9. O CAIXÃO FECHADO

1102 Words
Rebeca Antes de procurar qualquer menina em qualquer morro, eu ainda precisava atravessar a manhã em que o mundo inteiro parecia decidido a me obrigar a enterrar Isa. Às sete e pouco, eu estava na cozinha com a mesma roupa da noite anterior, uma xícara de café intacta na frente e minha mãe segurando um papel da funerária. Ela lia a mesma folha havia pelo menos cinco minutos. Não porque houvesse tanta coisa escrita. Porque nenhuma mãe deveria precisar entender palavras como liberação, urna, velório e sepultamento poucas horas depois de conversar normalmente sobre a filha. O hospital tinha encaminhado o corpo para os procedimentos médico-legais durante a madrugada. Depois vieram as ligações. Documento. Horário. Funerária. Cemitério. Tudo acontecia rápido demais para uma pessoa que ainda estava tentando entender se a irmã estava realmente morta. — Disseram que conseguem fazer o sepultamento no fim da tarde — minha mãe falou sem levantar os olhos. — Como recomendaram a urna fechada, não vai ter preparação para exposição. A palavra me incomodou. Exposição. Como se estivéssemos falando de um objeto. — Mãe, eu ainda acho que a gente devia esperar um pouco antes de fazer isso. Ela levantou o rosto. Os olhos estavam vermelhos, inchados e fundos. — Esperar o quê, Rebeca? Eu não sei mais o que você acha que vai acontecer. A gravação estava no meu celular. As cópias também. Eu podia colocar o áudio para tocar ali mesmo. Podia deixar minha mãe ouvir uma voz dizendo que Isa saíra viva daquele hospital. Mas depois? Se aquilo fosse verdade, eu devolveria esperança. Se eu tivesse entendido alguma coisa errado, arrancaria minha mãe do luto para jogá-la dentro de outra tortura. — Tem coisa errada nos documentos — falei. — Não é só sensação minha. — Você já falou dos horários. — E do reconhecimento. Eu não consegui ver a cicatriz. Não consegui ver direito nem a orelha dela. Minha mãe fechou os olhos. — Eu vi minha filha naquela maca. — Você viu um rosto inchado, parcialmente coberto, depois de dizerem pra gente várias vezes que estava alterado. A mão dela bateu na mesa. Não forte. Mas suficiente para me calar. — Não faz isso comigo, Rebeca. Eu já estou tentando entender como vou sair daqui e ir enterrar minha filha. A voz se partiu no fim. O arrependimento veio na mesma hora. Levantei da cadeira. — Eu não estou querendo tirar sua despedida. — Então para de falar como se aquela menina não fosse a Isa. Eu conheço minha filha. Engoli a resposta. Eu também conhecia. Conhecia a pinta perto da mandíbula. A cicatriz pequena na sobrancelha. O jeito como o canto esquerdo da boca subia primeiro quando ela sorria. E era justamente por conhecer que alguma coisa dentro de mim continuava dizendo que aquela história não fechava. Nádia entrou na cozinha carregando uma sacola com pão, água, queijo e uma expressão que deixava claro que ninguém tinha autorização para começar outra discussão. — Antes que vocês duas iniciem uma guerra civil às sete da manhã, alguém vai comer. Luto não suspende glicose e ninguém aqui dormiu. Minha mãe nem tentou discutir. Eu também não. Nádia colocou as coisas sobre a mesa e começou a abrir os pacotes. — Dona Márcia, pelo menos meio pão. — Não consigo. — Então come um quarto e depois a senhora reclama de mim. Minha mãe soltou um suspiro. — Você é tão mandona quanto ela. Nádia apontou para mim. — Eu convivo demais. Por alguns segundos, houve uma coisa parecida com normalidade naquela cozinha. Tão pequena que doeu. Meu celular vibrou sobre a mesa. Olhei a tela. Delegado César Braga. Levantei. — Já volto. Fui para a sala antes de atender. — Rebeca, estou te ligando porque soube que a família está providenciando o sepultamento. A frase me deixou imóvel. — Como o senhor sabe disso? Houve uma pausa curta. — O óbito entrou no fluxo normal e a ocorrência está vinculada. Pedi para ser informado sobre movimentações relacionadas ao caso. Parecia uma explicação possível. Mas desde o hospital eu tinha parado de aceitar qualquer coisa apenas porque parecia possível. — Eu pensei em tentar impedir o enterro. Outra pausa. — Com base em quê? — No áudio. Nos horários. No fato de eu não ter conseguido reconhecer minha irmã com segurança. César soltou o ar devagar. — Eu entendo sua preocupação, mas neste momento você ainda não tem um elemento técnico que sustente uma medida desse tamanho. O material que você entregou está sendo analisado. — E se o corpo não for dela? — Rebeca… — É uma pergunta. Ele demorou um pouco mais. — Se houver uma fraude dessa proporção, existem formas de comprovar posteriormente. Fechei os olhos. — Posteriormente significa depois que eu enterrar a pessoa. — Se for necessário, existe exumação. A palavra me deu náusea. — O senhor está me dizendo que eu devo enterrar primeiro e descobrir depois? — Estou dizendo que não quero que você transforme o funeral da sua família numa batalha sem ter certeza do que está combatendo. A fala era razoável. Era justamente isso que me incomodava. — Eu vi minha irmã viva. — Eu sei. — E depois ouvi alguém dizer que ela saiu viva do hospital. — O áudio precisa ser analisado dentro de todo o contexto. Olhei para a cozinha. Minha mãe estava sentada diante da mesa, tentando mastigar um pedaço pequeno de pão enquanto Nádia fingia que não estava vigiando. — E se eu estiver enterrando a pessoa errada? César ficou alguns segundos em silêncio. — Se existir uma irregularidade dessa dimensão, a investigação vai encontrar. Desliguei alguns minutos depois. Não estava mais tranquila. Só mais cansada. Voltei para a cozinha. Minha mãe me olhou. — Era a polícia? — Era. — E o que disseram? Puxei a cadeira. — Que não existe nada concreto o suficiente para impedir o enterro. Ela assentiu devagar, como se aquela resposta trouxesse uma espécie de autorização para continuar. Para mim, trouxe apenas outra pergunta. Se eu estava errada, por que alguém tinha tentado me tirar da estrada? Se estava errada, por que as mensagens? Se estava errada, por que funcionários do hospital precisavam falar sobre Isa escondidos? E, principalmente: por que alguém tinha me mandado enterrar minha irmã? Olhei para o papel da funerária. O horário do velório já estava marcado. Naquela manhã, percebi que não teria força suficiente para impedir o enterro. Então faria outra coisa. Guardaria cada documento. Cada horário. Cada fotografia. Cada inconsistência. Porque, se aquela urna descesse para debaixo da terra, eu queria saber exatamente onde encontrá-la outra vez.
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