Giana odiava aquela ilha — um pedaço de paraíso cercado por paredes invisíveis, de onde só se podia escapar por navio ou helicóptero. Cresceu ali entre luxo e gritos; não sabia direito quem era sua mãe, não sabia o que era ser dona da própria vida: para o pai, ela era um objeto, um bibelô para mostrar à plateia nojenta que o seguia. Cómodo dizia que ela era sua filha “protegida”, mas sem amor — só ordens e obediência. Não podia se rebelar, não podia dizer não. Era sempre “sim, senhor, meu pai” e nada mais. Sonhava, em silêncio, ver o mundo lá fora: ir ao cinema, assistir a uma peça de teatro, andar numa rua comum. Queria escolher suas roupas, sua vida.
Mas tudo não passava de um sonho. Era um passarinho preso numa gaiola de ouro — uma gaiola fria e sem afeto. Sabia que vivia melhor que muita gente, mesmo sem conhecer o mundo exterior; tinha consciência de que o mundo era frio e perigoso. Nunca saiu da ilha; nem mesmo lembrava de um passeio ao médico. Tudo acontecia ali: médicos, dentistas, professora particular que a ensinou a ler, bordar e costurar — tudo dentro das paredes frias daquela casa.
Por que o pai a mantinha ali, como prisioneira? Ela já perguntara e ele ria: “Você tem mais do que precisa. Deve agradecer por não estar numa masmorra ou à deriva no mar. Você é mulher, não serve para nada além de ser protegida.” Às vezes, ela achava que era verdade.
— Me deixe ir embora. Deixe-me em terra firme — implorava ela.
— E vai fazer o quê? Morrer de fome? Ou se tornar prosti.tuta? Pare de reclamar, Giana. Você tem comida, uma boa cama, roupas — não seja ingrata.
Naqueles momentos, ela se calava. O limite do pai chegava rápido; podia ser duro, até c***l. Então ficava quieta, sem perguntar, sufocada.
Quando chegava uma funcionária nova, Giana se aproximava para ouvir as histórias sobre as ruas da Grécia, os barcos, as praças — pequenas coisas que para ela eram sonhos impossíveis. Às vezes, com sorte, conseguia ver imagens do mar em celulares; não havia televisão nos seus quartos, só o do pai. Vez ou outra, homens e mulheres convidavam pessoas ao quarto, e ela via sorrisos e choro sem entender tudo o que acontecia.
Às vezes, chegava a invejar os gladiadores. Eles tinham luta, perigo; poderiam morrer. A ela restavam as sombras, a insignificância de ser apenas a filha odiada de Cómodo — a menina que fingia não ver, esperando que a hora da humilhação não chegasse até ela.
Na sombra das janelas e dos jardins privados, Giana aprendeu a guardar o corpo e a voz. Suspirou. Havia fotos que um funcionário lhe dera: ruas, uma praça, um barco — o barco mais bonito que ela já viu. Guardou essas imagens como mapas de um mundo que não era o dela. Sabia que tudo aquilo era um sonho bobo de menina presa. Ficou um tempo olhando as fotos, depois foi ao espelho ajeitar o cabelo.
Naquele dia usava um vestido branco simples. Deveria ter ficado no quarto, como sempre. Mas a curiosidade puxou os seus passos mais uma vez, gostava de observar Décimus..
Quis só ver o que acontecia na arena — sempre ouvia os gritos e os aplausos lá embaixo.
Desceu as escadas tremendo. O vento trazia cheiro de mar e o som abafado da arena, misturado ao barulho das festas. A ilha vivia disso: festas, apostas, sorrisos ensaiados, sentiu um nojo no peito. Mesmo assim foi até uma pequena varanda que dava para parte da arena; dali o espetáculo parecia maior, mais cru.
No centro da arena havia uma figura que fez o ar congelar , ele sempre tinha esse efeito para Giana. Era Decimus — o maior gladiador do pai, tinha a impressão de que Cómodo gostava de Decimus mais do que de quase tudo; as apostas subiam quando ele lutava. Decimus tinha a atenção do pai; ela , por sua vez, passava dias esperando um olhar diferente, uma palavra que a tirasse dali. Sabia que era difícil, quase impossível.
