Ricardo havia acordado de bom humor naquele dia — e talvez isso se devesse ao plano de comprometer seus filhos com os dos amigos. Na noite anterior, ele recebera um pedido pela mão de Antonela e tivera o prazer de ver o rosto do pretendente se fechar ao descobrir que a sua filha já estava prometida.
Ricardo jamais entregaria o seu maior tesouro a qualquer um.
— Pelo que vejo, está de bom humor — disse Alicia, sentando-se à mesa. Ela havia descido após deixar Zeck na escolinha, antes de seguir para a mansão.
— Ele está com essa cara porque recusou um pedido pela mão da Antonela ontem — comentou Estela, rindo ao lembrar do olhar assassino do marido.
— Espero que tenha dado um soco na cara do i****a, chefe — disse Nico, rindo.
— Eu aprovo essa ideia — acrescentou Charles, entrando.
— Se o chefe for matar todos que pedirem a mão da Antonela, estaremos sempre em guerra — disse Raira, sentando-se.
Ricardo suspirou, arrancando risadas dos demais.
— Infelizmente, a Raira está certa. Apenas deixei claro que não tinha interesse — respondeu ele, fazendo um bico irritado.
Um dos soldados entrou e entregou um envelope a Ricardo. Ele o pegou e o examinou, sem reconhecer o brasão estampado. Com calma, abriu o envelope e retirou um convite luxuoso.
— “É com grande satisfação que a família Roux vem, por meio deste, convidar Vossa Senhoria e sua família para a apresentação oficial do afilhado do senhor Álvaro Roux, o senhor Nerone Donati. Contamos com sua presença.”
Ao terminar a leitura, Ricardo se deixou cair na cadeira, surpreso, sem acreditar no que acabara de ler. Ao que parecia, os outros também não.
— Mas que merda… — murmurou Charles, sem conter o espanto.
— O que esse garoto andou aprontando? — perguntou Nico.
— Quem é o senhor Roux, querido? — indagou Estela, curiosa.
Ricardo soltou um sorriso de canto.
— Quem ele é? Um lunático… que comanda um dos lugares mais perigosos do mundo. Ninguém ousa invadir o território dele, e a maioria das organizações o evita como uma praga.
— Ele é tão r**m assim? — perguntou Raira.
— Muito pior do que dizem, querida. Já trabalhei com alguns dos homens de Roux… e eles não têm nada de humanos — respondeu Charles, sério.
— Mas a pergunta que não quer calar é: o que Nerone andou aprontando para se tornar afilhado de uma das pessoas mais letais que conheço? — completou Ricardo.
O telefone de Ricardo tocou. Ele o colocou no viva-voz sobre a mesa. Não foi surpresa ver o nome de Aurélio na tela.
— Está no viva-voz, pode falar — avisou.
— Eu vou matar aquele garoto! — disparou Aurélio do outro lado da linha.
— Então você também recebeu um convite — disse Ricardo.
— Sim, e não estou conseguindo falar com o Nerone para esclarecer essa história — explicou ele.
— Ele está com o Lorel. Basta ligar para lá — respondeu Ricardo.
A missão com Lorel havia surgido tão de repente que Ricardo nem tivera tempo de avisar Aurélio.
— O que aquele safado quer agora?
— Não sabemos… mas acho que vamos descobrir em breve.
— Tudo bem, vou falar com o Lorel — disse Aurélio, desligando.
À mesa, todos trocaram olhares curiosos, compartilhando a mesma dúvida: o que Nerone tinha feito para se tornar m****o da família de Álvaro Roux?
Nerone terminava de ajustar as novas rotas de Lorel quando o homem se aproximou com o telefone na mão.
— Seu irmão… e ele não parece nada feliz — disse Lorel, com um sorriso de canto.
Nerone pegou o aparelho e atendeu.
— Oi, irmão.
— Que p***a você andou aprontando, Nerone?! — gritou Aurélio, fazendo-o afastar o telefone do ouvido.
— Seja mais claro, irmão. Não estou entendendo — respondeu com a calma habitual.
— Álvaro Roux. Esse nome te diz algo? — perguntou Aurélio, com sarcasmo.
— Ah, está falando do padrinho. O que tem ele? — disse Nerone, no mesmo tom tranquilo.
Do outro lado da linha, Aurélio sentia que poderia ter um ataque a qualquer momento. Roux era perigoso — cada passo ao redor dele exigia cautela — e tudo o que ele menos queria era ver seu único irmão envolvido com alguém assim.
— Padrinho?! Me explica isso direito! — exigiu, irritado.
— Os detalhes você pode perguntar ao Calebe. Vou resumir: aceitei um desafio contra o filho do Roux, venci… e poupei a vida dele. Como forma de gratidão, ele decidiu me tornar afilhado. Só isso.
Aurélio passou a mão no rosto, tenso.
— “Só isso”? Você tem ideia do que poderia ter acontecido com você? Eu jamais suportaria se algo…
— Nada vai acontecer comigo, irmão — interrompeu Nerone, agora mais sério. Ele entendia o medo de Aurélio. Sempre que o via se arriscar demais, o irmão reagia… e, por trás disso, havia fantasmas antigos.
— Não vou te perder de novo, Nerone — disse Aurélio, com a voz mais baixa.
— Não vai. Roux só está tentando me proteger… você vai ver.
Depois do que vivera na Toca, Nerone sabia que Roux era alguém que honrava a própria palavra.
— Espero que sim. Mas vou me prevenir — respondeu Aurélio, firme.
— Faça o que achar melhor. Sei que não vou conseguir te impedir — disse Nerone, soltando um leve suspiro.
— Que bom que sabe — retrucou Aurélio, mais calmo. — Se cuida.
— Você também.
Nerone desligou e devolveu o aparelho a Lorel. Quando ergueu o olhar, percebeu todos ao redor observando-o.
— Algum problema? — perguntou.
— Nenhum — respondeu Lorel rapidamente, guardando o telefone.
Nerone apenas assentiu.
— Já está tudo pronto por aqui. Basta colocar em prática — disse, estendendo um tablet com as atualizações das rotas.
Lorel analisou e assentiu.
— Ficou excelente.
— Se não há mais nada, eu vou indo.
— Na verdade… eu gostaria de te fazer uma pergunta — disse Lorel, um pouco hesitante.
— Diga.
— Qual é o nome da sua mãe?
Os olhos de Nerone escureceram instantaneamente.
Sem pensar, ele avançou sobre Lorel, tomado por uma fúria súbita.