Arquibancadas de luxo, camarotes com bebidas, cadeiras onde magnatas brindavam com champanhe enquanto alguém suava sangue lá embaixo. Era ali que o poder mostrava o rosto mais cru: a violência transformada em espetáculo, e o espetáculo transformado em dinheiro.
Decimus vinha desse mundo. O seu passado era curto e sombrio, feito de treinos longos, dor e noites sem nome. Não espere um mocinho doce. Não há herói nessa história — há um monstro forjado em uma dor antiga. Desde jovem foi empurrado para o ofício de lutar. Alguns diziam que Cómodo forjou com intenção, que moldou nele o monstro que todos temiam ver nas arenas. Outros preferiam chamar aquilo de destino. A verdade é que Décimus era um poço neg.ro: se olhasse para dentro, encontraria memórias tão duras que apagavam qualquer pedaço de ternura.
Aprendeu a lutar como quem aprende a respirar. O machado, as bandagens, o suor no ringue — tudo virou extensão do corpo. Ele se tornou nota de aposta, produto de luxo; na boca dos ricos, o nome dele subia e descia conforme a sorte do dia. Havia quem comparasse Decimus aos antigos gladiadores romanos — “um romano moderno”, diziam, com reverência. Havia lendas de um “melhor gladiador romano” que inspirava o público; Decimus já ouviu essas histórias, mas sabia que ali não havia honra, só sobrevivência.
O respeito que ele inspirava vinha do medo. Havia quem evitasse cruzar o seu caminho nos bastidores, não por orgulho, mas por puro instinto de autopreservação. Decimus carregava essa reputação como uma armadura. Mas por baixo da armadura havia lembranças que não se curavam: a perda que o empurrou para aquele destino — um rosto amado que se foi num dia que virou ferida. Era por isso que ele não buscava liberdade, não queria nada lá fora.
A vida nas instalações de treino tinha rotinas cruéis. Ao amanhecer, os que deveriam ser quebrados corriam pela trilha à beira-mar; à tarde, vinham horas de combate, golpes repetidos, resistência forçada. Cômodo observava tudo com olhos de proprietário: avaliava performances, , decidia quem subia e quem desaparecia. Havia uma lógica por trás da crueldade — o público pagava para ver a ferocidade, e o dono da ilha dirigia esse teatro de sangue como se fosse um CEO dirigindo uma marca de luxo.
Giana, que ainda vivia presa em sua gaiola de ouro, assistia aquilo à distância. Sua vida e a vida das lutas corriam em paralelos dolorosos: ela presa por ordens, ele preso pela necessidade de sobreviver; ela sem escolhas, ele sem direito ao sentimento. Quando Decimus se movia na arena, Giana via nele não só o monstro que os outros descreviam, mas alguém feito das mesmas rupturas que ela sentia. Havia, no rosto dele, um cansaço que lembrava o cansaço das noites longas em sua cama.
A ilha tinha ritos antes e depois das lutas. Havia quem preparasse os gladiadores como se preparasse joias caras: massagens para desinchar músculos, remédios para as feridas, banhos quentes. Havia quem tratasse desses homens como mercadorias. Às vezes, depois de uma vitória, levavam o vencedor ao camarote principal, e Cómodo presenteava-o com reconhecimento — um quarto separado, comida melhor, favores. Mas esses favores vinham com correntes invisíveis.
Por isso:
Decimus não era um cavaleiro romântico. Não vinha para salvar donzelas. Era fruto de um sistema violento, um monstro forjado por interesses.
Ninguém acreditava que naquela arena, ele poderia virar humano. Mas só ele sabia que, de algum lugar, algo no peito dele reagia ao nome dela. Algo que talvez, em pouco tempo, o forçasse a escolher de verdade.
A arena fechou as cortinas por aquela noite, mas o que foi lançado ao ar não voltaria a ser apenas espetáculo. Entre os risos e os brindes, uma escolha começava a se formar. Uma escolha que poderia redimir — ou destruir — ambos. Em breve, o mundo daquela ilha ia descobrir que até monstros podem carregar corações.