Capítulo 20

1024 Words
O voo havia sido exaustivo, e Nerone sentiu um alívio frio ao finalmente alcançar o seu destino. Lorel o aguardava na pista de pouso da organização. Não se viam desde o encontro de anos atrás, marcado pelo envolvimento de Pavini. Depois que tudo fora resolvido, mantiveram contato — mas nunca a ponto de realmente precisarem um do outro. — Não esperava que fosse você a vir me ver — disse Lorel, os olhos astutos cravados em Nerone. — E isso faz alguma diferença? — retrucou ele, sem esboçar emoção. Lorel o analisou com atenção. O jovem à sua frente carregava algo que o atraía de forma inquietante, embora ele não soubesse definir o quê. Havia ali uma profundidade oculta, algo enterrado sob camadas de silêncio e frieza. — Não. Não faz diferença quem venha. Mas imaginei que mandariam alguém mais experiente. O deboche em sua voz não passou despercebido. O olhar de Nerone escureceu, como se uma sombra tivesse atravessado a sua íris. — Um cão que mendiga por ajuda não tem o direito de escolher o osso que recebe — respondeu. O ar pareceu esfriar com aquelas palavras. Os homens de Lorel trocaram olhares tensos, como se Nerone tivesse ultrapassado um limite invisível. Mas o rosto dele permaneceu inalterado — vazio, impenetrável. Lorel o observou com mais cuidado, procurando qualquer indício de provocação ou ironia. Não encontrou nada. O rapaz se mantinha firme diante dele, sólido como uma rocha, inalcançável. Algo que ele já esperava de um Donati, mas que mesmo assim o deixava extremamente surpreso. Nerone era o oposto de seu irmão Aurélio. Enquanto Aurélio matava rindo, o garoto a sua frente parecia fazer isso sem demonstrar emoção alguma, algo que ele não sabia se era bom ou r**m. — Você tem coragem, garoto. Admito isso. Já matei pessoas por menos. Mas, considerando a natureza da nossa aliança, vou deixar passar desta vez. — Faça o que quiser. Sou homem o suficiente para arcar com as minhas palavras. Nerone não recuava. Fora moldado para ser preciso, responsável — e letal. Em seu mundo, a palavra de um homem valia mais do que a própria vida. Ao longo dos anos, fizera muitos engolirem o desprezo que tinham por sua idade. Construíra um nome no submundo. Para a mídia, no entanto, era apenas um jovem empresário em ascensão — uma atenção que ele desprezava profundamente. Um dos homens de Lorel avançou um passo, claramente incomodado com o rumo da conversa. Em seus olhos, o chefe não deveria ser questionado — muito menos insultado por alguém que tinha uma aliança com ele. — Deixe, Kalil. Eu o provoquei — disse Lorel, pousando a mão contra o peito do homem. — Como quiser, tio — respondeu ele, sem desviar os olhos de Nerone. Kalil era o braço direito de Lorel. Filho de uma empregada falecida, a quem Lorel tratava como irmã, crescera sob a sua proteção e se tornara exatamente o que ele precisava: leal e mortal. — Seja objetivo. Do que precisa? — perguntou Nerone, já impaciente. — Roubaram informações da minha organização. Quero tudo de volta. E, de preferência, que venham acompanhadas da cabeça do responsável — disse Lorel, em um tom sombrio. — Como pediu, será feito. Basta me apontar o caminho. A resposta veio com naturalidade perturbadora, como se falasse de algo trivial. — O local é de difícil acesso, garoto. Tem certeza de que consegue entrar sozinho? Lorel conhecia a reputação dos irmãos Donati. Sabia que o jovem à sua frente era letal — mas ainda assim precisava testar os seus limites. Não podia se dar ao luxo de expor fraquezas diante de outras organizações. — Não existe lugar capaz de me manter do lado de fora — respondeu Nerone, com calma. As travessuras de sua juventude haviam se transformado em uma habilidade rara e perigosa: ele entrava em qualquer lugar sem deixar rastros. Movia-se como uma sombra — silencioso, inevitável. Quando seus inimigos percebiam, já era tarde demais. — Vou mandar Kalil com você, por garantia — disse Lorel. — Ele só vai me atrasar — respondeu Nerone, seco. — Ele vai com você — insistiu. Nerone soltou um suspiro audível. Tudo o que queria era terminar aquilo rapidamente, mas Lorel parecia determinado a complicar os seus planos. A mente de Norene viaja até Amália, antes de conter um praguejar que ameaçava deixar os seus lábios com a insistência do homem a sua frente. — Tudo bem. Mas, se ele me atrasar, vou deixá-lo para trás sem pensar duas vezes. Trabalho melhor sozinho. Ele será apenas um peso extra. Kalil o encarava com ódio aberto, o maxilar rígido de raiva. — Então temos um acordo — concluiu Lorel. Na verdade, o que ele queria era confirmar se o garoto era tão letal quanto diziam. E não havia pessoa melhor para testemunhar isso do que Kalil — alguém em quem confiava plenamente. — Venha comigo — disse Kalil, a contragosto. Nerone o seguiu sem pressa, quase entediado. Percebia o desprezo do outro, mas aquilo lhe era irrelevante. A única coisa que importava era concluir a missão e voltar para casa. Seguiram até a mansão de Lorel. Kalil entrou em um escritório e aguardou até que Nerone cruzasse a porta, fechando-a em seguida. Caminhou até uma estante, acionou um mecanismo oculto e revelou uma passagem para uma vasta central de controle. — Tira o pé do meu trabalho, Kalil — resmungou uma voz, vinda de frente a um computador. — Não enche o saco, Tess — rebateu ele. A mulher se virou — e foi então que viu Nerone pela primeira vez. Os seus olhos percorreram o corpo dele com curiosidade, avaliando-o sem pudor. Um sorriso lento surgiu em seus lábios. — Bem-vindo, garotão — disse, com um riso leve. Nerone a observou em silêncio. Pequena — talvez pouco mais de um metro e meio —, com rosto arredondado e olhos grandes ela tinha um ar inocente. Os cabelos negros e lisos desciam até a cintura, contrastando com a franja que moldava o seu rosto. Havia algo nela. A mulher à sua frente era, sem dúvida, um perigo disfarçado em saias.
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