Thiago - PetittGattô
O Blind Tiger era, tecnicamente, um erro contábil na minha humilde opinião. Ninguém que ganhasse o salário de um contador — por mais prestigiado que o escritório fosse — deveria se sentir à vontade em um lugar onde o cardápio de drinques não exibia preços, apenas descrições poéticas de destilados envelhecidos em barris de carvalho que provavelmente custavam mais do que o meu primeiro carro. E o maior erro, era uma estagiária querer estar nesse lugar... O que me abria espaço para perguntas, essas que eu faria uma outra hora.
— Amanda, se eu tiver que declarar esse gasto como "reunião de negócios" para o fisco, a Receita Federal vai rir da minha cara — murmurei, ajeitando meus óculos que insistiam em escorregar pelo nariz devido à umidade do lugar.
— Relaxa, Thiago. O mundo não vai acabar se você gastar cinquenta reais em uma bebida — Amanda rebateu, já se acomodando no booth de couro macio. — Olha esse lugar. É escuro, é discreto e ninguém aqui parece se importar se você está falando m*l de alguém, chorando, ou ficando louco... Então, só relaxa! Foi para isso que viemos aqui.
Eu respirei fundo. O cheiro de tabaco doce e madeira polida era, admito, relaxante. Mas o relaxamento durou exatos dez minutos, o tempo necessário para o garçom trazer meu primeiro gim-tônica e para a porta de entrada revelar as duas figuras que eu menos desejava encontrar fora de um ambiente controlado.
Arthur e Hugo.
Eles não pareciam estar em um dia de azar como eu. Arthur vestia uma camisa social cinza-chumbo, levemente aberta no colarinho, e exalava uma autoconfiança que parecia iluminar o canto sombrio do bar. Hugo estava ao lado dele, com um semblante mais sério, mas que suavizou ao varrer o ambiente e encontrar nossa mesa. Infelizmente...
— Ora, se não é o meu querido contador — Arthur disse, aproximando-se com uma naturalidade irritante. Ele não pediu licença, ele simplesmente ocupou o espaço, como se o bar inteiro fosse uma extensão da sua sala de estar. — Thiago, Amanda. O mundo é realmente um lugar pequeno para quem precisa de um bom uísque.
— Sr. Valente — eu disse, pigarreando para esconder o sobressalto. — Não esperava encontrar vocês dois por aqui.
— Por favor, Thiago. No escritório somos cliente e contador. Aqui... — ele gesticulou para o copo na minha mão — ...somos apenas duas pessoas tentando sobreviver a uma sexta feira. Podemos?
Ele indicou o banco à minha frente. Amanda, com um brilho de empolgação nos olhos que me fez querer chutá-la por baixo da mesa, prontamente se arrastou para o lado, abrindo espaço para Hugo.
— Fiquem à vontade — ela disse, com uma hospitalidade que eu certamente não autorizei. Conversaríamos sobre isso depois.
— E então, como vão as coisas? — Arthur, vulgo Viking direcionou o olhar para mim.
— Tudo correndo bem, a a******a da empresa está em trâmite e-
— Não, não quero falar sobre negócios... estou perguntando sobre você, Thiago.
Amanda me chutou por baixo da mesa, e eu senti meu estômago afundar.
— Ah, bem... eu... eu vou bem, e você? — eu tinha a total liberdade para levantar e sair correndo.
— Estou melhor agora... fiz minha transmissão mais cedo, tive uma ideia meio louca e precisava... fazer mais cedo, com menos espectadores caso desse errado.
Hugo deu uma risada e Arthur acompanhou, o que me deixou meio curioso.
— Mas deu tudo certo?
— Você não tem ideia, Thiago — Hugo disse, tentando controlar ou cessar a risada — Arthur insistiu que precisávamos de uma névoa real. Quase acionamos o sistema de incêndio do prédio.
— O que conta é a experiência do usuário, Hugo — Arthur se defendeu, rindo, um som rico e vibrante que parecia ressoar diretamente no meu esterno. — Eu sou um perfeccionista. Imagino que o Thiago entenda isso. Números precisam de precisão, não é?
