Rebeca
O velório começou no início da tarde.
Urna fechada.
Flores demais.
Gente demais dizendo que Isa estava num lugar melhor quando eu só queria saber em que lugar ela realmente estava.
Minha mãe escolheu uma fotografia tirada meses antes.
Isa sorria para a câmera usando uma blusa amarela, o cabelo caindo pelos ombros e as pequenas argolas que viviam nas orelhas mesmo quando eu reclamava.
Fiquei parada diante da foto por tempo demais.
O brinco.
Na imagem, os dois.
No saco de pertences do hospital, apenas um.
Talvez o outro tivesse caído no acidente.
Talvez tivesse sido retirado durante atendimento.
Talvez.
Eu já tinha tantos “talvez” que poderia construir uma segunda versão inteira daquela noite.
Bia permaneceu perto da urna quase o tempo todo.
De vez em quando alguém se aproximava, abraçava minha mãe, contava uma lembrança de Isa.
Eu escutava parte.
Na outra, observava portas.
Carros chegando.
Pessoas que eu não conhecia.
Depois da perseguição, qualquer desconhecido parecia permanecer tempo demais quando olhava na minha direção.
— Você vai acabar desmaiando.
Nádia surgiu ao meu lado com um copo d’água.
— Se tentar me obrigar a comer, eu te expulso daqui.
— Pelo menos continua ameaçando as pessoas. É um bom sinal.
Peguei o copo.
— Você conseguiu olhar os registros?
Ela perdeu o pouco de humor que tinha.
— Consegui.
Meu coração acelerou.
— Encontrou alguma coisa?
— Encontrei coincidências. E antes que você transforme a palavra em prova, não são a mesma coisa.
— Eu sei a diferença, Nádia.
— Hoje eu não tenho tanta certeza.
Olhei para o salão.
Minha mãe conversava com uma irmã da igreja.
— Aqui não.
Nádia concordou.
Saímos por uma porta lateral que dava para uma área aberta atrás da capela. O movimento de pessoas continuava visível através do vidro, mas as vozes chegavam abafadas.
Ela abriu uma pasta no celular.
— Revisei cinco atendimentos de famílias que procuraram o serviço por desaparecimento ou perda de contato com meninas e mulheres jovens nos últimos dois anos.
— Cinco?
— Cinco que eu consegui localizar rápido. Pode ter mais.
Meu estômago se contraiu.
— E o que elas têm em comum?
— Não todas. É justamente aí que a gente precisa ter cuidado.
Ela deslizou a tela.
— Duas participaram de atividades promovidas pela Fundação Vasconcelos. Uma delas recebeu uma proposta de trabalho através de uma empresa parceira. E outra família mencionou uma ação de capacitação feita dentro de uma comunidade.
O nome da fundação voltou à minha cabeça.
— A mesma que você comentou hoje cedo?
— A mesma.
— Qual comunidade?
— O registro não traz nome oficial. A mãe falou do jeito que conhecia.
Nádia ampliou uma observação digitalizada.
— “Lá no morro do Titã.”
Li duas vezes.
— Titã é quem?
— Pelo que consegui levantar, é quem manda lá.
— Nome?
— Não achei nome civil confiável. Nas referências, todo mundo chama só de Titã ou “o Titã”. E, sendo quem é, eu não esperava encontrar ficha completa numa busca simples.
Aquilo fazia muito mais sentido do que se ela tivesse surgido com nome, sobrenome e endereço.
— E por que essa família mencionou ele?
— Não mencionou diretamente. Falou da comunidade por causa da ação social.
Nádia passou para outra anotação.
— No retorno, a usuária comenta que o pessoal da organização perguntou várias vezes por uma garota chamada Lívia.
Meu corpo ficou alerta.
— Quem é Lívia?
— A anotação só diz “filha do Titã”.
— Idade?
— Dezoito anos.
Fiquei olhando para ela.
Dezoito.
A mesma idade de Isa.
Uma garota de dezoito anos.
Filha do homem que mandava no morro.
Uma fundação fazendo ações na comunidade.
E, dentro do hospital, pessoas falando sobre a menina do morro que continuava sendo observada.
— Pode ser outra garota.
— Pode.
— Pode não ter nada a ver.
— Pode.
— Mas você não acha.
Nádia guardou o celular.
— Eu acho que você está diante de uma coincidência que merece atenção. Isso é diferente de dizer que encontramos a menina da gravação.
Olhei através do vidro.
Do outro lado, a urna de Isa permanecia fechada.
— Disseram que ela ainda estava com o pai.
Nádia ficou quieta.
— Disseram que aquele homem não entregaria a filha facilmente — continuei. — E agora aparece uma menina de dezoito anos, filha do cara que manda num morro onde essa fundação estava fazendo ação.
— Eu sei.
— Isso não é pouca coisa.
— Não. Mas também não é motivo para você subir lá hoje perguntando pelo dono do morro.
Soltei o ar.
— Eu não sou completamente maluca.
Ela me olhou por alguns segundos.
— Você correu atrás de um homem que estava te seguindo depois de sofrer ameaça.
— Eu disse completamente.
Ela balançou a cabeça.
Apesar de tudo, quase sorri.
— Eu preciso falar com ele.
— Você precisa descobrir primeiro como se chega até ele.
— Então é isso que eu vou fazer.
Nádia segurou meu braço.
— Rebeca, pensa. Você foi perseguida depois de sair da delegacia. Recebeu ameaça. Alguém sabe que você não acreditou na morte da Isa. Se essa Lívia estiver mesmo ligada à história, você não vai colocar só você em risco.
Olhei novamente para dentro.
Minha mãe estava sentada diante do caixão.
Sobre ele, Isa sorria na fotografia.
— Minha irmã entrou viva num hospital e eu estou prestes a colocar uma urna fechada debaixo da terra sem saber quem está lá dentro.
Minha voz saiu baixa.
— Eu não consigo fingir que isso é suficiente porque é mais seguro ficar quieta.
Nádia não respondeu de imediato.
— Eu não vou entrar lá apontando dedo — continuei. — Não vou chegar perguntando por boca, arma ou tráfico. Mas quero descobrir como falar com esse Titã.
— Pelo vulgo.
— É o único nome que temos.
— E provavelmente é o único que gente de fora deveria ter.
Assenti.
Aquilo ficou claro entre nós.
Eu não conhecia aquele homem.
Não tinha direito de conhecer o nome dele.
Para mim, naquele momento, ele era apenas Titã.
O telefone vibrou dentro da minha bolsa.
Era uma mensagem da funerária.
Estava chegando a hora de seguirmos para o cemitério.
Olhei novamente para as anotações no celular de Nádia:
TITÃ — dono do morro.
LÍVIA — filha, 18 anos.
— Depois do enterro, a gente procura uma forma segura de chegar na comunidade — Nádia falou.
— Depois do enterro, eu descubro quem é essa menina.
— Não confunde uma coisa com a outra.
— Não estou confundindo.
Guardei o celular.
— Só estou ficando sem opções.
Voltamos para dentro.
Minha mãe levantou quando nos viu.
Poucos minutos depois, começaram a organizar a saída.
Fiquei diante da urna fechada por alguns segundos.
Encostei a ponta dos dedos na madeira.
— Eu ainda não acredito nisso, Isa.
Ninguém ouviu.
Talvez fosse melhor assim.
Antes de procurar Titã, eu ainda precisava fazer uma coisa que parecia impossível.
Precisava caminhar atrás do caixão da minha irmã.