O som das rodas do carro sobre o cascalho ecoou pelo pátio da mansão, quebrando o silêncio pesado da noite italiana. Nerone não se deu ao trabalho de observar a fachada iluminada — ele a conhecia bem demais. Cada pedra, cada sombra… tudo ali carregava a história de sua família.
Assim que a porta se abriu, ele entrou rapidamente. Queria poder tomar um bom banho e descansar, mas, ao que parecia, seu irmão tinha outros planos.
— Ele chegou — disse Calebe.
Nerone nem precisou perguntar onde estavam. Caminhou direto para a sala principal, encontrando Aurélio à sua espera.
Aurélio permanecia de pé, ao lado da lareira. Em sua mão, o seu velho copo de whisky repousava.
Oksana tinha um olhar preocupado ao encarar Nerone. Ela havia visto o quanto Aurélio se preocupara com o garoto, e vê-lo bem naquele momento os aliviava.
— Demorou — disse Aurélio.
— Fui rápido, mas Lorel precisa aprender a treinar os seus homens. Não tem como eu continuar fazendo favores para ele — respondeu, deixando-se cair no sofá.
— Vou conversar com Ricardo sobre isso — disse Aurélio, com um leve aceno de cabeça. — Mas o que quero saber é por que fiquei sabendo do que houve na Toca por meio de um convite.
— Quer me explicar — continuou, agora com um tom mais cortante — por que eu não fui informado sobre o que aconteceu na Toca?
Nerone respirou fundo, mas não desviou o olhar. Ele podia ver o quanto seu irmão estava irritado.
— Porque acabei indo ver Amália, e depois Ricardo me mandou até Lorel. Não tive como avisar — justificou-se.
— Ficamos preocupados, Nerone. Você sabe que os Roux não são flor que se cheire — disse Oksana, lançando-lhe um olhar significativo.
— O filho do Cobra me desafiou — sua voz era firme, sem hesitação. — Uma luta. Até a morte.
Oksana o encarou, surpresa. Aquilo não era bom.
— E você aceitou… — murmurou.
— Aceitei. Eles me descobriram na ilha, não tive escolha a não ser aceitar — explicou.
— Aquele filho da mãe! Vou arrancar o couro daquele empresário safado — disse Aurélio, furioso.
— Venci — disse Nerone, com satisfação no rosto.
Aurélio suspirou.
— Jamais duvidei que você ganharia, Nerone. Você é um Donati — disse, com orgulho.
Os anos de treinamento aos quais Nerone havia se submetido tinham valido a pena.
— E por que você decidiu que ele viveria? — perguntou Aurélio.
— Era um desafio até a morte — continuou Nerone —, mas eu não precisava provar nada a eles. Além disso, é melhor ter um novo aliado do que um novo inimigo.
Aurélio observou o irmão com orgulho. Ele estava se tornando alguém admirável, desenvolvendo características que todo grande líder deveria ter.
— Fez a escolha certa, irmão. Estou muito orgulhoso de você — disse Aurélio, aproximando-se e dando um tapinha em suas costas.
— Vou me casar, irmão, e não quero fazer inimigos para colocar Amália em risco. Prefiro tê-los por perto.
O canto da boca de Aurélio se moveu, quase um sorriso. Ao que parecia, o amor estava transformando a vida de Nerone.
— Que bonitinho! — disse Oksana, levantando-se e apertando as bochechas de Nerone. — Ele está ficando romântico, Moreno.
Nerone fechou a cara, mas não podia fazer nada. A sua cunhada era insistente quando se tratava de provocá-lo.
— Então agora você é afilhado do Cobra? — perguntou Aurélio.
— Sim. Ele me tornou afilhado — respondeu Nerone. — Ele não parece ser tão r**m quanto dizem.
— Todos temos várias faces, Nerone. Não podemos descuidar, não até termos certeza de que ele é confiável.
— O chefe está certo, garoto. Você precisa ser cuidadoso de agora em diante — disse Calebe, que permanecera em silêncio até então.
Calebe sempre mantinha um pé atrás com todos. Havia aprendido a ser cauteloso, e era graças a isso que ainda estava vivo e cuidando de sua família.
— Bem, ele marcou a cerimônia para daqui a dois dias — disse Aurélio, entregando o convite a Nerone.
Nerone pegou o convite e se surpreendeu com a qualidade do material. Ao que parecia, a sua apresentação como m****o da família do Cobra seria algo grandioso.
— Sim, ele havia dito que estava com pressa, então isso não me surpreende.
— Mas isso é bom. Assim poderemos analisá-lo pessoalmente e ver se está tudo certo com as suas intenções — disse Oksana.
— Então nós vamos ter festa? — perguntou Lorenzo, descendo as escadas com seus irmãos.
— Não para vocês, garotos. Isso é coisa de adultos — disse Oksana, encarando-os com a sobrancelha arqueada.
— Vocês sempre deixam a gente de fora, mãe — disse Massimo, cruzando os braços.
— Isso porque é coisa de adultos, e pode ser perigoso para vocês — disse Aurélio.
— Quando vamos poder participar dessas festas? — perguntou Gaia, fazendo um pequeno bico.
— Venha aqui, minha princesa — disse Aurélio, abaixando-se e abrindo os braços para a pequena.
Gaia correu e se jogou nos braços do pai.
— Vai chegar a hora de vocês, mas terão que ter paciência até lá.
— Seu pai está certo. Daqui a alguns anos, vocês vão até se cansar dessas festas — completou Oksana.
— Mas quem vai proteger o tio Nerone? — perguntou Lorenzo.
— O seu tio não vai precisar de proteção. É uma festa para garantir a segurança dele — explicou Calebe.
Aos poucos, os pequenos foram se acalmando, mas ainda não estavam satisfeitos por serem deixados de lado.