Ingênua

1248 Words
Giana passou o dia pensativa. Não comeu. Pelo contrário — pegou toda a comida que conseguiu e guardou dentro de uma pequena mochila. Pedaços de pão, frutas, garrafas pequenas de água, tudo o que coubesse sem chamar atenção. Fingiu normalidade quando cruzava com empregados, manteve o rosto calmo, mas por dentro só havia uma palavra: fugir. Não seria a oferta de um gladeador.. Ela ia usar um pequeno barco que sempre ficava preso perto das pedras, quase escondido. Já o observava há meses. Sabia o horário em que os seguranças trocavam de turno, sabia que depois das grandes festas o cansaço deixava todos mais descuidados. Precisava apenas que todos dormissem. Separou poucas roupas. Não podia carregar peso. Um vestido simples, uma blusa, algoum casado para se proteger do frio da madrugada. O plano era simples e desesperado ao mesmo tempo: sair quando a casa estivesse em silêncio, atravessar o jardim, descer até as pedras e soltar o barco. Depois disso, só o mar. Quando pisasse em solo firme, daria um jeito. Trabalharia, pediria ajuda. Se escondesse. Não sabia como, mas aprenderia. Ou morreria tentando, preferia isso a continuar sendo um objeto e um futuro prêmio. A noite caiu, a ilha começou a se encher de risadas, música distante e vozes altas. Depois, como sempre, tudo começou a diminuir. Um a um, os sons foram se apagando. Giana esperou sentada na cama, contando os minutos, ouvindo cada porta fechar. Quando teve certeza de que o corredor estava vazio, colocou a mochila nas costas. O coração batia tão forte que parecia denunciar a sua presença. Abriu a porta com cuidado. Estava morrendo de medo, mas ela seguiu. Desceu as escadas devagar. O jardim estava iluminado apenas pela lua. Caminhou pela grama, desviando das áreas mais iluminadas, mantendo-se nas sombras. Chegou às pedras. O pequeno barco balançava preso à corda, inocente, silencioso. Ajoelhou para soltar o nó, os dedos tremendo. — Vai fugir? — uma voz grave surgiu atrás dela. O corpo inteiro congelou. Ela virou devagar. Decimus estava ali, na sombra, braços cruzados, o olhar duro, não parecia surpreso. Parecia ter esperado por ela, parecendo que sabia da dua fuga, mas era impossível. — Volte para dentro — disse ele, baixo. — Você não vai sobreviver lá fora assim. Giana apertou a corda com força em seus dedos. — Prefiro morrer tentando do que viver presa e ser entregue como prêmio.. __ Ela disse. __ Cômodo dissse que vai entregá-la? __ Decimus quis saber.. __ Disse. O vento soprou mais forte entre eles. Ela não sabia se Decimus a impediria, se a entregaria ao pai.Mas o gladiador do pai ficou parado, e deixou ir.. Ela agradeceu , ia sair dali.. Ela conseguiu se afastar com o barco. Soltou a corda, empurrou com força e o pequeno barco deslizou para longe das pedras. O coração batia alto demais, quase doendo. Por alguns segundos, sentiu algo parecido com vitória. Estava indo embora, sozinha, livre, mas o frio veio rápido. O vento cortava o rosto. A água respingava nas pernas. Ela não sabia que, mar adentro, fazia tanto frio. Nunca tinha imaginado aquilo. Nos livros parecia bonito. Nas histórias parecia possível. Tentou remar como já tinha visto em filmes na televisão do pai, como tinha visto o pai fazer. Mas os braços doíam. O barco girava em vez de avançar. A corrente puxava para o lado. O medo começou a chegar forte demais. — Não… não… — murmurou para si mesma. O barco começou a encher de água. Ela olhou para o fundo e viu a água entrando devagar, mas constante. O desespero subiu pela garganta. Sabia nadar, mas ali não enxergava mais nada. Não sabia para onde estava indo. Não via a ilha direito. Não via terra firme. Ia ficar à deriva e depois afundar.. O medo virou pânico. Tentou virar o barco, tentou jogar a água para fora com as mãos, mas não conseguia. Foi nesse momento que percebeu a própria estupidez. Um barco pequeno daqueles nunca chegaria longe. Claro que estava furado também, ou um gladiador teria tentando. Era mesmo uma idio.ta por achar que conseguiria sozinha. Quando o barco começou a afundar de vez, ela gritou. — Socorro! A água gelada subiu pelas pernas. O barco virou, e ela caiu. A água entrou pela boca, pelo nariz. O frio cortou como faca. Tentou nadar, mas os braços já estavam pesados. A sua roupa puxava para baixo. O mundo ficou escuro e confuso. Então sentiu um braço forte agarrá-la. — Não lute! — uma voz firme disse perto do ouvido dela. — Vou tirar você daqui, fique sem se debater.. Era Decimus. Ele nadava com força, puxando-a pelo braço, mantendo a cabeça dela acima da água. O mar batia contra os dois. Ela tremia demais para reagir.Ele a arrastou até as pedras, subiu primeiro e depois puxou o corpo dela para fora da água. Giana caiu de joelhos na areia, tossindo, tentando respirar. Ele a virou para o lado e pressionou levemente as costas dela. — Respire. Ela tossiu mais uma vez, a água saindo, o ar entrando como se fosse a primeira vez. Decimus a observou por alguns segundos. — Por que não me disse que o barco estava furado? Por que não me disse que eu não iria longe? — a voz dela saiu fraca, mas irritada. Ele segurou o queixo dela e alisou.. — Você teria acreditado em mim, Giana? Teria? Se eu tivesse dito que era uma ideia estúpid.a... Ela ficou em silêncio. — Não — respondeu por fim, quase num sussurro. Ele soltou o queixo dela devagar. — Então precisava ver com os próprios olhos. O vento continuava frio, mas ela já não sentia tanto. Talvez fosse o choque, o medo que a fez sentir frio, percebeu que nem mesmo tinha ido muito longe, teria conseguido voltar a terra firme sozinha, mas o medo e o pânico a fez afundar, sem Decimus teria morrido.. — Se eu voltar… — ela começou, a voz quebrando — … ele vai me entregar na arena. Vai me fazer entrar diante de todo mundo. Eu não quero ser um troféu,sendo possuído para todos verem.. Decimus ficou quieto por alguns segundos. — Você não vai ser entregue a qualquer gladiador — disse por fim. — Nem na frente de todo mundo. Ela o encarou. — Como sabe? Ele deu um meio sorriso, quase amargo. — Porque eu não vou deixar. Ela sentiu o peso das palavras. Não sabia se era promessa ou aviso. — Você acha que é diferente dos outros? — ela desafiou, ainda tremendo. — Você é o monstro que ele criou. O olhar dele escureceu. — E você é a filha do homem que me criou assim. O silêncio caiu entre os dois. Ela respirou fundo. — Eu só queria viver. Ele passou a mão pelo cabelo molhado. — Você não sabe o que é viver lá fora, senhorita. Há gladiadores piores do que eu. Homens que passam a sua vida se alimentado de garotas ingênuas como você. E aqui dentro dessa ilha tem gente sofrendo mais que você.. três gladiadores estão presos, sem comida e só ganham água por uma semana.. Vá para sua cama quente e cozinha aquecida... tem gente pior que você... Você estava gritando por liberdade, mas não sabe o que ela custa, pare de agir como criança. Ela correu para dentro e Decimus percebeu que foram vistos, teria que entregar Giana ao pai ou perderia privilégios e perdendo privilégios não podia protegê-la.
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