QUANDO NINGUÉM FALA

845 Words
Gabriella levantou em silêncio da cama e saiu de fininho do quarto antes que de fato, Magno acordasse, deitou em sua cama, ainda eufórica, mas acabou adormecendo... Após um tempo, acordou com o coração acelerado. Não foi o sol, nem o barulho do resort despertando aos poucos. Foi aquela sensação estranha, pesada, grudada no peito — como se tivesse feito algo irreversível e o mundo ainda não tivesse percebido. Ela piscou algumas vezes, encarando o teto do próprio quarto. Estava sozinha. Os lençóis arrumados demais. O ambiente silencioso demais. Por um instante, pensou que tudo não passara de um sonho confuso, um resquício da bebida, da noite longa, do cansaço emocional. Mas então vieram os fragmentos: o quarto dele, a escuridão, o silêncio carregado, o cuidado excessivo nos gestos, a sensação de perigo contido. Gabriella sentou devagar na cama. O corpo ainda parecia em alerta. Ela levou a mão ao rosto, respirando fundo. — Idiot4… — murmurou para si mesma. Levantou-se e foi até a janela. O resort começava a ganhar vida: funcionários organizando mesas externas, hóspedes caminhando pela área verde, o mar ao fundo brilhando sob o sol da manhã. Tudo normal demais. E era exatamente isso que a incomodava. Magno deveria ter acordado. Deveria ter dito algo. Ou ela deveria. Mas não houve nada. E o nada, percebeu, era muito mais perturbador. Ela tomou um banho demorado, como se a água pudesse organizar seus pensamentos. Escolheu uma roupa discreta — simples demais para alguém que, na noite anterior, parecia decidida a testar todos os limites possíveis. Quando saiu do quarto, encontrou-o no corredor. Magno vinha na direção oposta, já vestido de forma impecável, expressão neutra, postura firme. Os olhares se cruzaram. Por meio segundo, apenas isso. — Bom dia — ele disse, com a mesma voz de sempre. Sem peso. Sem ironia. Sem hesitação. — Bom dia — ela respondeu. Nada mais. E isso foi tudo. Eles caminharam lado a lado até o salão do café da manhã, mantendo uma distância confortável demais para quem havia dividido o mesmo espaço horas antes. Magno puxou a cadeira para ela, como sempre fazia. Gabriella agradeceu com um sorriso educado. Se alguém observasse de fora, veria exatamente o que sempre viram: padrinho e afilhada. Protetor e protegida. Um vínculo respeitável, quase bonito. Mas por dentro, Gabriella sentia o estômago revirar. Ela o observava por cima da xícara de café, tentando decifrar qualquer sinal: um olhar mais demorado, um gesto nervoso, um silêncio diferente. Nada. Magno falava sobre a programação do evento, os investidores internacionais, a importância de manter uma imagem impecável. Comentava tudo com a calma de quem tem controle absoluto da própria vida. Isso a irritava. E a divertia. — Você dormiu bem? — ela perguntou, casualmente. Magno levou alguns segundos a mais do que o normal para responder. — Dormi — disse apenas. Fim. Gabriella mordeu o lábio, contendo um sorriso. Ao longo do dia, os compromissos se sucederam: palestras, encontros formais, apresentações em salões amplos e luxuosos. Gabriella circulava com facilidade, chamando atenção com sua presença jovem e segura. Pessoas elogiavam sua postura, seu carisma, sua beleza — sempre com aquele tom ambíguo que Magno conhecia bem demais. E isso começou a incomodá-lo. Não de forma explícita. Mas suficiente para que ele se colocasse sempre meio passo à frente dela, como uma barreira invisível. Interrompia conversas longas demais. Redirecionava assuntos. Lançava olhares firmes o suficiente para desencorajar aproximações excessivas. Gabriella percebeu. Claro que percebeu. E passou a provocar de outro jeito. Não com gestos. Não com palavras diretas. Com presença. Ria um pouco mais alto quando alguém se aproximava. Mantinha o olhar por um segundo a mais em quem claramente se interessava por ela. Comentava casualmente como o lugar era romântico, como viagens sempre despertavam sensações novas. Magno ouvia tudo. E fingia não ouvir. — Você está se divertindo? — ele perguntou, em um intervalo entre compromissos. — Muito — ela respondeu. — É bom ver como o mundo funciona fora da nossa bolha. Ele assentiu. — Só… tenha cuidado. Ela sorriu. — Sempre tenho você cuidando, não é? O comentário ficou no ar entre eles. À noite, quando se preparavam para mais um jantar formal, Gabriella se olhou no espelho por mais tempo do que o necessário. Escolheu um vestido elegante, sem exageros, mas que realçava exatamente o que precisava. Não era para chamar atenção. Era para testar controle. Quando encontrou Magno no corredor, percebeu o olhar rápido — breve demais para ser casual, rápido demais para ser ignorado. Ele pigarreou. — Vamos? — Vamos. Durante o jantar, os olhares alheios voltaram a aparecer. Gabriella conversava com facilidade, e Magno permanecia atento, presente, firme. Quando alguém ultrapassava o limite do aceitável, ele intervinha com palavras polidas, mas definitivas. Proteção demais. Controle demais. Ela sabia que aquilo não era apenas zelo. E Magno sabia que não era apenas responsabilidade. Mas nenhum dos dois disse nada. Porque havia coisas que, uma vez ditas, não poderiam ser desditas. E o silêncio, por enquanto, ainda era a única forma de manter tudo… aparentemente intacto.
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