Capítulo 43

1037 Words
Ricardo havia acordado de bom humor naquele dia — e talvez isso se devesse ao plano de comprometer seus filhos com os dos amigos. Na noite anterior, ele recebera um pedido pela mão de Antonela e tivera o prazer de ver o rosto do pretendente se fechar ao descobrir que a sua filha já estava prometida. Ricardo jamais entregaria o seu maior tesouro a qualquer um. — Pelo que vejo, está de bom humor — disse Alicia, sentando-se à mesa. Ela havia descido após deixar Zeck na escolinha, antes de seguir para a mansão. — Ele está com essa cara porque recusou um pedido pela mão da Antonela ontem — comentou Estela, rindo ao lembrar do olhar assassino do marido. — Espero que tenha dado um soco na cara do i****a, chefe — disse Nico, rindo. — Eu aprovo essa ideia — acrescentou Charles, entrando. — Se o chefe for matar todos que pedirem a mão da Antonela, estaremos sempre em guerra — disse Raira, sentando-se. Ricardo suspirou, arrancando risadas dos demais. — Infelizmente, a Raira está certa. Apenas deixei claro que não tinha interesse — respondeu ele, fazendo um bico irritado. Um dos soldados entrou e entregou um envelope a Ricardo. Ele o pegou e o examinou, sem reconhecer o brasão estampado. Com calma, abriu o envelope e retirou um convite luxuoso. — “É com grande satisfação que a família Roux vem, por meio deste, convidar Vossa Senhoria e sua família para a apresentação oficial do afilhado do senhor Álvaro Roux, o senhor Nerone Donati. Contamos com sua presença.” Ao terminar a leitura, Ricardo se deixou cair na cadeira, surpreso, sem acreditar no que acabara de ler. Ao que parecia, os outros também não. — Mas que merda… — murmurou Charles, sem conter o espanto. — O que esse garoto andou aprontando? — perguntou Nico. — Quem é o senhor Roux, querido? — indagou Estela, curiosa. Ricardo soltou um sorriso de canto. — Quem ele é? Um lunático… que comanda um dos lugares mais perigosos do mundo. Ninguém ousa invadir o território dele, e a maioria das organizações o evita como uma praga. — Ele é tão r**m assim? — perguntou Raira. — Muito pior do que dizem, querida. Já trabalhei com alguns dos homens de Roux… e eles não têm nada de humanos — respondeu Charles, sério. — Mas a pergunta que não quer calar é: o que Nerone andou aprontando para se tornar afilhado de uma das pessoas mais letais que conheço? — completou Ricardo. O telefone de Ricardo tocou. Ele o colocou no viva-voz sobre a mesa. Não foi surpresa ver o nome de Aurélio na tela. — Está no viva-voz, pode falar — avisou. — Eu vou matar aquele garoto! — disparou Aurélio do outro lado da linha. — Então você também recebeu um convite — disse Ricardo. — Sim, e não estou conseguindo falar com o Nerone para esclarecer essa história — explicou ele. — Ele está com o Lorel. Basta ligar para lá — respondeu Ricardo. A missão com Lorel havia surgido tão de repente que Ricardo nem tivera tempo de avisar Aurélio. — O que aquele safado quer agora? — Não sabemos… mas acho que vamos descobrir em breve. — Tudo bem, vou falar com o Lorel — disse Aurélio, desligando. À mesa, todos trocaram olhares curiosos, compartilhando a mesma dúvida: o que Nerone tinha feito para se tornar m****o da família de Álvaro Roux? Nerone terminava de ajustar as novas rotas de Lorel quando o homem se aproximou com o telefone na mão. — Seu irmão… e ele não parece nada feliz — disse Lorel, com um sorriso de canto. Nerone pegou o aparelho e atendeu. — Oi, irmão. — Que p***a você andou aprontando, Nerone?! — gritou Aurélio, fazendo-o afastar o telefone do ouvido. — Seja mais claro, irmão. Não estou entendendo — respondeu com a calma habitual. — Álvaro Roux. Esse nome te diz algo? — perguntou Aurélio, com sarcasmo. — Ah, está falando do padrinho. O que tem ele? — disse Nerone, no mesmo tom tranquilo. Do outro lado da linha, Aurélio sentia que poderia ter um ataque a qualquer momento. Roux era perigoso — cada passo ao redor dele exigia cautela — e tudo o que ele menos queria era ver seu único irmão envolvido com alguém assim. — Padrinho?! Me explica isso direito! — exigiu, irritado. — Os detalhes você pode perguntar ao Calebe. Vou resumir: aceitei um desafio contra o filho do Roux, venci… e poupei a vida dele. Como forma de gratidão, ele decidiu me tornar afilhado. Só isso. Aurélio passou a mão no rosto, tenso. — “Só isso”? Você tem ideia do que poderia ter acontecido com você? Eu jamais suportaria se algo… — Nada vai acontecer comigo, irmão — interrompeu Nerone, agora mais sério. Ele entendia o medo de Aurélio. Sempre que o via se arriscar demais, o irmão reagia… e, por trás disso, havia fantasmas antigos. — Não vou te perder de novo, Nerone — disse Aurélio, com a voz mais baixa. — Não vai. Roux só está tentando me proteger… você vai ver. Depois do que vivera na Toca, Nerone sabia que Roux era alguém que honrava a própria palavra. — Espero que sim. Mas vou me prevenir — respondeu Aurélio, firme. — Faça o que achar melhor. Sei que não vou conseguir te impedir — disse Nerone, soltando um leve suspiro. — Que bom que sabe — retrucou Aurélio, mais calmo. — Se cuida. — Você também. Nerone desligou e devolveu o aparelho a Lorel. Quando ergueu o olhar, percebeu todos ao redor observando-o. — Algum problema? — perguntou. — Nenhum — respondeu Lorel rapidamente, guardando o telefone. Nerone apenas assentiu. — Já está tudo pronto por aqui. Basta colocar em prática — disse, estendendo um tablet com as atualizações das rotas. Lorel analisou e assentiu. — Ficou excelente. — Se não há mais nada, eu vou indo. — Na verdade… eu gostaria de te fazer uma pergunta — disse Lorel, um pouco hesitante. — Diga. — Qual é o nome da sua mãe? Os olhos de Nerone escureceram instantaneamente. Sem pensar, ele avançou sobre Lorel, tomado por uma fúria súbita.
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