Eu estava triste, mas havia outro sentimento dentro de mim que eu não sabia nomear — era forte. Confuso. Eu me sentia magoada, mas os olhos do Rodrigo não saíam da minha cabeça sempre que eu fechava os meus.
Fui para o banheiro e tomei um banho demorado. Estava precisando de uma água fria para lavar a alma. Só saí debaixo do chuveiro quando senti o corpo mais leve. Ao me olhar no espelho, vi o vermelhão que Pedro deixou no meu rosto. Uma vontade de chorar voltou na mesma hora.
Era um inferno, cara.
Toda vez que cruzo com aquele homem, ele faz questão de me humilhar. E não importa quem está por perto — ele não se importa com o que os outros vão pensar, porque sabe que ninguém nunca faz nada. Eu estava cansada. Tão cansada...
Voltei pro quarto e me deitei ainda chorosa. Entre soluços e pensamentos embaralhados, adormeci. Acordei com uma gritaria que acelerou meu coração:
— Se aquele merda encostar na Bianca outra vez, eu mando matar ele, mãe! — minha mãe gritava, transtornada. — Juro que mando matar!
— Calma, Roberta... — minha avó tentava apaziguar.
— Quem ele pensa que é? Eu crio essa menina desde os dois anos, ele nunca deu nada, eu também nunca pedi um tostão. Agora acha que pode chegar e bater nela? Eu vou na delegacia, vou dar parte dele!
Me virei de costas na cama, querendo voltar a dormir. Tudo aquilo estava mexendo demais comigo. Eu só queria que o dia acabasse logo, que viesse um novo, e com ele um pouco de paz.
Quando acordei no domingo, percebi que estava coberta — minha mãe provavelmente passou por ali. Tia Rosane dormia na cama ao lado, provavelmente porque eu não dormi na sala como de costume. Procurei meu celular e vi várias ligações da minha tia Bete e da Carol. Respondi a ambas, dizendo que estava bem e que mais tarde buscaria minhas coisas. Provavelmente ela ficou preocupada por eu não ter voltado com as meninas. Mas ontem eu só queria fugir de lá.
Pelo menos tudo já tinha passado.
Levantei, fui pro banheiro e tomei outro banho. Tirei o pijama e vesti um biquíni. Queria curtir o dia, esquecer o que tinha acontecido. Ouvi vozes no quintal e imaginei que minha tia Renata tivesse chegado com Rebeca. Me animei com a ideia de chamar minha prima pra entrar comigo na piscina. Coloquei uma saída por cima do biquíni e fui em direção à sala, procurando por Rebeca, mas não a encontrei.
— Bom dia — falei, ao ver minha mãe e minha avó assistindo TV.
— Bom dia, meu amor. Como você está? — minha mãe perguntou, com um olhar melancólico. Ela me puxou pra perto e eu me aconcheguei.
— Estou bem, fica tranquila — respondi. Ela beijou o topo da minha cabeça.
— Se você quiser, a gente pode...
— Não precisa, mãe. Só quero que ele fique longe de mim.
Me levantei e tentei mudar o clima:
— Vou pra piscina. Cadê a Rebeca?
— Ela não veio hoje, filha — minha mãe respondeu do sofá.
Parei no meio do caminho.
— Ué, ouvi vozes. Achei que era ela...
— É o Rodrigo. Chegou aí com uns amigos — minha avó disse, e eu estremeci por dentro.
Merda!
Estava até animada para tomar um banho, mas agora... já vi que não vai dar. Minha mãe percebeu meu desânimo.
— Vai lá, filha. Ninguém vai mexer com você, duvido que o Rodrigo deixe.
Eu concordei, meio sem forças. Eu precisava me distrair, relaxar. Mas o Rodrigo me deixava... nervosa. Não sei se é medo, receio, ou o quê. Só sei que ele chega perto e eu fico na defensiva. É estranho.
A gente nunca teve uma relação de tio e sobrinha. Talvez seja isso. Acho que nenhum dos dois sabe muito bem como se comportar perto do outro.
