Thiago - PettitGattô
O despertador não tocou. Ele simplesmente gritou me arrancando de um sono gostoso e profundo. E cada nota do toque padrão do iPhone parecia uma martelada dentro do meu crânio, o que me lembrava que a dor de cabeça voltaria já já.
Abri os olhos e a luz do sol de São Paulo, filtrada pela persiana, parecia uma punição divina, e talvez fosse mesmo! A julgar meus feitos na noite passada... Meu corpo pesava uma tonelada. A "sessão" da noite anterior — se é que eu podia chamar aquele colapso mental de sessão — tinha deixado um rastro de exaustão que nem três doses de café expresso seriam capazes de curar.
É, meus amigos... Eu estou completamente fo di.do!
— Ótimo — resmunguei para o travesseiro.
O azar começou no banheiro. Ao tentar passar o fio dental com a agilidade de um zumbi, acabei batendo o cotovelo no box de vidro. A dor aguda subiu pelo meu braço, me fazendo soltar um palavrão que raramente saía da minha boca. Mas o pior veio na cozinha. Quando uma distração me fez derramar o café. Café, preto e quente, desenhou um mapa de desastre na minha camisa social branca recém-passada.
— Não, não, não! — Gritei, correndo para a pia, mas o estrago estava feito. Eu parecia um mapa-múndi de cafeína. Algum Deus, provavelmente me punia.
Troquei de camisa às pressas, peguei a primeira gravata que vi — uma de seda azul que eu odiava porque o nó nunca ficava reto — e saí correndo. O elevador, claro, estava em manutenção. Desci cinco lances de escada, tropecei no último degrau e quase fui parar de cara no asfalto. Sim, uma gostosa dose de azar matinal! O que viria a seguir? ficar preso no elevador da firma?
Quando finalmente cheguei ao escritório, dez minutos atrasado e com o suor começando a brotar na minha nuca, Amanda já estava na minha mesa, balançando os pés com uma energia que deveria ser ilegal antes das dez da manhã.
— Você está horrível — foi a primeira coisa que ela disse.
— Bom dia para você também, Amanda — respondi, desabando na minha cadeira e jogando a pasta de lado— O universo decidiu que hoje é o dia perfeito pra tirar uma com a minha cara.
— O universo ou um certo Viking de olhos verdes? — Ela inclinou o tronco para a frente, diminuindo o tom de voz. — Eu vi a live, Thiago. Eu vi cada segundo... No início por curiosidade... mas quando ele começou a falar sobre você-
— Shiiiiu. Não fale disso por aqui, as paredes tem ouvidos!
Senti meu rosto esquentar instantaneamente. Olhei para os lados, certificando de que ninguém no setor de auditoria estava prestando atenção.
— Precisamos conversar. Agora. Sala de arquivos — disse já me levantando.
A sala de arquivos era o nosso refúgio para fofocas, ou comer fora de hora, ou fugir do trabalho... O cheiro de papel antigo e o isolamento acústico eram perfeitos para segredos que poderiam destruir carreiras. Amanda encostou na porta e cruzou os braços, um sorriso travesso dançando em seus lábios fartos e levemente rosados.
— Então... Nerds assim são os melhores quando se soltam, hein? — Ela imitou a voz rouca do Arthur, o que me fez querer enfiar a cabeça dentro de uma caixa de notas fiscais de 2012.
— Amanda, para. Eu estou à beira de um colapso — cobri o rosto com as mãos. — Ele fez um roleplay. Ele usou a nossa reunião como material para o show dele. Ele descreveu a minha caneta tremendo, o meu suor... ele até falou sobre tirar os meus óculos!
— E falou sobre f***r você em cima da mesa, eu sei, eu vi e eu escutei. —ela deu um risinho, e isso quase me fez tacar uma caixa arquivo na cabeça dela — ele usou você como muso inspirador! — Amanda deu um pulinho de animação — Thiago está atraído por você no mundo real e está processando isso através da persona do Viking. valorize meus conhecimentos sobre psicologia, meu amigo!
— Não é engraçado — eu disse, embora uma parte traidora de mim concordasse com as maluquices que ela disse — Eu tive que ouvir ele dizer, para milhares de pessoas, como ele adoraria me ver perder a pose no meu próprio escritório. E o pior: eu gozei, Amanda. Eu gozei ouvindo o meu cliente me transformar em um fetiche público, e isso é doentio!
Amanda arregalou os olhos, mas depois soltou uma gargalhada contida.
— Você é um caso perdido. Mas olha pelo lado bom, pelo menos o fetiche dele é o seu "eu" de verdade, e não uma versão inventada. Ele quer o contador fofo. Ele quer o Dr. Thiago...
Amanda se aproximou e apertou a minha bochecha, como se eu fosse um bebê fofo.
— Isso porque ele não conhece o meu "eu" de verdade — rebati, andando de um lado para o outro no espaço apertado — Ele acha que eu sou "contido" e "puro". Se ele descobrir que eu sou o Petitgattô, ele vai se sentir enganado. Ou pior, ele vai rir da minha cara... ou me espancar por ser um i****a.
— Ou ele vai te colocar em cima daquela mesa de reuniões e provar que a teoria dele sobre nerds está certa — ela piscou para mim — Thiago, o cara está rendido.
Respirei fundo, tentando acalmar meu coração que parecia querer sair pela boca. A conversa com Amanda sempre me ajudava a ver as coisas de um ângulo menos catastrófico, mas dessa vez, esse ângulo simplesmente não existia!
— Eu não sei se consigo olhar para ele depois disso — confessei — se ele aparecer com aquele sorriso de canto, eu vou lembrar de cada palavra que ele disse na live. Vou lembrar do som da voz dele dizendo que eu seria "apertado".
Amanda suspirou, agora um pouco mais séria, e colocou a mão no meu ombro.
— Amigo, eu sei exatamente do que você precisa. Você precisa de descompressão.
— Descompressão? Minha descompressão é ver as lives dele, o que só piora o problema!
— Não. Descompressão de verdade. Bebida, música alta e nada de telas — ela propôs — Tem um bar novo fazendo sucesso, o Blind Tiger. É escuro, o gim é forte e a gente pode falar m*l de todos os sócios da firma sem medo. Vamos depois do expediente? Que tal?
Eu pensei na pilha de papéis que me esperavam na minha sala. Olhei para o reflexo do meu próprio rosto cansado no vidro de um armário.
— Tudo bem. Eu vou. Se eu ficar em casa hoje à noite, eu vou acabar fazendo alguma besteira maior do que gastar 20 mil Krowns pra ver o p*u do Thiago...
— Combinado! — Ela sorriu, já abrindo a porta. — Agora volta lá, coloca sua cara de "eu amo leis fiscais" e tenta não surtar enquanto pensa no Viking.
Voltei para a minha mesa, mas a sugestão de Amanda ficou martelando na minha cabeça. Eu precisava de uma folga. Precisava esquecer o Viking, o Arthur e a minha própria obsessão nessa pornografia. Mas, como eu já deveria ter aprendido, a Lei de Murphy nunca dorme. E o dia de azar estava longe de acabar.