Capítulo 51

944 Words
No salão, todos observavam, ainda que discretamente, o momento em que Nerone retornaria com a sua noiva. Ninguém ali era louco o suficiente para questionar Álvaro, então restava apenas esperar, com paciência calculada. Os olhares se voltavam, vez ou outra, para a entrada — como se, a qualquer instante, Nerone fosse surgir novamente. — Já faz tempo demais… — comentou alguém, em tom baixo. Félix, encostado em uma das colunas, girava o copo na mão, um sorriso malicioso brincando nos seus lábios. — Relaxem — disse ele, dando um gole na bebida. — Conhecendo meu irmão… ele não se perdeu. Alguns riram, outros apenas trocaram olhares. — Então por que ainda não voltou? — provocou um dos homens. Félix soltou uma risada nasal. — Porque, meu caro… — inclinou levemente a cabeça, os olhos brilhando de diversão — existem distrações bem mais interessantes do que uma festa. As risadas se espalharam. — Aposto que ele nem lembra que a gente existe agora — disse Yuri, rindo. — Você fala como se não fizesse o mesmo — rebateu Xavier, lançando-lhe um olhar sugestivo. — Não vou comentar sobre isso — respondeu Yuri, desviando o olhar. Minutos depois, Nerone entrou. A expressão estava controlada, como sempre… mas havia algo diferente em seu olhar. Talvez um traço de divertimento que não estava ali quando havia saído. Amália vinha logo atrás. O cabelo levemente desalinhado, como se mãos impacientes tivessem passado por ele mais de uma vez. Os lábios um pouco inchados. E o rosto… Visivelmente corado. — Olha só quem resolveu lembrar da festa… — disse Félix, alto o suficiente para que todos ouvissem. Alguns homens desviaram o olhar, contendo o riso. Outros nem tentaram. — Estava começando a achar que tinha sido sequestrado, irmão — continuou ele, caminhando na direção dos dois. — Mas, pelo visto… você estava bem ocupado. — Félix — advertiu Nerone, com um olhar carregado de aviso. Ele odiava chamar atenção. Amália travou por um instante, sentindo o calor subir ainda mais pelo rosto. — Eu sei — disse Félix, ainda rindo. Nerone apenas lançou um olhar calmo — e perigosamente afiado — para ele. — Cuide da sua vida. Félix ergueu as mãos, rendido… ainda sorrindo. — Deixe o Félix — disse Álvaro, aproximando-se. — Venha, quero te apresentar a algumas pessoas. — Sim, padrinho — respondeu Nerone, acompanhando-o. Nerone passou a observar cada pessoa que Álvaro lhe apresentava. Havia muito mais gente do que ele imaginava — incluindo figuras importantes da lei, o que o surpreendeu. Amália o observava de longe. A postura dele ali era completamente diferente da que usava com ela. Mais sério, mais contido. Respondia apenas o necessário — e apenas o que considerava conveniente. Pela forma como Álvaro o observava, era evidente que aprovava aquele comportamento. — Você está uma bagunça — disse Oksana, aproximando-se e puxando Amália para um canto. — Culpa daquele i****a — murmurou ela. Oksana lançou um olhar significativo, fazendo Amália desviar o rosto. — Você vive provocando. Não achou que ele ficaria quieto, achou? Sem esperar resposta, Oksana tirou uma pequena escova da bolsa e começou a ajeitar os cabelos de Amália. Em seguida, corrigiu a sua maquiagem levemente borrada e sorriu, satisfeita. — Agora sim, você está perfeita. — Obrigada — disse Amália. — Entenda uma coisa — continuou Oksana —, Nerone é um Donati. Bater de frente com ele nunca vai ser a melhor escolha. — O que quer dizer? — perguntou Amália, curiosa. — Provoque — disse Alicia, aproximando-se. — Faça ele perceber o que pode perder se continuar bancando o i****a. Oksana assentiu, divertida. — Se tem algo que os nossos maridos valorizam… somos nós. Use isso a seu favor quando ele estiver irritado. Funciona. Amália corou com as palavras, mas não pôde negar: havia gostado do que tinha acontecido entre ela e Nerone mais cedo. Talvez… fosse algo que pudesse usar. — Mas nós não… — Não estamos dizendo isso — interrompeu Oksana, erguendo a sobrancelha. — Estamos dizendo para você aprender a lidar com ele. E existem muitas formas de fazer isso. Amália não sabia onde enfiar o rosto. Aquela conversa parecia íntima demais para acontecer no meio de um salão de festas. — Sinto falta dessa fase — comentou Alicia, levando a mão à boca, contendo o riso. — Era divertido. — Bons tempos — concordou Oksana, já procurando Aurélio com o olhar. Quando o encontrou, sorriu. — Vejo vocês depois. — Para onde ela foi? — perguntou Amália. — Foi ficar com o Aurélio. Oksana não consegue ficar longe dele por muito tempo — respondeu Alicia, sorrindo. Amália acompanhou com o olhar, vendo Oksana praticamente se jogar nos braços de Aurélio. O sorriso dele ao recebê-la dizia tudo. A cada dia, Amália entendia mais. A família Donati era intensa. Ela via isso nos olhos de Nerone. Via agora nos de Aurélio. Eles amavam de um jeito… avassalador. E aquilo, de certa forma, a assustava. — Vou encontrar o meu também — disse Alicia, já se afastando. — E você deveria fazer o mesmo. Amália respirou fundo, encarando o próprio reflexo em um espelho do salão. Tomando coragem, começou a caminhar em direção a Nerone. Mas, quando estava prestes a alcançá-lo— Uma mulher de cabelos negros se lançou nos seus braços, sorrindo amplamente. Amália parou. O mundo pareceu desacelerar. Os olhos arderam. A decepção veio rápida, silenciosa… esmagadora. — Tess — disse Nerone, o olhar imediatamente escurecendo. — Que bom te ver, gato. Estava com saudade — respondeu ela, sorrindo. Como se pressentisse o desastre, Nerone virou o rosto. E encontrou o olhar de Amália cheio de dor. — Amália… — chamou.
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