Passei a noite inteira fugindo do Júnior. Estava envergonhada. Não queria ter que dizer a ele que não tinha gostado do beijo. E o pior de tudo: ele parecia estar convencido de que tinha sido ótimo.
Ai, Deus…
— Você precisa falar com ele — sussurrou Stefani pra mim.
— O quê? Claro que não! Até porque, eu diria o quê pra ele? “Júnior, não dá mais pra gente ficar, seu beijo é horrível e eu odiei”? — perguntei, apavorada, e ela começou a gargalhar. — Para com isso, garota! — repreendi, vendo que a risada dela chamou a atenção do pessoal, que virou na nossa direção. — Ele vai perceber que estou falando dele, cara — sibilei entre os dentes e, sem querer, acabei olhando pro Júnior. Mas ele nem estava prestando atenção. Estava no meio da rua, jogando bola com os meninos.
Tínhamos acabado de terminar uma partida de queimado e estávamos esperando os meninos finalizarem o futebol pra jogarmos pique-bandeirinha.
— Vocês sabiam que a Larissa — filha da madrasta do Matheus — é apaixonada pelo Willian? — comentou Renata, uma menina aqui da rua.
— Sério? Mas ele não tava namorando a Thaís? — perguntou Monique, nossa prima.
— E o que tem a ver? É ela que tá apaixonada por ele, não o contrário — Renata respondeu, franzindo a testa.
— Mas é uma tremenda maluquice se apaixonar por alguém comprometido — protestou Monique.
— Vocês se surpreenderiam se soubessem a quantidade de gente que gosta de pessoas comprometidas nesse mundo. Além disso, vocês são muito bobinhas se acham que algum desses garotos é fiel a alguém — disse Amanda, minha prima mais velha.
Ela já tem 21 anos e sempre solta algum conselho — meio arrogante, confesso. Quase nunca senta com a gente, provavelmente só veio por causa da minha irmã Carol.
— Matheus não fica com ciúmes? — perguntei, entrando no assunto.
— Não. Dizem que o Matheus tem pavor dela. Talvez já veja como uma irmã — respondeu Monique, dando de ombros.
— Mas eles nem são irmãos de sangue — observou Stefani.
— Mas foram criados como se fossem. É quase a mesma coisa — ponderou Carol.
— Deve ser estranho, né? Uma pessoa entrar assim na sua vida, morar na sua casa, ter quase a mesma idade que você… e forçarem vocês a terem sentimentos de irmãos. E se eles se apaixonarem? — Stefani refletiu, pensativa.
Minha mente voou até o Rodrigo. Nem sei por quê. Nem estava pensando nele.
— Não acho que seja possível. É tipo se apaixonar pelo próprio irmão — Monique fez uma careta de nojo.
— É… é estranho — falei, meio pensativa.
— Vocês não vão querer jogar, não? — gritou Willian, lá do meio da rua.
— Siiiim! — gritei, me levantando de uma vez. As meninas vieram logo atrás. Carol e Amanda ficaram sentadas, fofocando e observando a gente.
Senti o olhar do Júnior em cima de mim. Fingi que não percebi. Só queria que ele me esquecesse logo e não tentasse me beijar de novo.
Começamos a tirar os times e acabei ficando no time oposto ao dele. E eu não sabia se isso era bom ou r**m. Júnior estava do outro lado do “campo” improvisado, feito com pedaços de tijolo riscados no chão. Seu olhar caiu sobre mim, brilhando com possibilidades. Seus lábios se curvaram num sorriso malicioso de lado.
Senti meu estômago revirar.
Onde eu estava com a cabeça? Era bem feito. Olha o que o desespero de arrumar um namorado me causou. Bem que a Marciele me avisou que eu ia quebrar a cara…
— Vamos começar? — perguntou Willian, e todos concordamos.
Era sempre assim: quando o jogo começava, a adrenalina subia. Olhei pra Stefani, e ela fez um sinal com a cabeça na direção da Renata. Vi a garota quase pisando no nosso lado do campo. Ameaço ir pra cima dela e ela recua.
— Bora, gente! Tem que invadir! — gritou Jonas do meu lado, me fazendo levar um susto.
Willian e Monique invadiram o campo deles e acabaram sendo colados. Nathalia conseguiu entrar no nosso lado e também foi colada. O único que conseguiu chegar até a bandeirinha foi Matheus — que era do time rival.
— Alguém salva aqui! — gritou Willian, lá do campo rival.
— Eu vou ter que ir lá — avisei pra Stefani, que estava de olho no Matheus comigo.
— Cuidado… olha quem tá lá te esperando — ela disse, fazendo eu reparar no Júnior.
Ele estava na linha, dentro do campo deles, protegendo a fronteira. Sabia exatamente qual era a minha intenção. Vi seu sorrisinho quando me virei e avancei uns passos.
— Eu vou pegar você — disse, rindo, divertido.
Ai, meu Deus…
— Anda! Ele não vai te alcançar! — incentivou Willian.
