No salão, todos observavam, ainda que discretamente, o momento em que Nerone retornaria com a sua noiva. Ninguém ali era louco o suficiente para questionar Álvaro, então restava apenas esperar, com paciência calculada.
Os olhares se voltavam, vez ou outra, para a entrada — como se, a qualquer instante, Nerone fosse surgir novamente.
— Já faz tempo demais… — comentou alguém, em tom baixo.
Félix, encostado em uma das colunas, girava o copo na mão, um sorriso malicioso brincando nos seus lábios.
— Relaxem — disse ele, dando um gole na bebida. — Conhecendo meu irmão… ele não se perdeu.
Alguns riram, outros apenas trocaram olhares.
— Então por que ainda não voltou? — provocou um dos homens.
Félix soltou uma risada nasal.
— Porque, meu caro… — inclinou levemente a cabeça, os olhos brilhando de diversão — existem distrações bem mais interessantes do que uma festa.
As risadas se espalharam.
— Aposto que ele nem lembra que a gente existe agora — disse Yuri, rindo.
— Você fala como se não fizesse o mesmo — rebateu Xavier, lançando-lhe um olhar sugestivo.
— Não vou comentar sobre isso — respondeu Yuri, desviando o olhar.
Minutos depois, Nerone entrou.
A expressão estava controlada, como sempre… mas havia algo diferente em seu olhar. Talvez um traço de divertimento que não estava ali quando havia saído.
Amália vinha logo atrás.
O cabelo levemente desalinhado, como se mãos impacientes tivessem passado por ele mais de uma vez. Os lábios um pouco inchados. E o rosto…
Visivelmente corado.
— Olha só quem resolveu lembrar da festa… — disse Félix, alto o suficiente para que todos ouvissem.
Alguns homens desviaram o olhar, contendo o riso. Outros nem tentaram.
— Estava começando a achar que tinha sido sequestrado, irmão — continuou ele, caminhando na direção dos dois. — Mas, pelo visto… você estava bem ocupado.
— Félix — advertiu Nerone, com um olhar carregado de aviso. Ele odiava chamar atenção.
Amália travou por um instante, sentindo o calor subir ainda mais pelo rosto.
— Eu sei — disse Félix, ainda rindo.
Nerone apenas lançou um olhar calmo — e perigosamente afiado — para ele.
— Cuide da sua vida.
Félix ergueu as mãos, rendido… ainda sorrindo.
— Deixe o Félix — disse Álvaro, aproximando-se. — Venha, quero te apresentar a algumas pessoas.
— Sim, padrinho — respondeu Nerone, acompanhando-o.
Nerone passou a observar cada pessoa que Álvaro lhe apresentava. Havia muito mais gente do que ele imaginava — incluindo figuras importantes da lei, o que o surpreendeu.
Amália o observava de longe.
A postura dele ali era completamente diferente da que usava com ela. Mais sério, mais contido. Respondia apenas o necessário — e apenas o que considerava conveniente. Pela forma como Álvaro o observava, era evidente que aprovava aquele comportamento.
— Você está uma bagunça — disse Oksana, aproximando-se e puxando Amália para um canto.
— Culpa daquele i****a — murmurou ela.
Oksana lançou um olhar significativo, fazendo Amália desviar o rosto.
— Você vive provocando. Não achou que ele ficaria quieto, achou?
Sem esperar resposta, Oksana tirou uma pequena escova da bolsa e começou a ajeitar os cabelos de Amália. Em seguida, corrigiu a sua maquiagem levemente borrada e sorriu, satisfeita.
— Agora sim, você está perfeita.
— Obrigada — disse Amália.
— Entenda uma coisa — continuou Oksana —, Nerone é um Donati. Bater de frente com ele nunca vai ser a melhor escolha.
— O que quer dizer? — perguntou Amália, curiosa.
— Provoque — disse Alicia, aproximando-se. — Faça ele perceber o que pode perder se continuar bancando o i****a.
Oksana assentiu, divertida.
— Se tem algo que os nossos maridos valorizam… somos nós. Use isso a seu favor quando ele estiver irritado. Funciona.
Amália corou com as palavras, mas não pôde negar: havia gostado do que tinha acontecido entre ela e Nerone mais cedo.
Talvez… fosse algo que pudesse usar.
— Mas nós não…
— Não estamos dizendo isso — interrompeu Oksana, erguendo a sobrancelha. — Estamos dizendo para você aprender a lidar com ele. E existem muitas formas de fazer isso.
Amália não sabia onde enfiar o rosto. Aquela conversa parecia íntima demais para acontecer no meio de um salão de festas.
— Sinto falta dessa fase — comentou Alicia, levando a mão à boca, contendo o riso. — Era divertido.
— Bons tempos — concordou Oksana, já procurando Aurélio com o olhar. Quando o encontrou, sorriu. — Vejo vocês depois.
— Para onde ela foi? — perguntou Amália.
— Foi ficar com o Aurélio. Oksana não consegue ficar longe dele por muito tempo — respondeu Alicia, sorrindo.
Amália acompanhou com o olhar, vendo Oksana praticamente se jogar nos braços de Aurélio. O sorriso dele ao recebê-la dizia tudo.
A cada dia, Amália entendia mais.
A família Donati era intensa.
Ela via isso nos olhos de Nerone.
Via agora nos de Aurélio.
Eles amavam de um jeito… avassalador.
E aquilo, de certa forma, a assustava.
— Vou encontrar o meu também — disse Alicia, já se afastando. — E você deveria fazer o mesmo.
Amália respirou fundo, encarando o próprio reflexo em um espelho do salão.
Tomando coragem, começou a caminhar em direção a Nerone.
Mas, quando estava prestes a alcançá-lo—
Uma mulher de cabelos negros se lançou nos seus braços, sorrindo amplamente.
Amália parou.
O mundo pareceu desacelerar.
Os olhos arderam.
A decepção veio rápida, silenciosa… esmagadora.
— Tess — disse Nerone, o olhar imediatamente escurecendo.
— Que bom te ver, gato. Estava com saudade — respondeu ela, sorrindo.
Como se pressentisse o desastre, Nerone virou o rosto.
E encontrou o olhar de Amália cheio de dor.
— Amália… — chamou.