Fui até a piscina. Lá estavam o Rodrigo, o Limão — um apelido que eu nunca entendi muito bem o sentido —, o Dudu — que era mais "tio" do que o próprio Rodrigo —, e o Zulu, com quem eu não tinha i********e — e que, aliás, Rodrigo sempre parecia manter distante de mim.
Tinha umas meninas lá. E, sendo sincera, não fui com a cara de nenhuma.
Abri o portão da piscina, e todos olharam na minha direção. Senti o rosto queimar. Rodrigo franziu a testa levemente, mas não disse nada.
— E aí, pequenininha? — gritou o Dudu.
Acenei, tímida.
As meninas me lançaram olhares claros: "Fique no seu canto". Estavam em clima de casal, cada um com uma. E era nítido que a do biquíni rosa e azul estava íntima demais do Rodrigo.
Aquilo me atingiu como um soco no estômago.
Mas tentei disfarçar. Tirei a saída, entrei na piscina e agradeci mentalmente pelo pagode alto na caixa de som. Isso me livrava de ter que ouvir as conversas. Virei de costas pro grupinho, encostei os braços na beirada da piscina e apoiei o queixo ali, mergulhando nos meus pensamentos.
Me lembrei da tal resenha que o Yuri me convidou. Talvez eu deva ir. Não é que eu queira algo com ele, mas talvez seja bom... conversar, dançar, me distrair. A festa de ontem teria sido perfeita se não fosse o Pedro.
Yuri é fofo, educado, sabe conversar. Nunca ouvi ninguém falar m*l dele. Ele tem lá seu charme: cabelo espetado, rosto marcado, nariz fino, lábios carnudos... e aqueles olhos verdes. Ele é interessante. Mas, mesmo assim, eu não sei se é isso que quero.
Talvez eu queira alguém mais experiente, alguém que me ensine algo... Mas no fundo, eu nem sei o que estou procurando. Só queria uma conexão. Algo que me tirasse o fôlego. Que me fizesse me entregar sem dúvidas.
Fiquei ali por horas. Mergulhei, nadei, mas voltava sempre à mesma posição. Não queria virar e ver Rodrigo aos beijos com a menina do biquíni rosa e azul. Eu vomitaria.
Mas então, percebi um silêncio. Me virei de supetão — a área da piscina estava vazia. Só eu e minha curiosidade. Para onde tinham ido?
Talvez para outra festa... ou para a casa dela. Balanço a cabeça, tentando afastar a ideia.
Mergulhei o corpo todo na água e apreciei o vazio. Era relaxante. Calmante. Minha mente finalmente desacelerou. Por um momento, ela criou vida própria. E em segundos... trocou meu lugar com o da garota do biquíni rosa e azul.
Me vi sentada ao lado do Rodrigo, nossas cadeiras tão próximas que nossas coxas se tocavam. Ele deu uma risada despreocupada da piada r**m do Dudu, bebeu do copo e passou a mão no cabelo. Estava relaxado.
De repente, abaixou o braço e o apoiou na minha perna. Sua mão espalmada na minha coxa fazia um carinho leve, acendendo um calor no meu estômago. Eu estremeci. Ele percebeu. Seus olhos encontraram os meus. E sorriu.
Olhei para seus lábios... carnudos. Convidativos. Ele se inclinou em minha direção...
E então meu corpo entrou em pânico. Meus pulmões protestaram.
Voltei à realidade com um susto. Tinha ficado tempo demais debaixo d'água. Subi correndo, engolindo ar com desespero, tossindo água pela boca.
Isso foi... insano. Eu não podia vê-lo dessa forma. Não podia.
Primeiro, porque ele me vê como uma criança. Segundo... porque ele é meu tio. Devíamos ter uma relação de sobrinha e tio, nada além disso!
Esses devaneios não podem se repetir. Mas a imagem estava ficando cada vez mais viva. E isso... era um erro. Um erro grande. Um erro e******o.
Agora, mais do que nunca, eu precisava de uma distração.
O convite do Yuri... nunca pareceu tão bem-vindo.