Capítulo 6

1828 Words
⸻ Eu não saí mais pra rua naquele dia. Queria fingir que nada daquilo tinha acontecido e fazer com que o Júnior — e aquela língua nojenta dele — ficasse bem longe de mim. Eu estava ciente de que minhas primas iam querer entender o que tinha rolado, e imagino que essa história tenha sido o comentário da noite. Só de pensar nisso me fazia querer nunca mais colocar os pés na rua de novo. Que merda que eu fui arrumar! No sábado de manhã, acordei bem cedo. Queria ter um tempo livre pra fazer minhas unhas. A festa era essa noite, e eu teria que aturar as conversas fiadas da galera da família do meu “querido papai”. No fundo, até gostava do pessoal. Dos meus primos, eu não tinha o que falar — somos todos muito próximos, de certa forma, e estar com eles tornaria qualquer incômodo mais leve. As minhas tias, por outro lado, gostam muito de saber da vida dos outros. Ainda mais se for a minha. Dizem não entender por que meu pai me odeia tanto, mas, no fundo, acho que sabem sim. Desde nova, já percebia que elas tinham um tratamento diferente comigo. Não que me tratassem m*l, mas era como se soubessem de algo, estivessem sempre prestes a dizer, mas no fim acabavam recuando. Na real, eu nem ligo mais. Nada justificaria todo o destrato que o Pedro sempre teve comigo. Agradeço a Deus por ter minha madrinha e não precisar viver debaixo do mesmo teto que ele. — Pode fazer minha unha também? — Isabelle pergunta. — Claro — respondi. Não teria coragem de negar isso à minha irmãzinha. No fim, fiz a unha dela, da Carol, da minha tia e da minha vó. Isso já era de se esperar. Sempre que tinha um tempinho, eu fazia a unha delas — eu sempre gostei. Cutilava, pintava, fazia florzinhas… elas amavam. Geralmente também faço a unha da minha mãe e da minha vó Gina. No almoço, minha tia Bete fez estrogonofe, e estava uma delícia. Acabei repetindo o prato e depois sentei no sofá pra descansar o almoço e ver um filminho. Não passou cinco minutos e Stefani apareceu na porta da sala. — Oi, oi, oi — ela disse, tirando o chinelo. — Oi, Teté — disse, dando espaço pra ela sentar do meu lado. — Cadê o pessoal dessa casa? — Minha vó Rita tá na casa de alguma irmã com minha tia Bete, Carol acho que tá com o Emerson, e Isabelle deve estar por aí brincando — respondi, e ela assentiu. — Bom que a gente pode conversar à vontade — ela propôs, e eu a encarei com tédio.— Ah, não faz essa cara pra mim. Me conta, Bia, o que foi que rolou ontem? — ela perguntou, curiosa. — Stefani, não se faz de b***a. Eu já tinha te falado, o beijo dele é péssimo. Sentir aquela língua tentando encontrar o final da minha garganta me deixou desesperada. Não sei o que deu em mim, só sei que queria sair de perto dele o mais rápido possível — disse, olhando pra televisão, tentando não lembrar exatamente o que senti quando o Júnior me agarrou. Se não, ia acabar chorando. — Eu entendo. Disse pra ele que não era pra ter te beijado daquele jeito, na frente de todo mundo — ela falou, e eu concordei. — Já pensou se minha tia visse? Ou alguém contasse pra ela? Garoto i****a! Tinha muitos motivos pra ele não me beijar daquele jeito — bufei, irritada, e ela assentiu. — De qualquer forma, agora você não precisa mais se preocupar com isso. Ele disse que não vai mais te beijar porque você fez ele passar vergonha na frente do pessoal — ela disse, e eu a encarei de boca aberta. — Ele não disse isso. — Disse! — Stefani balançou a cabeça, levantando a sobrancelha. — Que filho da mãe! Se eu soubesse, tinha gritado pra todo mundo ouvir que o beijo dele é horrível. Aí sim ele ia ter motivo pra se envergonhar. Ridículo! — bufei, com raiva. Poderia ter feito muito pior. Ter contado pra todo mundo sobre aquela língua nojenta que ele tentou enfiar na minha garganta. Mas eu jamais faria alguém passar esse tipo de vergonha. Por isso, desabei em casa, com minha irmã. E agora ele vem me acusar disso? Espero que esse garoto nunca mais apareça perto de mim. Stefani ainda ficou por lá mais um tempinho, até que o pessoal começou a chegar e ela foi pra casa. As horas passaram até que a noite chegou, junto com a hora de começarmos a nos arrumar pra festa. Como de costume, Carol me pediu uma roupa emprestada e ajuda com a maquiagem. Claro, se eu deixasse isso por conta dela, com certeza ia chegar igual uma palhaça. Eu coloquei uma calça jeans, uma blusa de alcinha com um cinto logo abaixo do b***o e um salto alto. Carol estava basicamente igual a mim — era a moda da época, não tinha como fugir disso. — Vamos? — Carol perguntou quando nós três já estávamos prontas. Concordamos e saímos no portão de casa depois que Emerson — namorado da Carol — chegou. — Fala, cunhadinha — ele me cumprimentou. Meu cunhado é gente boa, só é um pouco tímido. Mas comigo ele se sente à vontade pra brincar e conversar. Depois de ouvirmos todos os cuidados que minha tia Bete nos recomendou, finalmente seguimos nosso