Amália resmungava diante do computador, com um enorme bico no rosto. Nerone tinha sumido de novo e não havia dito quando retornaria — aquilo a incomodava mais do que ela admitiria a qualquer pessoa. Ele nunca dizia para onde ia; simplesmente partia sem explicações, o que a deixava inquieta.
— Desfaça esse bico, eles nunca dizem para onde vão — disse Alicia, entrando e lhe entregando um pote de sorvete.
— Não acha que está muito cedo para comer doces? — perguntou Amália, arqueando a sobrancelha.
— Pela sua cara, achei que você precisaria — respondeu, dando de ombros.
Alicia conhecia bem sua aprendiz e sabia que, naquele momento, só havia uma pessoa capaz de deixá-la assim: Nerone.
— Talvez você esteja certa — disse Amália, levando uma colher de sorvete à boca. — Por que eles nunca dizem para onde vão?
Os olhos de Alicia pousaram nela com carinho.
— É uma questão de segurança, querida. Quanto menos você souber sobre o que ele faz, mais segura estará.
Para Amália, aquilo não fazia sentido. Ela já trabalhava na organização, sabia que a Fênix tinha um lado muito mais sombrio do que imaginava. Não era ingênua — então não entendia por que Nerone não dizia para onde tinha ido nem o que faria.
— Eu trabalho aqui. Sei das coisas que acontecem — respondeu.
— Você sabe o que deixamos você saber, Amália. Ainda não arranhou nem a superfície do que a organização faz.
Alicia observou Amália processar aquilo em silêncio.
— Por que eu não posso saber, Alicia? Tenho feito tudo o que me pediram, inclusive as aulas de tiro e defesa pessoal. Acho que estou pronta — disse, animada.
— Então, se o Nerone te chamar para uma missão e pedir para você segurar uma caixa enquanto ele coloca a cabeça de alguém dentro… você faria?
Amália ficou em choque.
A imagem veio à mente de forma involuntária, fazendo o seu estômago se revirar. Instintivamente, afastou o sorvete.
— Está vendo? É por isso que você ainda não sabe de muita coisa. Você ainda está em desenvolvimento, Amália. E Nerone se preocupa com você o suficiente para pedir ao chefe que não te coloque em risco.
As palavras chamaram a sua atenção.
Ela não esperava aquilo.
— Então eu não estou em missão por culpa dele? — disse, com o maxilar tenso.
— Não. Você ainda não está em missão porque acreditamos que precisa começar pelas mais simples antes de participar das mais importantes. Você está adquirindo conhecimento, e isso é essencial.
— Mas eu…
— Alicia está certa, Amália — disse Síria, entrando no laboratório vestida de preto. O couro da roupa se ajustava em seu corpo moldando as suas formas, em sua cintura duas pistolas brilhavam, assim como varias adagas, ela devia ter estava em missão.
Amália notou imediatamente as manchas de sangue nas roupas dela.
— Desculpe o estado — continuou Síria —, mas não queria que os meninos me vissem assim. Está ficando difícil enganá-los.
Apesar disso, ela sorria ao falar da família — e aquilo sempre encantava Amália.
— Você tem um armário aqui. Vou pedir para colocarem mais roupas e organizarem tudo semanalmente, assim poderá tomar um banho antes de ir para casa — disse Alicia.
— Eu agradeço mesmo, Alicia — respondeu Síria, caminhando até a mesa de Amália, pegando o sorvete e se sentando à sua frente.
Amália a observava, sem entender como ela ainda tinha apetite depois do que claramente havia feito.
— Sei o que você está pensando — disse Síria, levando uma colher à boca. — E isso não me incomoda. Não perco noites de sono por quem não merece.
— Mas eu queria saber mais…
— Ainda não é a hora. Até o Klaus ficou assustado com o que eu sou capaz de fazer — disse, arqueando a sobrancelha. — E olha que ele já foi um agente da lei, acostumado com coisas ruins.
— O que quer dizer, Síria? — perguntou Amália.
— Que o seu noivo faz coisas piores do que eu. Ele faz o meu trabalho parecer brincadeira de criança.
Aquilo disse muito.
Amália sempre tinha visto Nerone como alguém que gostava de provocar — não como alguém realmente perigoso.
— Entendo… — disse, baixando o olhar.
— Não se incomode com isso, Amália. Nem os nossos maridos nos dizem para onde vão ou o que fazem. Sabemos que, no nosso mundo, isso envolve segurança. Quanto menos pessoas souberem, melhor para eles.
— Eu sou uma exceção, porque muitas vezes estou em missão com eles. Caso contrário, também não saberia — completou Síria, colocando o pote vazio sobre a mesa.
— Essa é uma pergunta que não fazemos, Amália. E você vai se acostumar com o tempo — disse Alicia, com um olhar gentil.
— Mas eu ainda quero participar de algumas missões — insistiu Amália.
— E vai… se o Nerone permitir, no futuro — disse Síria, com um sorriso de canto.
Os olhos de Amália se arregalaram.
Então ela lembrou.
Em breve, estaria casada com ele.
E, de certa forma… sua vida estaria nas mãos dele.
— Não! Ele não pode fazer isso comigo! — disse, levantando-se, exaltada.
— Melhor se acostumar. Até nós estamos sujeitas a isso — respondeu Síria.
— Exatamente. O Nico ainda escolhe as missões que eu faço. Sei que é cuidado exagerado, mas ele me ama e quer me manter segura. Então não luto contra isso — disse Alicia.
— No meu caso, é o Klaus que fica com as crianças. Mas ele sempre sabe onde estou, porque isso o tranquiliza — acrescentou Síria.
Alicia voltou a encarar Amália com suavidade.
— Entenda… isso não é sobre você. É sobre a segurança deles.
Amália assentiu em silêncio. Ela ainda não gostava daquilo.
Mas, pela primeira vez…
Começava a entender por que Nerone nunca dizia para onde ia, e não podia culpá-lo por isso.