Lorel se desequilibra sobre os próprios pés ao ver a marca nas costas de Nerone. Kallil corre em sua direção, amparando-o antes que caísse escada abaixo.
— Tio! — diz Kallil, preocupado o amparando.
— Eu… eu estou bem — responde ele, ainda desorientado, o seu rosto pálido com os olhos fixos em Nerone.
Nerone observa Lorel, surpreso. O homem estava pálido como papel ao encará-lo, como se tivesse visto um fantasma. Ele nunca o tinha visto daquela forma antes.
— Eu só preciso descansar um pouco — diz, sem desviar os olhos de Nerone.
— Eu ajudo o senhor — diz Kallil, apoiando-o e conduzindo-o para dentro.
Tess estava tão surpresa com a reação de Lorel que havia até mesmo esquecido o incidente com Nerone. Ao se virar novamente para ele, um sorriso curvou os seus lábios ao notar o seu peitoral definido, os músculos marcando a pele como se tivessem sido esculpidos à mão. Aquilo não a surpreendia, considerando o trabalho dele, mas mesmo para um soldado experiente, manter um corpo assim exigia esforço.
Os pés de Tess se movem de forma inconsciente, levando-a para mais perto. Quando estende a mão para tocar o seu peito, Nerone agarra o seu pulso, torcendo-o para trás.
— Ficou louco? Isso dói! — reclama, tentando se livrar do aperto.
— Não me importo com quem você seja. Se tentar me tocar novamente, eu quebro o seu braço — diz ele ao seu ouvido, antes de soltá-la.
Tess se desequilibra e cai no chão no exato momento em que Kallil retorna.
— Fique longe dela — diz Kallil, encarando Nerone.
Os olhos de Kallil tinham um brilho perigoso ao fitar Nerone, então ele entende que a mulher a sua frente era o calcanhar de Aquiles de Kallil.
— Não que isso seja da sua conta — começa Nerone, com um olhar frio —, mas eu tenho noiva. Fora ela, não desejo o toque de nenhuma outra mulher.
Os olhos de Kallil se voltam rapidamente para Tess, que se levantava, visivelmente sem graça. Ele suspira ao pensar que ela devia ter aprontado novamente.
— Podia ter avisado, gato. Sei respeitar a propriedade dos outros — diz ela, piscando. — Mas não me importo de dividir, se você quiser.
Nerone ergue uma sobrancelha e encara Kallil, como se aquilo justificasse a sua reação.
— O tio vai te matar por isso! Ele é visita, Tess! Você precisa se controlar — resmunga Kallil, claramente constrangido.
— Você é chato, e não manda em mim, Kallil — responde ela, mostrando a língua antes de entrar.
Kallil encara Nerone sem saber onde enfiar o rosto de tanta vergonha.
— Me desculpe. Vou pedir para o tio falar com ela — diz, cabisbaixo.
— Esqueça. Apenas mantenha-a longe de mim — responde Nerone, soltando um suspiro cansado. — Me mostre onde vou ficar, por favor.
— Me acompanhe.
Nerone segue Kallil até o andar superior da mansão. Ele abre uma porta e mostra o quarto reservado. Era espaçoso, bem arejado — um exagero, na opinião de Nerone, considerando o motivo de sua presença ali.
— Eu vou ficar com os soldados — diz, pegando a bolsa e se virando para sair.
— Fique, por favor. O tio tem muito respeito por sua família, e ele não está bem agora. Se puder ficar aqui, ele ficará mais tranquilo — pede Kallil.
Nerone suspira. Não queria perder tempo com discussões inúteis.
— Tudo bem.
Kallil parte rapidamente do quarto, o seu rosto se fechando ao se lembrar do que Tess tinha feito. Com passos apresados ele entra no escritório encontrando Tess grudada no computador enquanto tinha uma travessa de batatas fritas no colo. Ele entra e retira as batatas do colo dela a fitando com raiva.
— Você tem ideia do problema que arrumou? — diz, sério.
— Você é um saco, Kallil. Deve ser por isso que ainda está solteiro — retruca ela, puxando a travessa de volta.
— Ele é da máfia Donati, Tess. Irmão de Dom Aurélio e aliado da Fênix! — insiste, tentando fazê-la entender.
— Não ligo. Ele é uma pessoa como qualquer outra — responde, dando de ombros.
Kallil pragueja de raiva, ele queria poder torcer o pescoço de Tess por causa daquilo. Ela sabia melhor que ele que com os Donati não se mexia, e muito menos com a Fênix. Teria de ser louco para querer eles em sua porta, e até onde ele sabia Dom Aurélio tinha um afeto profundo pelo irmão.
— Ele não é! E, se você continuar mexendo com ele, vai acabar nos metendo em uma enrascada da qual ninguém vai conseguir nos tirar.
— Me poupa, Kallil. Você é muito chato — diz ela, virando as costas.
— Quero ver se vai achar isso quando estiver em apuros — rebate ele, saindo.
Kallil passa pela cozinha, pega uma xícara de chá e segue para o quarto de Lorel. Estava realmente preocupado — nunca o tinha visto tão abalado.
Ao chegar, bate levemente antes de entrar. Lorel estava deitado, segurando uma foto.
Kallil suspira ao reconhecer a imagem.
— Trouxe um chá, tio — diz, colocando a bandeja ao lado e entregando a xícara.
Lorel guarda a foto na gaveta e aceita a bebida.
— Obrigado, Kallil. Eu estava mesmo precisando — diz, tomando um gole. — O garoto foi acomodado?
— Sim, está neste andar, no quarto perto da escada.
— Isso é bom. Precisamos manter um bom relacionamento com os Donati e a Fênix. E aquele garoto… é a chave para isso.
Lorel não revelou o verdadeiro motivo para querer Nerone por perto.
Ninguém podia saber das suas reais intenções.