caminho. Era aniversário da nossa prima Priscila, e ela tinha alugado um salão bem bonito pra comemorar. — Ansiosa pra rever sua família? — perguntou a Carol, já perto do local da festa. Não era tão longe, viemos andando. — Não, tô normal — respondi, e ela sorriu, balançando a cabeça, andando de mãos dadas com Emerson. Eu não estava ansiosa. Talvez só um pouco apreensiva. Estava animada pra rever meus primos, mas definitivamente encontrar o Pedro me deixava tensa. Quando chegamos, logo dei de cara com meus primos. Humberto foi o primeiro a correr pra me abraçar, seguido pelo Wallace e a Simone. Nossa, como eu sentia falta deles. Os outros estavam mais lá dentro, e levantaram as mãos, animados ao me ver. — Vamos, eles estão doidos pra te ver — Simone disse, animada. Carol e Isa não estavam tão empolgadas, elas vivem se encontrando com eles. Mas eu fazia questão de abraçar um por um. Logo me chamaram pra matar a saudade, e eu fui de bom grado. A gente riu, zoou uns aos outros, falou besteira. O clima sempre foi ótimo com meus primos por perto — sempre me trataram como da família, diferente de outras pessoas. A festa estava animada, e apesar de não ter sido destratada por ninguém, ainda ouvi algumas conversas fiadas. Uma tia minha, em tom sarcástico, disse que eu tinha “sorte” de ter tudo que queria, mas que, se minha mãe não vigiasse, podia acabar me estragando. Outra disse, com ironia, que eu estava ficando com a cara da família da minha “madrinha”. Era cansativo. Parecia que queriam me diminuir por ser criada fora da família. Como se eu fosse o patinho feio. Mas era o contrário. Eu tinha orgulho da mãe que eu tinha e agradecia a Deus por ela ter me escolhido — todos os dias da minha vida. Eu sei exatamente quem eu sou. Não n**o minha família biológica, como eles insinuam. Tenho lembranças lindas da minha mãe e da minha infância, e jamais me esqueceria dela. Mas, se não fosse minha madrinha, nem sei o que o Pedro teria feito de mim. Eu apenas sorria e acenava pra elas, sem prolongar a conversa ou contar nada sobre minha vida — e acho que isso as deixava ainda mais enfurecidas. Esse era um dos problemas com meu pai: parecia que ele odiava que eu fosse criada longe de casa, mas também odiava me ter por perto. Talvez quisesse que eu tivesse sido abandonada num abrigo e ele recebesse a pensão que minha mãe deixou. Não sei. O desgosto que ele nutre por mim ainda é desconhecido. Pelo menos, pra mim. Minha mãe sempre desconversa quando pergunto. Ela diz que meu pai nunca foi uma pessoa boa, só direcionou o ódio que sente por ele mesmo a mim. Graças a Deus, nada disso estragou a festa. Estava tudo lindo e perfeito, do jeitinho que a Priscila queria. Eu via o Orkut dela e sabia que ela estava animada com essa festa. Eu e meus primos caímos na pista de dança e nos divertimos. Não curtíamos juntos fazia alguns anos, e parecia que estávamos tirando o atraso. — Achei que não viesse, já que não faz parte da família — uma voz familiar surgiu atrás de mim. Senti os cabelinhos da minha nuca arrepiarem. Me virei devagar, já sabendo o que me aguardava. Pedro me olhava sério, deixando uma nuvem escura no ar. Eu sentia o medo percorrer minhas veias, deixando meu corpo dormente. — Priscila me convidou — senti necessidade de dizer, mesmo sabendo que ele já tinha noção disso. — Ela chamar suas irmãs eu entendo. Agora você? Seus parentes são aquele povo lá da sua madrinha — ele começou, com aquele desdém de sempre. Eu sabia que dessa conversa não sairia nada de bom. Pedro parecia ter me posto no mundo só pra me humilhar, e eu sabia que o plano dele era fazer isso ali, na frente de todos. Como não queria fazer cena e acabar com a festa da Priscila, dei as costas e tentei me afastar. Mas tudo que ele queria era cena. E foi só eu me virar que senti suas mãos apertarem minha nuca, me puxando pra trás com força. — Ai! — gritei, sentindo meu pescoço doer. — Quem você pensa que é pra me dar as costas assim? — Pedro disse, me virando de frente pra ele e segurando firme meu braço. — Me solta — pedi, com a garganta queimando e o choro preso. Nos entreolhamos. Eu só via ódio nos olhos dele. Parecíamos dois inimigos. E eu não fazia ideia de como tudo aquilo havia começado. Só sabia que já estava nessa situação há tanto tempo… que não conhecia nenhuma outra. — Eu posso te dar uma surra se eu quiser. Sou seu pai — ele disse entre os dentes, e eu explodi. — Que pai é esse que vive dizendo que eu não sou da família? Qual é o seu problema comigo? Sua raiva é porque eu fui criada pela minha madrinha? Foi você que me deu pra ela! Eu não tenho culpa se ela me ama muito mais do que você, que me fez! — cuspi as palavras, amargas, na cara dele. Enquanto falava, vi o rosto dele se transformar na minha frente. Naquele momento, soube que tinha atravessado uma fronteira perigosa. E me arrependi de tê-lo confrontado…
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