Ainda era madrugada quando o carro de Nerone cruzou as ruas silenciosas, engolidas por uma escuridão quase tranquila demais para o tipo de vida que ele levava. O retorno para a Fênix já estava traçado e enquanto ele se dirigia em direção à casa de Amália o seu coração disparava.
O nome dela ecoava em sua mente com mais força do que qualquer ordem, qualquer missão, qualquer juramento que já tivesse feito. Ela estava ocupado um espaço maior do que ele pensou que ela ocuparia.
Quando o carro parou a alguns quarteirões da casa, Nerone desceu sem fazer barulho. O motorista não perguntou nada — nunca perguntava — e partiu assim que ele fechou a porta.
O restante do caminho foi feito a pé. Devido à hora ele não desejava acordar os outros com a sua presença.
Os muros da casa de Amália surgiram diante dele de uma forma familiar, o fazendo lembrar das vezes em que tinha entrado sem ninguém perceber apenas para ver se ela estava bem. Não era a primeira vez que estava ali daquela forma, escondido entre sombras, invadindo um espaço que, tecnicamente, não lhe pertencia.
Mas, de alguma forma… pertencia.
Com a agilidade de sempre, escalou o muro, aterrissando do outro lado sem emitir som algum. Os seus olhos percorreram o jardim, atentos a qualquer movimento.
Nada.
A casa dormia.
Nerone se aproximou da lateral, usando o mesmo ponto cego que havia identificado antes. Em poucos segundos, já estava diante da janela do quarto de Amália.
Trancada.
Ele sorriu de leve.
Claro que estava.
Retirando um pequeno dispositivo do bolso, trabalhou rapidamente na fechadura. Um clique baixo ecoou, quase impercetível.
E então ele entrou.
O quarto estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pela luz suave que escapava pelas frestas da cortina. Amália dormia, encolhida na cama, os cabelos espalhados pelo travesseiro como um contraste delicado contra o lençol claro.
Nerone parou por um instante. Apenas observando. Ela estava linda daquela forma, com uma inocência que chegava a ser surreal.
Aproximou-se devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse acordá-la. Sentou-se na beirada da cama, o olhar suavizando de um jeito que ninguém além dela jamais veria.
Com cuidado, afastou uma mecha de cabelo do rosto dela. Amália murmurou algo baixo, se mexendo levemente, mas não acordou.
Um sorriso discreto surgiu nos lábios dele.
— Sempre assim… — sussurrou, mais para si mesmo do que para ela.
Ele sabia que não deveria estar ali.
Sabia que aquilo era um risco, mas, ainda assim, precisava vê-la antes de partir.
Antes de desaparecer novamente no mundo que ele sabia que, um dia, poderia afastá-lo dela de forma definitiva.
Nerone se inclinou, depositando um beijo leve na testa dela.
E foi nesse momento que ouviu.
Um som.
Os seus olhos se ergueram imediatamente, frios, atentos, calculando. A porta do quarto entreaberta lhe dizendo que ele não estava sozinho ali.
Luz, a mãe de Amália o observava em silêncio, apoiada no batente da porta, como se estivesse ali há tempo suficiente para entender exatamente o que estava acontecendo.
Ela apenas o encarava com a tranquilidade de sempre, os seus olhos serenos e calmo enquanto olhava para ele.
Nerone se levantou devagar, mantendo a postura relaxada — embora os seus instintos já estivessem prontos para reagir a qualquer movimento inesperado. No fundo ele se sentia envergonhado por ser pego daquela forma.
— Não é assim que se visita alguém — disse Luz, em um tom baixo, controlado, para não acordar a filha.
Havia um leve traço de ironia em sua voz.
Nerone inclinou a cabeça de leve.
— Não foi minha intenção perturbá-la, apenas queria ver ela antes de partir de volta para a Itália. — se justifica um pouco constrangido.
Ela o analisou por alguns segundos. Então, para a surpresa dele, Luz se afastou da porta, fazendo um leve gesto com a cabeça.
— Venha querido.
Nerone hesitou por um instante… mas a seguiu. Os dois caminharam em silêncio pelo corredor, descendo até a sala. A casa permanecia quieta, intacta, nenhum barulho que lhe dissesse que mais alguém sabia que ele estava ali aquela hora da madrugada.
Luz parou perto da mesa, acendendo apenas um abajur.
— Você vai embora — afirmou, sem perguntar.
— Vou. Tenho coisas para resolver em casa, não posso ficar. — Nerone cuidava de muitas coisa pra seu irmão, fora os seus próprios negócios que agora administrava, então não podia se ausentar por muito tempo.
Ela assentiu, como se já esperasse aquilo.
Então abriu uma pequena gaveta, retirando algo de dentro.
Uma chave.
Ela caminhou até ele e estendeu o objeto.
Nerone franziu levemente o cenho, sem entender.
— Isso não significa que eu aprove a forma como você faz as coisas — disse Luz, firme, mas sem hostilidade. — Mas significa que eu sei que você não vai parar, e prefiro que não quebre uma das pernas pulando o meu muro.
Ele pegou a chave, ainda em silêncio. Ele era grato por Luz não poder ver a sua bochecha corando. Ele estava grato pela compreensão da mulher a sua frente, e se lembraria daquela gentileza dela.
— A senhora confia em mim? — perguntou ele, direto.
Luz soltou um suspiro leve.
— Sim. — Um pequeno intervalo. — Já ouvi muitas coisas a seu respeito rapaz, mas sei que o que sente por Amália é verdadeiro, posso ver isso no seu olho.
Aquilo o deixa surpreso, mas a senhora a sua frente não estava errada, ele amava Amália, e isso não era segredo para ninguém.
Nerone fechou a mão em torno da chave.
— Obrigada. Vou ser mais cuidadoso.
— Eu espero que sim — respondeu ela. — Porque, da próxima vez, pode não ser só eu que vai encontrar você aqui.
Nerone apenas assentiu, então virou-se e caminhou de volta em direção à saída. Antes de ir embora, lançou um último olhar para o corredor que levava ao quarto de Amália.
E, pela primeira vez em muito tempo, não carregava apenas o peso das missões…
Mas também algo que o prendia. Algo que o fazia querer voltar. E ele sentia que isso era por causa da pequena encrenqueira que dormia tranquilamente em um dos quartos daquela casa.