Gabriella levantou em silêncio da cama e saiu de fininho do quarto antes que de fato, Magno acordasse, deitou em sua cama, ainda eufórica, mas acabou adormecendo...
Após um tempo, acordou com o coração acelerado.
Não foi o sol, nem o barulho do resort despertando aos poucos. Foi aquela sensação estranha, pesada, grudada no peito — como se tivesse feito algo irreversível e o mundo ainda não tivesse percebido.
Ela piscou algumas vezes, encarando o teto do próprio quarto.
Estava sozinha.
Os lençóis arrumados demais. O ambiente silencioso demais.
Por um instante, pensou que tudo não passara de um sonho confuso, um resquício da bebida, da noite longa, do cansaço emocional. Mas então vieram os fragmentos: o quarto dele, a escuridão, o silêncio carregado, o cuidado excessivo nos gestos, a sensação de perigo contido.
Gabriella sentou devagar na cama.
O corpo ainda parecia em alerta.
Ela levou a mão ao rosto, respirando fundo.
— Idiot4… — murmurou para si mesma.
Levantou-se e foi até a janela. O resort começava a ganhar vida: funcionários organizando mesas externas, hóspedes caminhando pela área verde, o mar ao fundo brilhando sob o sol da manhã.
Tudo normal demais.
E era exatamente isso que a incomodava.
Magno deveria ter acordado.
Deveria ter dito algo.
Ou ela deveria.
Mas não houve nada.
E o nada, percebeu, era muito mais perturbador.
Ela tomou um banho demorado, como se a água pudesse organizar seus pensamentos. Escolheu uma roupa discreta — simples demais para alguém que, na noite anterior, parecia decidida a testar todos os limites possíveis.
Quando saiu do quarto, encontrou-o no corredor.
Magno vinha na direção oposta, já vestido de forma impecável, expressão neutra, postura firme.
Os olhares se cruzaram.
Por meio segundo, apenas isso.
— Bom dia — ele disse, com a mesma voz de sempre.
Sem peso. Sem ironia. Sem hesitação.
— Bom dia — ela respondeu.
Nada mais.
E isso foi tudo.
Eles caminharam lado a lado até o salão do café da manhã, mantendo uma distância confortável demais para quem havia dividido o mesmo espaço horas antes. Magno puxou a cadeira para ela, como sempre fazia. Gabriella agradeceu com um sorriso educado.
Se alguém observasse de fora, veria exatamente o que sempre viram: padrinho e afilhada. Protetor e protegida. Um vínculo respeitável, quase bonito.
Mas por dentro, Gabriella sentia o estômago revirar.
Ela o observava por cima da xícara de café, tentando decifrar qualquer sinal: um olhar mais demorado, um gesto nervoso, um silêncio diferente.
Nada.
Magno falava sobre a programação do evento, os investidores internacionais, a importância de manter uma imagem impecável. Comentava tudo com a calma de quem tem controle absoluto da própria vida.
Isso a irritava.
E a divertia.
— Você dormiu bem? — ela perguntou, casualmente.
Magno levou alguns segundos a mais do que o normal para responder.
— Dormi — disse apenas.
Fim.
Gabriella mordeu o lábio, contendo um sorriso.
Ao longo do dia, os compromissos se sucederam: palestras, encontros formais, apresentações em salões amplos e luxuosos. Gabriella circulava com facilidade, chamando atenção com sua presença jovem e segura. Pessoas elogiavam sua postura, seu carisma, sua beleza — sempre com aquele tom ambíguo que Magno conhecia bem demais.
E isso começou a incomodá-lo.
Não de forma explícita.
Mas suficiente para que ele se colocasse sempre meio passo à frente dela, como uma barreira invisível. Interrompia conversas longas demais. Redirecionava assuntos. Lançava olhares firmes o suficiente para desencorajar aproximações excessivas.
Gabriella percebeu.
Claro que percebeu.
E passou a provocar de outro jeito.
Não com gestos. Não com palavras diretas.
Com presença.
Ria um pouco mais alto quando alguém se aproximava. Mantinha o olhar por um segundo a mais em quem claramente se interessava por ela. Comentava casualmente como o lugar era romântico, como viagens sempre despertavam sensações novas.
Magno ouvia tudo.
E fingia não ouvir.
— Você está se divertindo? — ele perguntou, em um intervalo entre compromissos.
— Muito — ela respondeu. — É bom ver como o mundo funciona fora da nossa bolha.
Ele assentiu.
— Só… tenha cuidado.
Ela sorriu.
— Sempre tenho você cuidando, não é?
O comentário ficou no ar entre eles.
À noite, quando se preparavam para mais um jantar formal, Gabriella se olhou no espelho por mais tempo do que o necessário. Escolheu um vestido elegante, sem exageros, mas que realçava exatamente o que precisava.
Não era para chamar atenção.
Era para testar controle.
Quando encontrou Magno no corredor, percebeu o olhar rápido — breve demais para ser casual, rápido demais para ser ignorado.
Ele pigarreou.
— Vamos?
— Vamos.
Durante o jantar, os olhares alheios voltaram a aparecer. Gabriella conversava com facilidade, e Magno permanecia atento, presente, firme. Quando alguém ultrapassava o limite do aceitável, ele intervinha com palavras polidas, mas definitivas.
Proteção demais.
Controle demais.
Ela sabia que aquilo não era apenas zelo.
E Magno sabia que não era apenas responsabilidade.
Mas nenhum dos dois disse nada.
Porque havia coisas que, uma vez ditas, não poderiam ser desditas.
E o silêncio, por enquanto, ainda era a única forma de manter tudo… aparentemente intacto.