Ele lutava.
Decimus não era apenas um homem em combate; parecia uma fera treinada para obedecer à violência. Cada movimento era forte, rápido, sem hesitação. Parecia pronto para m***r — uma máquina de força e técnica. Vestia só uma bermuda curta; a pele brilhava de suor. Na mão, um machado grande que parecia pesar o mundo inteiro. Contra ele, três homens se lançaram com raiva e força.
A luta começou seca, sem música — só o barulho dos passos na areia, o choque das armas e os gritos. O primeiro homem veio com um golpe frouxo; Decimus desviou , como se conhecesse o movimento antes mesmo de ele começar. A lâmina do machado cortou o ar e encontrou carne: um som duro, seco. O homem caiu antes de entender. Sangue abriu no chão como se a arena o bebesse. O público prendeu a respiração.
O segundo tentou rodear, forçar um canto. Decimus usou o peso do machado como alavanca, girou o corpo e acertou o antebraço do adversário. O som do osso batendo no metal fez vários na plateia recuarem. O homem gritou e levou outro golpe que o deixou caído de costas, pernas tremendo, olhos grandes mirando o céu.
O terceiro foi o mais perigoso. Veio de frente, com raiva, segurando uma arma pesada. Decimus hesitou por um segundo — não por medo, mas porque aprendeu que hesitar às vezes salva a vida. Depois avançou como um leão: abaixou o corpo, segurou o adversário pela cintura num golpe seco e o derrubou com o próprio peso. O machado rasgou o ar, e o homem rolou na areia. A poeira subiu e o sol a dourou por um instante.
O público explodiu num rugido. Muitos aplaudiram, outros gritavam o nome de Decimus como se fosse um herói. Havia quem visse beleza na violência, como se sangue fosse espetáculo. Cómodo observava do lugar de honra, rosto fechado, a mão no queixo. Sorriu por um instante — sorriso calculado, que dizia: “isso me pertence”.
Giana observava escondida. A cada golpe, a sua respiração apertava. Não era admiração fácil; era mistura de medo, repulsa e algo que nascia sem convite. Decimus, quando terminou, limpou a boca com o dorso da mão e ergueu o queixo. Caminhou para o corredor dos campeões com passos firmes, sem correr. Parecia cansado e ao mesmo tempo invencível.
Quando passou quase em frente à varanda onde Giana estava, olhou para cima. Ele sabia que ele estava lá..
Os olhos deles se encontraram por um segundo. Não houve palavras. Foi só um olhar simples que dizia muito: reconhecimento, talvez, ou a confirmação de que ali havia outra pessoa presa a um destino que não escolheu. Giana sentiu algo estranho no peito — mistura de curiosidade e receio.
Voltou para o quarto devagar. O vestido branco grudava ao corpo por causa do calor. As escadas pareceram mais longas. No corredor, as sombras pareciam maiores, os ricos já conversavam sobre a próxima luta como se falassem de negócios. Apostas eram feitas, cifras trocadas. Pensou, por um momento, na possibilidade mais h******l — ser oferecida como prêmio. A imagem gelou o seu sangue. Ser tratada como troféu, exposta diante de olhos famintos, fez Giana perder o chão.
Naquela noite, enquanto as luzes brilhavam e os convidados riam alto, Giana deitou-se e ficou contando o som distante dos risos.
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Decimus foi levado para um quarto nos bastidores — o melhor disponível para quem brilhava na arena. Sentou na beirada da cama e deixou a cabeça cair entre as mãos. Lembranças o apertavam: o rosto de quem perdeu, o dia que mudou tudo. A arena era sua escolha e a sua prisão. A promessa de liberdade ? Não a queria, não havia nada para ele lá fora, dormiu pouco; a imagem da moça de branco ficou na mente dele, assim como a imagem dele havia ficado na dela. N