Giana acordou com calor. Puxou a camisa grande que costumava usar para ir ao mar — uma daquelas que pegava emprestada dos empregados — e saiu sem se arrumar. Passou devagar pela porta do quarto do pai e ouviu sons abafados: vozes baixas, gemidos que vinham de dentro. O estômago apertou. Ficou parada por um segundo, depois correu para fora.
Pulou a pequena cerca que separava a área da cozinha do jardim — a grade dava direto para a faixa de areia. A pele ainda quente do corpo estremeceu quando a água a tocou; por um momento o mundo foi só o sal e o vento no rosto. Entrou no mar , deixou a água refrescar a pele, sentiu o peso da casa cair junto com a maré. Ali, construiu um castelo de areia, fez caminhos com o dedo, desenhou flores na beira como quem desenha liberdade.
Por alguns minutos foi isso: riso solto, mãos ocupadas, o coração menos pesado. Fingiu para si mesma que podia ser livre — que podia sair daquele lugar e caminhar por uma rua qualquer, comprar um ingresso de cinema, sentar numa praça sem que ninguém a visse como objeto. O tempo parecia pertencer só a ela.
Mas a hora de voltar chegou. Fez o último traço no castelo, soprou a areia que sobrara e levantou-se. No caminho da volta, bateu numa parede de músculos.
— Não deve ficar aqui fora sozinha, garota — disse uma voz grossa. Era Decimus. Ele estava encostado numa pilastra, a pele ainda salpicada de areia, a expressão fechada. — Aqui tem gladiadores famintos. Eles podem querer se alimentar de você.
Giana recuou, surpresa, nem sabia se tinha medo de Decimus; tinha medo mais da verdade por trás das palavras.
— Nenhum deles me machucaria se eu disser que não.
__ Seu pai nunca estragaria um produto por você. — A ameaça era dita como se fosse um fato óbvio. — Mas não confie nisso. Seu pai pensa no lucro primeiro. Se decidir que vale mais te entregar do que manter você segura, ele vai fazer. Então cuide-se. Não fique à vista. Fique no seu quarto, você está por conta própria, nunca foi tocada, porque os outros gladeadores ainda não sabem que para o seu pai você não é nada, então lute para se manter viva..
Giana sentiu o sangue gelar. O que Decimus dizia confirmava os piores receios . Ela murmurou que iria entrar, virou e correu para dentro, a camiseta branca grudando em algumas partes. Subiu as escadas de dois em dois e entrou no quarto. Quase sem barulho — tentando não chamar atenção — fechou a porta com cuidado.
Mal o som da tranca se acomodou, o pai abriu e entrou..
— Onde esteve, Giana?
Ela tentou responder normal, a voz saindo tremida:
— Fui só até a praia, pai. Pegar um pouco de ar.
— Pare de andar perto dos gladiadores — rosnou ele. — Pare de se expor. Você é minha filha e eu decido o que é melhor. Não me faça perder tempo com as suas birras. Nem para um casamento serve.
— Pai — Giana tentou o acalmar — eu não faço birra. Eu só… eu vou me casar, se o senhor permitir. Me case com alguém de fora. Assim saio daqui.
Cómodo gargalhou, um som seco e sem afeto.
— Casar? Com alguém de fora? Você acha que tiro você daqui para me seletar, nunca.. Já tive pena de você uma vez — disse, e a voz tornou-se pior —. Eu devia ter jogado você no mar quando nasceu. Pensei duas vezes e deixei você viver, mas não para ser problema.
Giana sentiu as mãos tremendo. — Não, pai, por favor — tentou.
Ele deu um passo à frente, a figura inteira como um punho. — Vou te entregar ao vencedor da noite qualquer dia, Você será o prêmio. Assim resolvo duas coisas: ganho aplausos e me livro de quem me atrapalha.
— Não me entregue, pai — Giana sussurrou, como quem pede vida. — Não me entregue.
Ele virou a cabeça como se aquilo fosse um incômodo. — Você fala demais. Levarei você ao palco como se fosse um troféu. Eles aplaudirão. Você podia ter me ajudado a crescer isso aqui, podia ser ao menos uma aliada, mas não, sente pena deles e tem moral, nem parece ter o meu sangue , Giana, você devia ser melhor do que é..
A porta se fechou com força. Giana ficou sozinha no quarto, as pernas bambas, o rosto molhado. A ideia de ser exibida, de ser tocada como prêmio, deu- náusea. Lá embaixo, as vozes aumentavam, passos, ordens — movimentos que ela agora sabia organizariam o resto da noite. Quase tinha sido pega lá embaixo, se Decimus não tivesse aparecido, teria ficado na cozinha comendo bolo.. Se deixou o livro cair no chão.
O castelo de areia que fez havia sido engolida pelas ondas; a ilusão de liberdade tinha sumido. Ela apertou as mãos e sentiu os nós dos dedos doerem. Pela primeira vez não foi apenas medo: foi raiva misturada com um frio decidido. Não queria ser troféu, não queria ser moeda.
Lá fora, a ilha brilhava, como sempre. Mas para Giana tudo havia mudado para pior. Algo tinha sido acionado pelas palavras do pai — um mecanismo que agora só poderia ser parado com um movimento dela. E naquele silêncio, ela começou a pensar rápido: Como fugir? Precisava fugir daquela ilha, ou a menos morrer tentando.