Espetáculo

1246 Words
Giana odiava aquela ilha — um pedaço de paraíso cercado por paredes invisíveis, de onde só se podia escapar por navio ou helicóptero. Cresceu ali entre loucora do pai e gritos; não sabia direito quem era sua mãe, não sabia o que era ser dona da própria vida: para o pai, ela era um objeto, um bibelô para mostrar à plateia nojenta que o seguia. Cômodo dizia que ela era sua filha “protegida”, mas sem amor — só ordens e obediência. Não podia se rebelar, não podia dizer não. Era sempre “sim, senhor, meu pai” e nada mais. Sonhava, em silêncio, ver o mundo lá fora: ir ao cinema, assistir a uma peça de teatro, andar numa rua comum. Queria escolher suas roupas, sua vida. Mas tudo não passava de um sonho. Era um passarinho preso numa gaiola de ouro — uma gaiola fria e sem afeto. Sabia que vivia melhor que muita gente, mesmo sem conhecer o mundo exterior; tinha consciência de que o mundo era frio e perigoso. Nunca saiu da ilha; nem mesmo se lembrava de um passeio ao médico. Por que o pai a mantinha ali, como prisioneira? Ela já perguntara e ele ria: “Você tem mais do que precisa. Deve agradecer por não estar numa masmorra ou à deriva no mar. Você é mulher, não serve para nada . Às vezes, ela achava que era verdade. — Me deixe ir embora. Deixe-me em terra firme — implorava ela. — E vai fazer o quê? Morrer de fome? Ou se tornar prosti.tuta? Pare de reclamar, Giana. Você tem comida, uma boa cama, roupas — não seja ingrata. Naqueles momentos, ela se calava. O limite do pai chegava rápido; podia ser duro, até c***l. Então ficava quieta, sem perguntar, sufocada. Quando chegava uma funcionária nova, Giana se aproximava para ouvir as histórias sobre as ruas da Grécia, os barcos, as praças — pequenas coisas que para ela eram sonhos impossíveis. Às vezes, com sorte, conseguia ver imagens de ruas em celulares; não havia televisão nos seus quartos, só o do pai. Às vezes, chegava a invejar os gladiadores. Eles tinham luta, perigo; poderiam morrer. A ela restavam as sombras, a insignificância de ser apenas a filha odiada de Cómodo — a menina que fingia não ver, esperando que a hora da humilhação não chegasse até ela. Na sombra das janelas e dos jardins privados, Giana aprendeu a guardar o corpo e a voz. Suspirou. Havia fotos que uma funcionária lhe deu, ruas, uma praça, casa — a casa mais bonita que ela já viu. Guardou essas imagens como mapas de um mundo que não era o dela. Sabia que tudo aquilo era um sonho bobo de menina presa. Ficou um tempo olhando as fotos, depois foi ao espelho ajeitar o cabelo. Naquele dia usava um vestido branco simples. Deveria ter ficado no quarto, como sempre. Mas a curiosidade puxou os seus passos mais uma vez, gostava de observar Décimus.. Quis só ver o que acontecia na arena — sempre ouvia os gritos e os aplausos lá embaixo. Desceu as escadas tremendo. O vento trazia cheiro de mar e o som abafado da arena, misturado ao barulho das festas. A ilha vivia disso: festas, apostas, sorrisos ensaiados, sentiu um nojo no peito. Mesmo assim foi até uma pequena varanda que dava para parte da arena; dali o espetáculo parecia maior, mais cru. No centro da arena havia uma figura que fez o ar congelar , ele sempre tinha esse efeito para Giana. Era Decimus — o maior gladiador do pai, tinha a impressão de que Cômodo gostava de Decimus mais do que de quase tudo; as apostas subiam quando ele lutava. Decimus tinha a atenção do pai; ela , por sua vez, passava dias esperando um olhar diferente, uma palavra que a tirasse dali. Sabia que era difícil, quase impossível. O gladiador lutava. Decimus não era apenas um homem em combate; parecia uma fera treinada para obedecer à violência. Cada movimento era forte, rápido, sem hesitação. Parecia pronto para m.atar — uma máquina de força e técnica. Vestia só uma bermuda curta; a pele brilhava de suor. Na mão, um machado grande que parecia pesar o mundo inteiro. Contra ele, três homens se lançaram com raiva e força. A luta começou . O primeiro homem veio com um golpe frouxo; Decimus desviou , como se conhecesse o movimento antes mesmo de ele começar. A lâmina do machado cortou o ar e encontrou carne. O homem caiu antes de entender. Sangue surgiu no chão como se a arena o bebesse. O público prendeu a respiração. O segundo tentou rodear,. Decimus usou o peso do machado como alavanca, girou o corpo e acertou o antebraço do adversário. Naquele momentos, qualquer outro som parou, foi o som do osso batendo no metal fez vários na plateia recuarem. O homem gritou e levou outro golpe que o deixou caído de costas, pernas tremendo, olhos grandes mirando o céu. O terceiro foi o mais perigoso. Veio de frente, com raiva, segurando uma arma pesada. Decimus hesitou por um segundo — não por medo, mas porque aprendeu que hesitar às vezes salva a vida. Depois avançou como um leão: abaixou o corpo, segurou o adversário pela cintura e o derrubou. O machado rasgou o ar, e o homem rolou na areia. A poeira subiu . O público explodiu num rugido. Muitos aplaudiram, outros gritavam o nome de Decimus como se fosse um herói. Havia quem visse beleza na violência, como se sangue fosse espetáculo. Cómodo observava do lugar de honra, a mão no queixo. Sorriu. Giana observava escondida. A cada golpe, a sua respiração apertava. Não era admiração fácil; era mistura de medo, repulsa e algo que nascia sem convite. Decimus, quando terminou, limpou a boca com o dorso da mão e ergueu o queixo. Caminhou para o corredor dos campeões com passos firmes. Parecia cansado e ao mesmo tempo invencível. Quando passou quase em frente à varanda onde Giana estava, olhou para cima. Ele sabia que ela estava lá.. Os olhos deles se encontraram por um segundo. Foi só um olhar simples que dizia muito: reconhecimento, talvez, ou a confirmação de que ali havia outra pessoa presa a um destino que não escolheu. Giana sentiu algo estranho no peito — mistura de curiosidade e receio. Voltou para o quarto devagar. O vestido branco grudava ao corpo por causa do calor. As escadas pareceram mais longas. No corredor, as sombras pareciam maiores. Lá os ricos já conversavam sobre a próxima luta como se falassem de negócios. Apostas eram feitas, cifras trocadas. Pensou, por um momento, na possibilidade mais h******l — ser oferecida como prêmio. A imagem gelou o seu sangue. Ser tratada como troféu, exposta diante de olhos famintos, fez Giana perder o chão. Naquela noite, enquanto as luzes brilhavam e os convidados riam alto, Giana deitou-se e ficou contando o som distante dos risos. 🏛️🏛️🏛️🏛️🏛️ Decimus foi levado para um quarto nos bastidores — o melhor disponível para quem brilhava na arena. Sentou na beirada da cama e deixou a cabeça cair entre as mãos. Lembranças o apertavam: o rosto de quem perdeu, o dia que mudou tudo. A arena era sua escolha e a sua prisão. A promessa de liberdade ? Não a queria, não havia nada para ele lá fora, dormiu pouco; a imagem da moça de branco ficou na mente dele, assim como a imagem dele havia ficado na dela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD