3. Rebeca

1461 Words
Aquelas duas portas fechadas passaram a controlar o meu corpo. Eu levantava toda vez que um jaleco aparecia no corredor, mesmo quando não tinha nada a ver comigo. Bia continuava sentada, com as mãos juntas, como se estivesse rezando sem perceber. Eu não conseguia parar e andava pelo corredor sem rumo. — Rebeca, talvez seja melhor você esperar sentada — Bia disse, num tom baixo. — Você está tremendo. — Eu não consigo. Se eu sentar, vou começar a pensar. — Você já está pensando. — Então vou pensar pior. Peguei o celular. Nenhuma mensagem da minha mãe ainda. Liguei. Dessa vez ela atendeu no segundo toque. — Filha, o que aconteceu com a Isa? Você escreveu que foi acidente, mas não explicou direito. Fechei os olhos. — Mãe, ela chegou consciente. Eu falei com ela. Ela estava orientada, reclamando do braço, fazendo piada. Levaram para outro exame e disseram que aconteceu uma intercorrência. Eu ainda não sei o que foi. — Eu estou indo. — Vem com calma. Não dirige nervosa. — Você está me pedindo calma depois de dizer isso? — Estou pedindo que você chegue inteira. — Me liga assim que souber de qualquer coisa. Prometi. Quando desliguei, percebi que Marcelo estava parado alguns metros adiante. Sem pressa dessa vez. Foi isso que me assustou. A urgência tinha sumido do corpo dele. Uma médica mais jovem vinha ao lado, segurando uma pasta contra o peito e evitando me olhar. Eu soube antes de ouvir. Era o jeito como profissionais de saúde se aproximam quando carregam uma notícia que não pode ser devolvida depois de dita. Marcelo parou diante de mim. — Rebeca, eu preciso conversar com você em um lugar mais reservado. Meu coração bateu tão forte que senti o pulso na garganta. — Pode falar aqui. — Eu preferia que nós entrássemos numa sala. — Eu prefiro que você me diga onde está minha irmã. Bia levantou atrás de mim. — Durante o exame, Isabela apresentou uma piora súbita do quadro neurológico. Houve perda de consciência e, logo depois, uma parada cardiorrespiratória. A equipe iniciou as manobras de reanimação imediatamente. — E agora? Marcelo sustentou meu olhar. — Apesar de todos os esforços, nós não conseguimos reverter. Balancei a cabeça. — Não. — Rebeca… — Não repete isso. Eu vi minha irmã viva há menos de uma hora. — Eu entendo o choque. — Você não está entendendo. Ela estava conversando comigo. Ela estava orientada. Pediu comida. O senhor mesmo disse que não havia nada indicando uma lesão que justificasse pânico. A médica ao lado dele abaixou os olhos. Marcelo não. — O quadro mudou de forma abrupta. Algumas complicações podem evoluir rapidamente depois de um trauma, mesmo quando o paciente inicialmente parece estável. — Qual complicação? Ele hesitou. Foi mínimo. Mas eu vi. — Existe suspeita de sangramento intracraniano com deterioração aguda. Precisamos concluir a documentação médica e os procedimentos pertinentes à morte decorrente de trauma. — Suspeita? Minha voz saiu mais alta. — O senhor acabou de me dizer que minha irmã morreu e ainda está falando em suspeita? — O diagnóstico definitivo depende da avaliação completa do caso. Neste momento, eu estou te explicando a hipótese clínica que justificou a deterioração. Eu já tinha acompanhado famílias em hospital e sabia que não existia palavra bonita para tragédia. Mesmo assim, aquilo era diferente. Talvez porque Marcelo falasse certo demais. Talvez porque a médica ao lado parecesse querer desaparecer. Talvez porque, pouco antes, minha irmã tivesse apertado minha mão e dito que estava viva. — Eu quero vê-la. Marcelo desviou os olhos para a médica. — Neste momento, o corpo está sendo preparado para os procedimentos legais. — Eu quero ver minha irmã. — E você poderá, assim que houver liberação. — Quando? — Ainda não consigo te dar um horário preciso. A dor ainda não tinha chegado inteira. A desconfiança chegou primeiro. — Ela morreu em consequência de um acidente de trânsito. Então isso precisa ser tratado como morte por causa externa, certo? Pela primeira vez, a expressão dele endureceu. Eu continuava sendo irmã, mas também era assistente social e conhecia demais o caminho de documentos, encaminhamentos e responsabilidades empurradas de uma mesa para outra. — Os procedimentos médico-legais serão observados — ele respondeu. — Isso inclui o IML. — Inclui os encaminhamentos cabíveis. — Isso não foi o que eu perguntei. Bia segurou meu braço. — Rebeca… Eu não tirei os olhos dele. — O corpo da minha irmã vai para o IML? Marcelo fez uma pausa. — A administração está verificando o fluxo adequado, considerando as circunstâncias do atendimento. Aquilo não era resposta. — Qual foi o horário da morte? Marcelo respondeu antes que a médica consultasse a pasta. — Vinte e uma e quarenta e dois. Olhei automaticamente para o relógio do celular. 