Assim que Nerone chega à ilha, escoltado pelos mercenários da Toca, Calebe leva um susto. Ele rapidamente saca a sua arma, apontando para eles, mas logo percebe que algo estava diferente.
— Vou avisar ao Cobra que o seu afilhado chegou em segurança. Se não precisar mais de nós, estamos indo, rapaz — diz um dos mercenários.
— Diga ao padrinho que agradeço pelos seus cuidados. Vocês podem ir — responde ele.
Com um aceno de cabeça, os mercenários do Cobra partem, deixando Nerone com Calebe.
— “Padrinho”? O que eu perdi, garoto? — pergunta Calebe, sem entender.
— Longa história, Calebe. Mas, para resumir, agora sou afilhado do Cobra, o líder da Toca.
Ao ouvir aquelas palavras, os olhos de Calebe se arregalam. Ainda assim, ele percebia que o irmão do seu chefe estava dizendo a verdade — o garoto não mentia.
— Prepare um avião e envie a garota ao pai dela. Tenho um compromisso agora — diz Nerone, já se virando, mas uma mão se agarra ao seu braço, impedindo-o.
— Espere... não pude agradecer pelo que fez por mim — diz ela, com os olhos marejados.
— Não precisa. Foi apenas negócio. Seu pai está me pagando por isso — responde ele, de forma seca, puxando o braço do aperto da jovem.
Nerone sentia o corpo se arrepiar em repulsa com o toque dela. Parecia errado ter o toque de outra pessoa em sua pele. No seu corpo apenas uma pessoa poderia o tocar, e ela era Amália, sua Tampinha.
— Mas...
Calebe se coloca à frente da jovem, interrompendo-a. Conhecia Nerone e sabia que, se ela continuasse insistindo, ele não seria gentil.
— Vamos, menina. Seu pai está te aguardando — diz Calebe, sem vacilar.
Nerone entra em um avião ali mesmo e parte, com os pensamentos todos em Amália. A saudade apertava o seu peito, e tudo o que ele desejava era sentir novamente o perfume dela.
A noite vai se dissipando e, à medida que as horas passam, Nerone observa o novo dia surgir no horizonte, lento e preguiçoso. O cansaço o domina, mas a vontade de ver Amália é maior do que qualquer exaustão.
No momento em que pousa na pista da Fênix, encontra Bernardo à sua espera no hangar. Ele joga uma pequena bolsa para Nerone, que a pega rapidamente.
— Tome um banho antes de vê-la, ou vai matá-la com o seu cheiro — diz Bernardo, com um sorriso de canto.
Nerone apenas assente, esboçando um leve sorriso. Ele segue até o banheiro da pista e toma um banho rápido.
— Como ela está? — pergunta ao sair.
— Está bem. Um pouco estressada... e acho que isso tem a ver com o seu sumiço.
Aquela informação surpreende Nerone e, sem perceber, um sorriso surge em seu rosto. Ele queria que Amália sentisse a sua falta, porque ele sentia — e muito — a falta dela.
Bernardo caminha em silêncio ao seu lado. Gostava de vê-lo feliz. O destino não tinha sido justo com o garoto, então todos faziam o possível para que ele encontrasse algum tipo de felicidade.
— Pode descansar. Vou avisar ao Ricardo — diz Bernardo, parando no portão da casa de Amália.
— Obrigado, Bernardo — responde Nerone, abrindo o portão e entrando.
A casa estava em silêncio. Ao olhar pela janela, ele observa as cores do lado de fora mudarem com o nascer do sol. Tudo o que desejava era descansar um pouco.
Nerone segue até o quarto de Amália e abre a porta lentamente, para não acordá-la. Ela estava deitada, dormindo esparramada na cama, vestindo um pijama de vaquinha. Ele ri ao vê-la.
Dando a volta na cama, retira os sapatos e, em silêncio, se deita ao lado dela. Afasta o travesseiro que ela abraçava e a puxa para seus braços.
O cheiro suave de Amália o acalma imediatamente. Ele inspira fundo, com vontade — como sentira falta daquilo. Logo adormece, o corpo relaxando junto ao dela.
Minutos depois, Amália acorda. Estava tão confortável, tão quentinha, que nem queria se levantar. Distraída, não percebe de imediato que estava agarrada a Nerone. Mas, quando o cheiro dele invade as suas narinas, ela paralisa.
Com os olhos ainda fechados, tateia pela cama, sentindo um peito firme. A suas mãos sobem, explorando o rosto de alguém — e, quando os seus dedos tocam o tapa-olho, ela se senta rapidamente, arfando.
— Nerone! — exclama, irritada.
— Fique quieta, Amália. Preciso descansar — murmura ele, puxando-a de volta para o peito.
Amália se debate, soltando-se do abraço.
— Sai da minha cama agora, Nerone! — exige, furiosa.
Com relutância, ele abre o olho e encara o rosto zangado dela. Ainda assim, acha-a linda, com as bochechas avermelhadas. Estende a mão e toca o seu rosto com carinho.
Os olhos de Amália se arregalam diante do gesto. Ela sente o corpo arrepiar com o toque dele.
— Você fica tão linda quando acorda — diz ele, com a voz rouca de sono.
Amália sente o corpo aquecer. A voz dele, mais grave, a afeta mais do que gostaria — e ela odeia admitir isso.
— Não mude de assunto — retruca, afastando-se.
— Eu estava em missão esses dias, Amália. Por isso não consegui vir te ver antes. Cheguei agora, depois de dias sem dormir... só quero descansar um pouco com você — diz ele, puxando-a novamente.
Amália cai contra o colchão. Nerone se deita sobre o seu colo, soltando um suspiro satisfeito. Ele ergue a cabeça, deposita um beijo em sua bochecha e volta a se acomodar, deitando no colo dela, adormecendo quase imediatamente.
Amália queria reagir. Queria expulsá-lo dali. Mas, ao observar o rosto cansado dele, não consegue. Apenas suspira, cobrindo-o com cuidado.