— Oh, sim, tem razão, Sr. Arthur — respondi, sentindo o gim começar a deixar minhas extremidades levemente dormentes — Mas confesso que a logística da sua... profissão... parece exigir um nível de criatividade que eu raramente encontro em meu ambiente de trabalho.
Eu poderia ter parado de falar...
Arthur inclinou um pouco mais, apoiando os cotovelos na mesa. Ele me observava com uma curiosidade genuína, mas era uma curiosidade estratégica, acredito eu... Penso nisso justamente pela transmissão da noite passada.
— Na verdade, Thiago, eu uso muito da realidade para criar meus personagens — ele comentou, girando o gelo em seu copo. — Às vezes, as pessoas mais interessantes são aquelas que parecem mais comuns. Você, por exemplo. Um homem de regras, de terno e gravata, que mantém tudo sob controle. O que passa pela cabeça de um contador quando ele termina o expediente?
Senti um frio na barriga. Aquilo não era uma paquera direta, era uma coleta de dados. Ele estava me "estudando", mas não como Thiago, o contador, e sim como Thiago, o protótipo de "nerd" que ele tanto se divertiu na live, a ponto de gozar com um gemido alto e rouco.
— Passa a vontade de chegar em casa e não ver nenhum papel impresso — respondi, tentando manter o tom casual, apesar do meu coração estar batendo em um ritmo de samba por saber o que se passava naquela mente depravada — Mas admito que o contraste da sua vida me fascina, do ponto de vista técnico. Como você consegue separar o Arthur, que senta para beber com amigos, do... personagem?
— É uma linha tênue — ele respondeu, e o olhar verde dele ficou um pouco mais profundo — Às vezes, o personagem é apenas uma versão de mim que não precisa pedir desculpas por existir. Mas e você? Não tem uma versão que seria totalmente diferente do contador que eu conheço, Thiago?
— O Thiago não tem tempo para versões, Sr. Arthur — Amanda interrompeu, rindo. — Ele é a pessoa mais constante que eu conheço. Se ele atrasa o relógio em dois minutos, ele entra em crise existencial.
Eu agradeceria a Amanda por me salvar, mais tarde. Ela sabia que nesse momento eu estava em colapso total. Não saber de certas coisas, as vezes é uma benção! Já eu aqui, sabia de tudo e mais um pouco...
— Constância é uma virtude rara — Hugo comentou, e notei que sua atenção estava voltada para Amanda.
Eles começaram a discutir sobre como a "ordem" dela ajudava a conter o "caos" do escritório, e logo os dois estavam em uma conversa paralela, deixando Arthur e eu em uma espécie de bolha privada no meio do ruído do bar. Arthur não desviou o olhar. Ele parecia estar catalogando minhas reações, o modo como eu limpava a condensação do copo com o polegar, o jeito que eu ajeitava os óculos quando ficava nervoso, ou como eu evitava contato visual direto por mais de três segundos. Ficava me perguntando se ele estava imaginando como seria me comer em algumas posições... ou se realmente sou apertadinho. E me perguntar essas coisas, me fez ter uma ereção dolorida.
— Sabe, Thiago — ele disse, com a voz um pouco mais baixa, mas ainda amigável —, eu estou planejando um novo arco de conteúdo. Algo sobre... contrastes. O profissional versus o instintivo. Você se importaria se eu te fizesse algumas perguntas? Prometo que é puramente para fins de "pesquisa criativa".
— Perguntas sobre contabilidade? — brinquei, tentando dissipar a tensão.
— Não. Definitivamente, não... — ele sorriu — Sendo mais específico, o que faria um homem como você, tão meticuloso, perder a paciência? Ou melhor... o que o faria perder o fôlego?
Eu engoli em seco. O gim já estava me dando uma coragem que eu não deveria ter. E eu rezava para Deus, que essa noite acabasse logo.
