Passei os vinte minutos seguintes tentando conseguir uma cópia daquele documento.
A funcionária que tinha levado a folha não voltou. No lugar dela apareceu outra mulher, mais velha, usando crachá de supervisão e uma expressão treinada para situações difíceis.
— Senhora Rebeca, houve uma inconsistência de lançamento no sistema, mas isso já está sendo corrigido. O horário correto do óbito consta no prontuário médico.
— Então eu quero ver o prontuário.
— O acesso segue um procedimento administrativo.
— Eu sei como funciona um procedimento administrativo. Quero saber onde faço o pedido.
Ela apontou para um setor que só abriria na manhã seguinte.
Eu respirei fundo.
— Então vocês erram o horário da morte da minha irmã, recolhem o documento quando eu percebo e me mandam voltar amanhã para descobrir o que aconteceu?
— Não foi isso que eu disse.
— Mas foi exatamente isso que aconteceu.
Minha mãe estava alguns passos atrás, sentada entre Bia e uma senhora que eu não conhecia. Márcia Duarte nunca tinha sido uma mulher pequena, mesmo tendo pouco mais de um metro e sessenta. Minha mãe ocupava qualquer ambiente com voz, mão na cintura e opinião para tudo.
Naquela noite, parecia encolhida.
As mãos tremiam no colo.
Eu me obriguei a diminuir o tom.
Não porque o hospital merecesse delicadeza.
Porque ela precisava de mim inteira.
— Eu quero ver minha irmã antes de qualquer outra providência.
A supervisora assentiu de um jeito que não significava concordância.
— A equipe está avaliando essa possibilidade.
— Avaliando por quê?
Ela fez uma pequena pausa.
— Por causa das condições do corpo.
Meu estômago contraiu.
— Que condições?
— Após a deterioração clínica, foram necessárias intervenções de emergência. Além disso, houve trauma relacionado ao acidente. Pode ser que a equipe recomende que a família preserve a imagem que tem da Isabela.
Eu fiquei olhando para ela.
Isa tinha um curativo pequeno na testa.
Um braço imobilizado.
Escoriações.
Eu tinha segurado o rosto dela.
— Eu vi minha irmã depois do acidente.
— Eu compreendo.
— Não, acho que não compreende. O rosto dela estava inteiro.
A supervisora apertou os lábios.
— Podem ter ocorrido alterações posteriores.
A mesma história.
Sempre depois.
Tudo que justificava alguma coisa naquele hospital tinha acontecido depois que tiraram Isa da minha frente.
— Quero falar com o médico.
— Vou verificar se o doutor Marcelo ainda está disponível.
— Não quero saber se está disponível. Ele acabou de me comunicar a morte da minha irmã. Quero que explique quais alterações apareceram em menos de uma hora e por que agora estão sugerindo que eu não veja o corpo.
Ela saiu.
Dessa vez, eu fotografei o crachá antes.
Bia me observou.
— Você tá anotando tudo?
— Tudo que eu conseguir lembrar.
— Rebeca, você acha que aconteceu alguma coisa?
Olhei para minha mãe antes de responder.
Ela estava distante o suficiente.
— Eu não sei o que acho.
— Mas você tá estranha.
Soltei uma risada sem humor.
— Minha irmã acabou de morrer, Bia. Acho que eu tenho autorização pra ficar um pouco estranha.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Ela se aproximou.
— Você tá olhando pra todo mundo como se estivesse procurando alguma coisa.
Eu abaixei a voz.
— O documento dizia que registraram a morte dela antes do horário em que disseram que ela morreu.
Bia franziu a testa.
— Como assim?
— Horário de registro, nove e trinta e seis. Óbito, nove e quarenta e dois.
— Isso não pode ser erro de digitação?
— Pode.
— Então…
— Também pode não ser.
Ela ficou me encarando.
Eu mesma ouvi o peso daquilo.
Não queria transformar erro administrativo em conspiração porque eu estava em choque. Já tinha visto famílias se agarrando a qualquer detalhe porque aceitar uma morte era pior do que acreditar em qualquer outra explicação.
Eu sabia disso.
Talvez fosse exatamente o que estava acontecendo comigo.
Mas também sabia outra coisa.
Negação não inventava números impressos.
⸻
Marcelo só apareceu quase quarenta minutos depois.
Dessa vez estava sem jaleco, usando camisa social clara com as mangas dobradas. Aquilo me incomodou de um jeito que não fazia sentido.
Parecia que o dia de trabalho dele tinha acabado.
O meu mundo tinha acabado e o expediente dele também.
— Rebeca, me disseram que você ainda tem algumas dúvidas.
— Algumas.
Ele olhou para minha mãe.
— Dona Márcia, meus sentimentos. Eu realmente sinto muito.
Minha mãe ergueu o rosto.
— Eu quero ver minha filha.
Ele se agachou um pouco para ficar na altura dela.
— Eu entendo. Só preciso preparar vocês para o fato de que pode não ser uma imagem fácil.
Minha mãe segurou minha mão.
— Eu pari essa menina. Não existe imagem que faça ela deixar de ser minha filha.
Por um segundo, o rosto dele mudou.
Não consegui identificar o quê.
Marcelo se levantou.
— Houve necessidade de procedimentos invasivos durante a tentativa de reanimação. Além disso, surgiram sinais de sangramento e edema importantes.
— Isso alterou o rosto dela? — perguntei.
— Pode haver edema e alterações de coloração.
— O suficiente para vocês sugerirem que a família não veja?
— Cada pessoa reage de uma forma. Nossa preocupação é evitar um trauma adicional.
Minha mãe apertou meus dedos.
— Eu vou ver.
Marcelo olhou para mim.
— Eu vou também.
Ele respirou fundo.
— Vou conversar com a equipe.
— Doutor, toda resposta sua termina com alguém conversando com uma equipe. Eu quero uma resposta simples. Minha irmã está dentro deste hospital neste momento?
A pergunta pareceu pegar até minha mãe de surpresa.
Marcelo não respondeu imediatamente.
— O corpo permanece sob responsabilidade institucional até a definição do fluxo médico-legal.
— Isso foi um sim?
— Rebeca, eu realmente acho que seu estado emocional…
— Não usa meu estado emocional para fugir da pergunta.
Minha voz ficou baixa.
Mais perigosa que grito.
— Minha irmã está aqui?
— Está.
— Onde?
— Em área restrita.
— Então eu quero vê-la.
Ele passou a mão pela mandíbula.
— Vou verificar.
Outra vez.
A mesma resposta.
Minha mãe começou a chorar.
Eu sentei ao lado dela.
Não havia mais nada que eu pudesse fazer naquele minuto.
E essa impotência era pior do que qualquer coisa.
⸻
Quase uma hora depois, não nos deixaram entrar.
A nova explicação foi que a liberação dependia do encaminhamento médico-legal e de orientações internas relacionadas às condições do corpo.
Minha mãe estava exausta.
Bia tinha conseguido água, café e um casaco porque o ar-condicionado parecia programado para congelar gente em luto.
Eu continuei circulando.
Foi quando vi uma porta lateral abrir perto do fim do corredor.
Dois homens empurravam uma maca coberta.
Meu corpo reagiu antes da cabeça.
— Isa?
Comecei a andar.
Um funcionário bloqueou meu caminho.
— Senhora, não pode passar.
— Essa maca é da minha irmã?
— Eu não tenho essa informação.
— Então sai da frente.
— Senhora, essa área é restrita.
Tentei olhar além dele.
A maca desapareceu atrás de outra porta.
— Por que estão movimentando corpo sem avisar a família?
— Eu realmente não sei de qual paciente a senhora está falando.
— Isabela Duarte. Dezoito anos. Morreu aqui hoje.
Ele desviou o olhar para o corredor.
Foi rápido.
Mas eu vi.
— Você sabe quem ela é.
— Senhora, procure a recepção.
— Eu já procurei a recepção umas quinze vezes.
Ele recuou meio passo.
— Eu não posso ajudar.
Foi embora.
Eu fiquei ali, encarando a porta fechada.
Quando voltei para perto da minha mãe, havia uma mulher sentada ao lado dela.
Eu reconheci apenas depois que ela se levantou.
Patrícia Nunes tinha sido uma das técnicas que circularam perto de Isa quando eu entrei no quarto. Não lembrava de termos sido apresentadas, mas reconheci o rosto e o uniforme.
Ela segurava um saquinho transparente.
— Esses são alguns pertences da Isabela.
Meu coração apertou.
O celular.
Uma pulseira.
Um brinco.
A blusa que tinha sido cortada.
Peguei o saco.
— Cadê o outro brinco?
Patrícia olhou.
— Talvez tenha se perdido no acidente.
— Ela estava com os dois quando eu vi.
A mulher ficou imóvel.
Eu tinha certeza.
Isa usava argolas pequenas. Eu lembrava porque reclamei que ela dormia com aquilo e depois dizia que machucava.
— Pode ter sido retirado durante algum procedimento — Patrícia respondeu.
— Então deveria estar junto dos pertences.
— Eu posso verificar.
— Faz isso, por favor.
Ela assentiu.
Antes de sair, olhou para minha mãe.
Depois para mim.
Parecia querer dizer alguma coisa.
— Patrícia?
Ela parou.
— Você estava com a minha irmã quando ela piorou?
Os olhos dela encontraram os meus.
— Eu estava no setor.
— Você viu o que aconteceu?
Silêncio.
Não longo.
Mas longo o suficiente.
— Eu não acompanhei todo o atendimento.
— Mas viu alguma coisa?
Ela engoliu em seco.
— Rebeca, conversa com o médico responsável.
— Eu já conversei.
— Então segue a orientação dele.
Saiu depressa.
Fiquei olhando até desaparecer.
Bia veio para perto.
— Aquilo foi esquisito.
— Foi.
Abri o saco de pertences.
O celular de Isa estava desligado.
A tela tinha uma rachadura no canto, provavelmente da queda.
A pulseira estava ali.
Uma correntinha.
O brinco esquerdo.
Procurei de novo.
Nada.
Então encontrei outra coisa.
Um papel dobrado entre a roupa e o fundo plástico.
Puxei.
Era uma etiqueta hospitalar.
ISABELA DUARTE.
Nome completo.
Data de nascimento.
Número de atendimento.
E uma palavra impressa em letras pequenas logo abaixo:
TRANSFERÊNCIA.
Meu coração parou por um segundo.
Olhei o horário.
21:18.
Vinte e quatro minutos antes do horário que tinham registrado como morte.
E ninguém tinha me dito que minha irmã havia sido transferida para lugar nenhum.