Capítulo 7

1118 Words
Minhas palavras pareciam ter feito alguma barreira dentro dele se romper, e não deu nem tempo de me proteger. Quando percebi, sua mão já estava no meu rosto. O tapa foi tão forte que, por um momento, minha visão escureceu. Senti a bochecha arder, e as lágrimas começaram a descer descontroladamente. m*l tive tempo de recuperar o fôlego antes de levar outro tapa, agora do outro lado. — É bom começar a me respeitar. Se não, eu dou um jeito de pegar sua guarda de volta, e aí eu quero ver você me peitar desse jeito de novo — rosnou Pedro, e eu o encarei com a mão no rosto, as lágrimas rolando. — Que isso, tio? Não faz isso! — Priscila surgiu em meu socorro, e logo senti os braços da Carol me envolvendo num gesto protetor. — Não encosta nela! — minha irmã gritou com firmeza. — Essa garota nem devia estar aqui — Pedro cuspiu com desdém. As pessoas ao redor começaram a reagir. Uns tentavam entender o que estava acontecendo, outros já protestavam. E eu? Eu só queria sair dali. Corri para fora do salão, deixando Caroline falando umas verdades na cara do Pedro — e com ela, eu sabia, ele não teria coragem de fazer nada. Peguei meu celular no bolso da calça e liguei para minha mãe. Chamou, chamou… e nada. O desespero apertou no peito. Eu só queria a minha casa, a minha mãe, a minha cama. Liguei para minha vó Gina. Tocou três vezes até ela atender: — Oi, Bia! — disse, alegre. — Vó — choraminguei, aliviada por ela me atender —, por favor, pede pra minha mãe vir me buscar. — Meu Deus, o que aconteceu? — perguntou nervosa, e eu contei brevemente o que havia ocorrido. — Sua mãe saiu, mas vou pedir pro Zé te buscar. Onde é esse salão? — Passei o endereço e desliguei logo depois. Eu não conseguia parar de chorar. Meu corpo tremia, meu rosto ardia. Estava destruída. Era sempre assim com o Pedro — ele nunca perdia uma oportunidade de me humilhar, de mostrar o quanto me odiava. Carol apareceu no portão, e meu coração gelou, achando que fosse ele de novo. — Bia? — sua voz saiu num lamento, os olhos vermelhos de raiva e dor. — Eu sinto muito, irmã — disse com a voz embargada, abrindo os braços. Me joguei neles, soluçando. — Eu queria entender por que esse homem me odeia tanto — funguei, desabando —. Ele faz da minha vida um inferno, mesmo que por alguns minutos. Eu odeio ele. Odeio ele! — Eu sei… Eu sei. Sinto muito — Carol tentou me acalmar, mas era tarde. Quando a cachoeira começa, é difícil conter. Ela também não sabia explicar o prazer que o Pedro parecia sentir em me ferir. Ficou ali, me acolhendo, até que um farol forte iluminou a rua. Era a minha salvação… Olhei na direção da luz, e quando o farol abaixou, vi que era o carro do Rodrigo — não o do vô Zé. Achei estranho, mas talvez meu avô tivesse pego emprestado. O importante é que eu ia voltar pra casa. O carro estacionou à nossa frente e Rodrigo saiu apressado, vindo até nós. Eu e Carol tomamos um susto. — Você tá bem? — Rodrigo perguntou, puxando-me gentilmente dos braços da minha irmã. — O que aconteceu? — indagou, segurando meu rosto com cuidado, olhando nos meus olhos. — Só me tira daqui, por favor — implorei. Ele nem hesitou. Me levou até o carro, abriu a porta do carona. — Entra — disse, sério. Acenei um adeus para Carol, que me olhava com os olhos tristes, e entrei. Rodrigo deu a volta, sentou no banco do motorista e ligou o carro. Suspirei fundo quando começamos a nos afastar, e ele me olhou de lado. — Bia? — chamou com suavidade. Era estranho ouvi-lo me chamar assim. — Pode me contar o que aconteceu? Contei tudo. Cada detalhe. Coloquei pra fora o que estava sentindo. Era doloroso demais saber que o homem que deveria me proteger era o que mais me feria. As lágrimas desciam, presas na garganta, enquanto eu falava. Rodrigo apertava o volante em alguns momentos — a raiva no seu rosto era visível. Mas ele não disse nada. Só me ouviu. E era exatamente disso que eu precisava: desabafar sem me explicar, aliviar o peso da alma. Quando terminei, um silêncio pesado tomou o carro. Olhei pra ele, buscando alguma reação, e foi então que percebi: ele estava todo arrumado, perfumado… claramente indo ou voltando de uma festa. — Desculpa se atrapalhei sua noite — murmurei, tirando-o dos pensamentos. — Você tá todo arrumado… — Estava indo pra uma festa — respondeu, sem me encarar. Ficou quieto depois disso, mergulhado em pensamentos. Quando chegamos ao portão de casa, ele estacionou em frente à garagem e me olhou. — Pode abrir o portão pra mim? — Você vai entrar? — perguntei, surpresa. Ele disse que estava indo a uma festa… — Sim — respondeu seco. Fiquei parada por um segundo, tentando entender. Será que ele desistiu de ir por minha causa? Nos encaramos por um instante. Aquele olhar dele… a intensidade que sempre me desestabilizava. Senti meu corpo se arrepiar. Trêmula, abri a porta do carro e saí com certa dificuldade. Respirei fundo do lado de fora, tentando controlar os nervos. Abri o portão e fiquei segurando até ele passar com o carro. Depois, fechei e tranquei. Rodrigo desceu, apertou o alarme e veio até mim. Ameacei me afastar, indo em direção à varanda, mas ele segurou minha mão e me virou de frente pra ele. Chegou bem perto. Seu olhar invadiu o meu como um furacão, bagunçando tudo por dentro. Senti minha pulsação acelerar. — Seu rosto está vermelho — disse, acariciando minha bochecha. Tremi com seu toque. — E-ele me bateu — gaguejei, lembrando-o do que contei no carro. Vi a raiva ressurgir em seus olhos. Ele engoliu seco, soltou minha mão e se virou de costas, entrando na sala sem dizer nada. Suspirei, tentando me acalmar, e o segui. Minha avó estava no sofá, ansiosa. — Bia, você está bem? — perguntou, aflita. Me sentei e a abracei. — Estou, não se preocupa — tranquilizei. Logo ouvimos a porta do quarto do Rodrigo bater com força. — Cadê meu avô? Pensei que ele fosse me buscar — perguntei, ainda confusa por Rodrigo ter aparecido. — Ele ia — minha avó respondeu —, mas o Rodrigo ouviu a conversa. Já estava saindo pra algum lugar, mas fez questão de ir buscar você. Ficou preocupado. Assenti em silêncio. Ele quis ir… Isso era novidade.
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