— Acho que o que me faria perder o fôlego seria descobrir que um dos meus maiores clientes esqueceu de declarar uma conta no exterior — respondi, arrancando uma risada genuína dele.
— Você é impossível — Arthur disse, balançando a cabeça. — Mas é isso que o torna interessante. Essa resistência. É como uma fortaleza que desafia as pessoas a encontrarem a porta de entrada. A forma como tudo sobre você é sobre o seu trabalho...
— Talvez eu viva para o trabalho, Sr. Arthur.
— Ou talvez... você não se sinta a vontade em baixar a guarda... Deixar que te lêem... sabe, eu tenho um "cliente" que é fácil de ler.
— Cliente?! — Franzi o cenho, já imaginando se ele trocava sexo por dinheiro, isso de forma presencial.
— É... um espectador... um desses... bem irritante, entende?
— Ah, sei como é. Clientes irritantes tem para todos os lados.
Dei um sorrisinho simpático. Me perguntava mesmo o que viria desse assunto.
— Esse é demais! Eu já pensei algumas vezes em bloquear o acesso dele as minhas lives. Ele é um cara muito fácil de se ler, mesmo não o vendo. Ele é fácil... diferente de você, que não me dá espaço para saber no que pensa... E sei que, não é integralmente em trabalho.
Soprei um riso.
— Porque não o bloqueia então?
— Dois motivos, o primeiro é que, ele é muito presente e está sempre fazendo doações, e isso me gera renda... O segundo motivo é que, graças a ele, tem uma disputa de quem doa mais, e quem tem mais atenção.
Eu estava começando a imaginar que essa conversa não estava caminhando para um lugar muito bom. Mas lá no fundo, eu sabia de quem ele falava, e mesmo sabendo que ele não gostava desse espectador, queria que ele abrisse o bico e contasse tudo o que pensa.
— Sou todo ouvidos — estimulei a continuar, e o sorriso que ele abriu foi... lindo.
— LordHades é um espectador valioso, ainda mais quando o PetittGattô começa a doar — meu codinome saindo dos lábios dele me fez tremer — PetittGattô é... irritante, e eu sei exatamente o que ele é!
— E o que ele é?
— Muito provavelmente, um fodi.do m*l amado, virg.em... Um desses que não come, ou não dá pra ninguém, e o único momento de felicidade é gozar enquanto dá opiniões idiotas na minha live.
Ele bufa revirando os olhos, e suas palavras conseguem me tocar fundo.
— Está vendo como ele é fácil de ler? Ele é um fod.ido! Viciado em pornografia, do tipo que não tem amizades e não sai com ninguém... p.orra, tudo bem ele ser um virgem e curtir bater punheta enquanto me vê, mas... o fato de estar sempre reclamando de alguma coisa... isso irrita... eu juro que se soubesse quem ele é, daria umas porradas até apagar.
Engoliu nada a seco, Amanda que estava intrertida rindo e conversando com Hugo, olhou para mim. Eu queria sair correndo do bar. Queria ir para casa e chorar no banho em posição fetal.
— Ele... é diferente de você, sabe? Eu olho pra você e não faço ideia de quem seja... precisaria me contar tudo, exatamente tudo sobre você, para eu pelo menos conhecer dez por cento você. Eu faria facilmente um personagem inspirado no PetittGattô, por saber quem ele é por trás dos comentários... Agora você... É diferente. De qualquer forma, não posso bloquear um cara que me faz ter Hype. Graças a ele, alguns seguidores tentam doar mais, tudo por ego, e é assim que eu ganho dinheiro.
Ele da um risinho e vira o copo na boca.
— Bom, você tem razão... mas... olha. Eu não sou tão interessante o quanto acha, eu sou, realmente um cara dado ao trabalho.
— Isso eu duvido, e muito!
Sim...
Eu sou o PetittGattô!
E sou tudo o que ele disse... um viciado em porno.grafia, m*l amado... virg.em... Um i****a que tenta ganhar a atenção do Viking sendo um pirralho inútil.