Eu não queria que o Júnior encostasse em mim. Tinha começado a sentir uma repulsa, por mais que me sentisse m*l por isso. Ele era um cara legal. Só… não sabia beijar.
Corri pro campo deles. Ele tentou me cercar. Dei um drible e voltei pro meu lado.
— Tá com medo? — Júnior provocou, sorrindo.
— Você não larga o osso… sai do meu pé, cara! — falei com raiva.
Ele parecia ter esquecido do resto do jogo e focado só em mim.
— Ôôô, dá espaço, menor! Deixa a mina jogar! — gritou Willian. Júnior deu dois passos pra trás, sem tirar aquele sorrisinho da cara.
Ele tava de maldade comigo…
Calculei toda a rota até onde Willian e Nathalia estavam. Ia ter que usar o círculo da bandeirinha.
Vai dar certo!
Corri na direção da Nathalia. Júnior veio igual um doido. Dei a volta nele e disparei pro outro lado, colando o Willian. Júnior ficou atordoado, sem saber se me colava ou se ia atrás dele. Escolheu ir atrás de mim. Quando veio na minha direção, pulei no círculo. No momento em que virou de costas, saí correndo e descolei a Nathalia. Willian conseguiu atravessar pro nosso lado. Júnior voltou correndo atrás de nós duas. Me segurou pelos braços e sorriu:
— Eu falei que ia te pegar.
— É, mas você perdeu — falei, sorrindo vitoriosa. Entreguei a bandeirinha à Nathalia antes de ser colada. Ela correu e passou pro nosso lado.
Nosso grupo começou a comemorar e Júnior ficou de boca aberta, olhando a cena.
— Você me enganou! — disse, me encarando.
— Não. Você que não prestou atenção — sorri, debochada. Mas quando vi ele olhando pra minha boca com malícia, meu sorriso se desfez na hora.
Não… Ele não vai…
Júnior segurou meu rosto e atacou a minha boca. Ao nosso redor, todos começaram a gritar, eufóricos. Eu prendi a respiração e fechei os olhos com força. A língua dele tentou me invadir de novo. Empurrei ele com raiva. Júnior cambaleou pra trás, surpreso com minha reação, e eu comecei a limpar a boca, furiosa. Meus olhos se encheram de lágrimas e saí correndo pra dentro de casa.
— Bia?! — ouvi Caroline me chamar, mas não liguei.
A raiva tomou conta de mim e comecei a chorar. Passei direto pro quarto, ouvindo minha avó perguntar o que tinha acontecido. Também não respondi. Me joguei na cama da Carol e me cobri com o lençol.
Não sei o que deu em mim. Só sei que eu não conseguia parar de chorar.
— O que foi, Bia? — ouvi a voz da Carol.
— Nada! Me deixa em paz! — gritei, chorando.
— Por que você tá chorando? Você não gostou do beijo? — ela quis saber.
Eu queria gritar. No fundo, eu não podia sentir raiva do Júnior. Eu que não falei nada. Eu tinha até prometido que a gente ficaria de novo hoje à noite. Mas me sentia tão m*l, tão suja… estava com nojo de mim mesma.
— Bia? Conversa comigo — Carol insistiu.
A gente sempre foi muito próxima. Eu sabia que podia confiar nela. Talvez ela tivesse algo inteligente pra me dizer. Ela era mais experiente que eu. Tirei o lençol do rosto, ainda chorando, e encarei ela.
— O que aconteceu? — ela se sentou ao meu lado na cama.
— Eu não gosto dele — as lágrimas desceram de novo pelo meu rosto.
— Então ele te agarrou à força?! — ela arregalou os olhos, pronta pra voar no Júnior se eu dissesse que sim.
— Não! — respondi na hora, e ela franziu a testa, confusa. Suspirei fundo antes de explicar: — A gente tava se paquerando e acabamos ficando hoje cedo. Mas eu não gostei… — funguei. — Ele beija muito m*l.
Carol não aguentou. Caiu na gargalhada.
Fiquei com raiva da reação dela e me joguei de novo na cama, me cobrindo.
— Não! Desculpa! — ela tentou parar de rir e puxou o lençol de cima de mim, me fazendo sentar. — Me conta. Você falou pra ele que não gostou?
— Não tive coragem — respondi, envergonhada, limpando o rosto. — Acabei deixando ele pensar que eu gostei… e que a gente ia ficar de novo hoje à noite — confessei. Ela balançou a cabeça, compreendendo.
— A melhor coisa é sempre ser sincera sobre o que você sente. Isso poderia até ajudar ele — ela disse.
Franzi a testa.
— Se ele não souber que beija m*l, nunca vai tentar melhorar — completou. Respirei fundo.
Não sei se conseguiria dizer isso na cara dele. Deve doer.
— Vou pensar… — falei, e ela assentiu.
— Agora sai de cima da minha cama com esse suor podre e esse pé imundo — ela me empurrou pra fora da cama dela, e eu caí na da Isa.