mão. Outra vez. Abri a porta e dei de cara com uma Amanda, toda radiante. Ela usava óculos escuros imensos, parecendo um besouro, um sorriso de orelha a orelha e carregava uma sacola de farmácia em uma mão e uma sacola do McDonald's na outra. — Bom dia, raio de sol! Ou devo dizer... raio de ressaca? — Ela entrou sem pedir licença, chutando a porta para fechar — Eu trouxe o kit de sobrevivência, Engov, Coca-Cola gelada e o maior hambúrguer que tinha, deve estar cheio de fome. — Você é um anjo, Amanda. Um anjo barulhento e irritante, mas um anjo — desabei no sofá. — Eu sei. Agora toma isso — ela me entregou os remédios e sentou na poltrona à minha frente, tirando os óculos escuros. Seus olhos brilhavam de um jeito que eu conhecia muito bem. Era o brilho de quem tinha informações confidenciais de alto risco. E eu já me perguntava se isso envolvia um tal streammer chamado Hugo. — Como você está? — ela perguntou, mas antes que eu pudesse responder, ela mesma continuou — o Arthur me mandou mensagem avisando que você tinha apagado. Ele pareceu bem preocupado para quem é apenas um cliente comum. — Ele foi... gentil demais — suspirei, sentindo o rosto esquentar — ele me deu banho, Amanda, acredita? Ele viu tudo. Eu sou um profissional morto. Minha carreira acabou no momento em que ele segurou meu cabelo enquanto eu passava m*l e vomitava... Que vergonha... Que vergonha, meu Deus! — Ai, Thiago, deixa de ser dramático! Ele adorou cuidar de você, isso está muito na cara. Ele gosta desse papel de homem maduro e protetor. Mas olha, eu não vim aqui só para ver se você ainda estava vivo da Silva — ela se inclinou para frente, a voz baixando para um tom conspiratório. A postura dela mudou. Não era mais a estagiária brincalhona que eu estava acostumado, na verdade, parecia uma criança que acabou de descobrir um brinquedo novo — O Hugo... — ela começou, e o nome do Master pareceu vibrar no ar — Thiago, você não tem noção do que aconteceu depois que vocês saíram. Eu achei que ele seria igual ao Arthur, todo charmoso e meio fofo. Mas o Hugo é... diferente. Ca.ra.lho! E eu achando que não existiam homens nesse mundo para mim... Eu esqueci minha dor de cabeça por um segundo, a força da fofoca era grande, e caminhava lado a lado comigo. O que era uma dor de cabeça e uma ressaca, em comparação a uma fofoca daquelas?! — Ele te levou para casa também? — perguntei, curioso. — Me levar para casa? Thiago, ele me levou para o paraíso. Eu nunca me senti tão... como explico? Eu nunca me senti tão... tão desejada... Descobri que amo seguir ordens...Hugo é literalmente o homem que eu precisava! Bem... Acho que me dei muito bem dessa vez. Amanda suspirou, recostando no sofá, olhando para o teto como se estivesse revivendo cada segundo. O sorriso dela não era mais travesso era diferente. — Uau... Então... o rei do B.DS.M encantou a minha estagiária? — Porr.a! Porr.a! Logo eu que sou tão independente, me vejo querendo ser comandada, essa manhã, eu nem sabia ao certo o que fazer... Acho que preciso dele me dando ordens, me dizendo os caminhos que devo seguir... Porr.a! Porr.a! Eu juro... — eu tentava manter minha boca fechada, principalmente por estar vendo nascer uma outra versão de Amanda, o que era interessante de certa forma — Eu preciso te contar tudo, Thiago. Do início ao fim. Porque eu acho que, a partir de ontem à noite, a Pet nasceu de verdade — ela pegou um gole da minha Coca-Cola, respirou fundo e fixou os olhos nos meus, pronta para entregar o relatório mais picante e perigoso da sua vida — E tudo começou quando...
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