22h06. Minha cabeça começou a organizar os horários. Eu não tinha registrado o minuto exato em que Isa saiu para o exame, mas lembrava da mensagem enviada à minha mãe quando sentei no corredor. Abri a conversa. 21h14. A mensagem dizia: “Ela está consciente. Falei com ela. Estão fazendo mais exames.” Meu dedo ficou parado sobre a tela. Não provava nada, mas me dava uma referência. — Quero cópia do boletim de atendimento, dos exames, das prescrições e do registro da intercorrência. Marcelo franziu levemente a testa. — Isso pode ser solicitado formalmente depois. — Eu vou solicitar formalmente agora. — Você está em choque. Talvez seja melhor cuidar primeiro da sua mãe, da família e das providências imediatas. Quase ri. Não de humor. — Eu passo meus dias ouvindo instituição dizer para mulher vulnerável voltar outro dia porque ela está nervosa demais, pobre demais, machucada demais ou cansada demais. Não usa isso comigo. A médica finalmente levantou os olhos. Marcelo ficou em silêncio por alguns segundos. — Você tem direito de solicitar acesso à documentação pertinente. A equipe administrativa vai orientar. — E eu tenho direito de ver minha irmã. — Assim que houver liberação. — Eu não vou embora antes disso. Ela assentiu devagar. — Entendo. Mas o jeito como falou me fez pensar que talvez entendesse demais. ⸻ Minha mãe chegou cerca de meia hora depois. Quando me viu, não perguntou. Mãe reconhece tragédia na cara da filha antes de qualquer palavra. Ela parou no meio do corredor. — Não. Foi a mesma coisa que eu tinha dito. Fui até ela. — Mãe… — Você falou que ela estava bem. — Eu falei com ela. Eu juro que falei com ela. Minha mãe agarrou meu braço. — Cadê minha filha? Aquilo me desmontou mais do que ouvir a palavra morte. Porque eu sabia o nome do hospital, do médico e o horário que tinham colocado como óbito. Mas não sabia onde, fisicamente, estava minha irmã. — Eles ainda não deixaram a gente ver. Minha mãe me encarou. — Como assim? — Disseram que estão fazendo os procedimentos legais. — Eu quero ver minha filha agora. A voz dela subiu. Algumas pessoas olharam. Eu não pedi que falasse baixo. A recepcionista chamou uma supervisora. Vieram novas explicações sobre trâmites, liberação e documentação. Palavras que ocupavam espaço quando ninguém queria entregar uma resposta. Em determinado momento, uma funcionária trouxe uma pasta para eu preencher. No alto da folha, havia um campo já impresso. HORÁRIO DO ÓBITO: 21:42. Logo abaixo, em outra linha: HORÁRIO DE REGISTRO: 21:36. Eu li uma vez. Depois outra. Meu dedo parou sobre os números. — Isso aqui está errado. A funcionária se inclinou. — O quê? Apontei. — Como o óbito foi registrado seis minutos antes de acontecer? Ela puxou a folha da minha mão rápido demais. — Deve ser erro de sistema. — Me devolve. — Eu vou pedir para corrigirem. Segurei a borda do papel antes que ela conseguisse afastá-lo. — Não. Primeiro eu quero uma cópia dessa versão. A mulher me olhou. Não culpa nem medo. Desconforto. O tipo que aparece quando alguém percebe que a pessoa do outro lado não vai simplesmente assinar onde mandarem. — Senhora Rebeca, isso é só um documento preliminar. — Ótimo. Então não existe motivo para eu não receber uma cópia. Ela soltou o papel. — Vou verificar. Saiu. E não voltou. Minha mãe chorava ao lado de Bia. Eu continuei olhando para o corredor. 21h36. 21h42. Seis minutos. Talvez fosse um erro banal. Hospital errava horário. Sistema travava. Gente digitava errado. Eu sabia disso. Mesmo assim, comecei a anotar tudo: nomes, horários, falas, quando Isa saiu do quarto, quando Marcelo apareceu e quando anunciaram a morte. Abri o bloco de notas do celular e escrevi a primeira linha: “Isa estava consciente quando eu a vi.” Naquele instante, eu ainda não sabia que aquela frase seria o começo de uma guerra.
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