O aviso

902 Words
Giana acordou com calor. Puxou a camisa grande que costumava usar para ir ao mar — uma daquelas que pegava emprestada das empregadas — e saiu sem se arrumar. Passou devagar pela porta do quarto do pai e ouviu sons abafados: vozes baixas, gemidos que vinham de dentro. O estômago apertou. Ficou parada por um segundo, depois correu para fora. Pulou a pequena cerca que separava a área da cozinha do jardim — a grade dava direto para a faixa de areia. A pele ainda quente, o corpo estremeceu quando a água a tocou; por um momento o mundo foi só o sal e o vento no rosto. Entrou no mar , deixou a água refrescar a pele, sentiu o peso da casa cair junto com a maré. Ali, construiu um castelo de areia, fez caminhos com o dedo, desenhou flores na beira como quem desenha liberdade. Por alguns minutos foi isso: mãos ocupadas, o coração menos pesado. Fingiu para si mesma que podia ser livre — que podia sair daquele lugar e caminhar por uma rua qualquer, comprar um ingresso de cinema, sentar numa praça sem que ninguém a visse como objeto. O tempo parecia pertencer só a ela. Mas a hora de voltar chegou. Fez o último traço no castelo, soprou a areia que sobrara e levantou-se. No caminho da volta, bateu numa parede de músculos. — Não deve ficar aqui fora sozinha, garota — disse uma voz grossa. Era Decimus. Ele estava encostado numa pilastra, a pele ainda salpicada de areia, a expressão fechada. — Aqui tem gladiadores famintos. Eles podem querer se alimentar de você. Giana recuou, surpresa, nem sabia se tinha medo de Decimus; tinha medo mais da verdade por trás das palavras. — Nenhum deles me machucaria se eu disser que não. __ Seu pai nunca estragaria um gladiador por você. — A ameaça era dita como se fosse um fato óbvio. —Seu pai pensa no lucro primeiro. Se decidir que vale mais te entregar do que manter você segura, ele vai fazer. Então cuide-se. Não fique à vista. Fique no seu quarto, você está por conta própria, nunca foi tocada, porque os outros gladiadores ainda não sabem que para o seu pai você não é nada, então lute para se manter viva.. Giana sentiu o sangue gelar. O que Decimus dizia confirmava os piores receios . Ela murmurou que iria entrar, virou e correu para dentro, a camiseta branca grudando em algumas partes. Subiu as escadas de dois em dois e entrou no quarto. Quase sem barulho — tentando não chamar atenção — fechou a porta com cuidado. M.al o som da tranca se acomodou, o pai abriu e entrou.. — Onde esteve, Giana? Ela tentou responder normal, a voz saindo tremida: — Fui só até a praia, pai. Pegar um pouco de ar. — Pare de andar perto dos gladiadores — rosnou ele. — Pare de se expor. Você é minha filha e eu decido o que é melhor. Não me faça perder tempo com as suas birras. Nem para um casamento serve. — Pai — Giana tentou o acalmar — eu não faço birra. Eu só… eu vou me casar, se o senhor permitir. Me case com alguém de fora. Assim saio daqui. Cómodo gargalhou, um som seco e sem afeto. — Casar? Com alguém de fora? Você acha que tiro você daqui para me deletar, nunca.. Já tive pena de você uma vez — disse, e a voz tornou-se pior —. Eu devia ter jogado você no mar quando nasceu. Pensei duas vezes e deixei você viver, mas não para ser problema. Giana sentiu as mãos tremendo. — Não, pai, por favor — tentou. Ele deu um passo à frente. — Vou te entregar ao vencedor da noite qualquer dia, Você será o prêmio. Assim resolvo duas coisas: ganho aplausos e me livro de quem me atrapalha. — Não me entregue, pai — Giana sussurrou, como quem pede pela vida. — Não me entregue. Ele virou a cabeça como se aquilo fosse um incômodo. — Você fala demais. Levarei você ao palco como se fosse um troféu. . Você podia ter me ajudado a crescer isso aqui, podia ser ao menos uma aliada, mas não, sente pena deles e tem moral, nem parece ter o meu sangue , Giana, você devia ser melhor do que é.. A porta se fechou com força. Giana ficou sozinha no quarto, as pernas bambas, o rosto molhado. A ideia de ser exibida, de ser tocada como prêmio, deu- náusea. Lá embaixo, as vozes aumentavam, passos, ordens — movimentos que ela agora sabia organizariam o resto da noite. Quase tinha sido pega lá embaixo, se Decimus não tivesse aparecido, teria ficado na cozinha comendo bolo.. Se deixou cair no chão. O castelo de areia que fez havia sido engolida pelas ondas; a ilusão de liberdade tinha sumido. Ela apertou as mãos e sentiu os nós dos dedos doerem. Pela primeira vez não foi apenas medo: foi raiva misturada com um frio decidido. Não queria ser troféu, não queria ser moeda. Lá fora, a ilha brilhava, como sempre. Mas para Giana tudo havia mudado para pior. Algo tinha sido acionado pelas palavras do pai — um mecanismo que agora só poderia ser parado com um movimento dela. E naquele silêncio, ela começou a pensar rápido: Como fugir? Precisava fugir daquela ilha, ou a menos morrer tentando.
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