NARRAÇÃO DE JHONNY...
Normalmente, quando volto de uma missão, minhas mãos ficam sujas de sangue. É uma merda. Odeio ficar esfregando os dedos até sair toda a mancha de sangue debaixo das minhas unhas. Principalmente porque, depois do banho, costumo jantar. Particularmente, odeio jantar com minhas unhas sujas do sangue dos inimigos.
Mas a missão foi leve. Sem torturas, apenas fizeram um bom almoço de cartas...
Aposto que irão esperar a nossa saída apenas para correrem ao hospital e fazerem uma limpeza estomacal.
A volta foi mais tranquila do que a ida. Alexander deu uma trégua e dormiu durante a viagem. Gabriel ficou no telefone falando com a esposa, e Nicolás conversava com Rodrigo, tentando acalmá-lo, já que ele estava tenso. O moleque não está acostumado com a máfia, e lá estava Nicolás passando paz.
Aproveitei para pegar meu celular e enviei uma mensagem para Sebastian, o capanga mais velho da fazenda. Inclusive, foi ele quem apanhou por ter escondido aquilo de mim.
— Como a garota está? — enviei, preocupado. Ele visualizou no mesmo segundo.
— Se isolou no treinamento. Não para de bater no saco de pancadas.
— Deixe ela. Precisa extravasar.
Enviei a mensagem e suspirei, fechando os olhos, aproveitando o silêncio dentro do avião. Mas meu celular vibrou novamente. Peguei de imediato e sorri ao ler o nome da minha filha.
— Pai, vai demorar para chegar? Quero tomar um café da tarde com você. Quero conversar um pouco.
Sorri ainda mais. Desde que Árya teve crises de ciúmes quando decidi ajudar Maxine, tivemos uma conversa séria e nos acertamos. Na verdade, ficamos ainda mais próximos do que já éramos.
— Oi, meu amor. Estou a caminho. No máximo, em uma hora estarei batendo na sua porta.
Relaxei depois de enviar aquela mensagem. Fechei os olhos e voltei a descansar.
Chegando à fazenda, saí do carro ansioso, despedi-me de todos e segui para a casa da minha filha. Provavelmente minha mulher estava ajudando no café da tarde. Eu estava faminto, já que não almocei.
Bati na porta, e ela abriu rapidamente, empolgada. Abracei-a apertado. Sempre que volto de uma missão, fico louco para abraçar minha filha e minha esposa. Nunca sei se voltarei vivo após uma missão.
— Minha mãe está na cozinha terminando de arrumar a mesa.
O cheiro de café era convidativo.
— E o meu neto?
— Está dormindo. Ficou lutando contra o sono durante o dia e acabou dormindo agora.
— Legal. — Sorri entrando na casa.
— Amor? — chamei enquanto caminhava até a cozinha.
Ela apareceu na porta sorridente e também me recebeu com um abraço apertado. Observei a mesa farta e relaxei os ombros.
— Estavam adivinhando. — falei seguindo até a mesa e pegando um salgado.
Sentamos juntos e tomamos café como sempre fazíamos antes de Árya se casar.
— Pai... — Árya quebrou o silêncio depois de bebericar o café.
— Sim? Está tudo bem? Disse que queria conversar.
— Eu... bom, queria me aproximar de Maxine. Tentei animar as meninas, mas elas não se sentem à vontade. Afinal, Maxine nunca conversou com elas. Mas eu não sei como fazer isso... simplesmente travo quando vejo ela caminhando pela fazenda, principalmente porque anda com alguns capangas atrás dela.
— Não fique pensando muito. Se sentir vontade de falar com ela, apenas vá. É importante.
— Entendi.
— Agora preciso falar com Amanda, minha irmã. — Limpei a boca com o guardanapo enquanto me levantava. — Hum... quase me esqueci. O filho do Peter está a caminho.
— Ah... legal. — Árya forçou um sorriso.
Achei sua reação estranha. Jade levantou e me deu um selinho.
— Não demora! Eu sei que, quando se junta com Gabriel e Nicolás no pub, acabou...
— Se eu for ao pub, prometo que serei breve.
Árya riu junto com Jade. Elas já estão acostumadas com minha rotina.
Saí de casa e decidi ir primeiro até a área de treinamento. Ainda continuava preocupado com Maxine.
Pelo horário, ela devia ter passado o dia inteiro treinando depois de assumir para mim todos os seus traumas.
Abri a porta e a observei lutando pesado com o treinador. Ela chutava com força, socava, enquanto ele apenas se defendia. Mas caiu quando ele lhe deu uma rasteira. Continuei parado, esperando que ela levantasse e reagisse à altura.
E ela reagiu.
Levantou ofegante e chutou o treinador com força, mas ele se defendeu colocando o braço na frente. Maxine gritou ao sentir o impacto na canela. Sentou-se no chão, gemendo de dor enquanto tirava as luvas de treinamento.
Aproximei-me a passos lentos.
— Está muito verde. Quer lutar sem pensar, sem se defender. O que você tentou fazer contra ele acabou voltando contra você. Quando atacar, precisa estar atenta aos movimentos dele. Seja ágil como uma cobra dando o bote.
Enquanto eu explicava, ela continuava respirando ofegante, esfregando as mãos na canela machucada. O treinador profissional olhou para mim e me cumprimentou em sinal de respeito.
— Ela precisa de uma pausa. Hoje está nervosa e descontando tudo no treino, mas de uma forma em que não aprende... apenas apanha.
Ele falou enquanto pegava alguns materiais de treinamento e se afastava completamente suado.
Olhei para a canela roxa de Maxine. Ela usava um short de lycra e estava descalça. Fungava enquanto secava a testa, ainda ofegante. Ela apanha, mas não chora. Já ganhou pontos comigo.
— Minha irmã vai conversar com você.
— Eu não quero que ninguém saiba o que passei. — Ela falou enquanto levantava mancando de dor e procurava os sapatos no canto do tatame.
— Não se preocupe. Minha irmã sofreu muito mais. Não há comparação.
Ela parou de colocar as meias e me olhou menos na defensiva.
— Lembre-se do que eu falei. Precisa tratar aqui. — Apontei para minha cabeça, mostrando que ela precisava cuidar da saúde mental. — Depois que sua cabeça estiver bem, tudo flui. Aprende a lutar sem apanhar. E outra... minha filha está tentando se aproximar, mas está sem jeito. Convide-a para ir ao pub. Eu e Jade ficaremos com o nosso neto.
— Certo. Vou convidá-la.
— Beleza. Agora vou falar com minha irmã. Tenha uma boa noite.
Afastei-me, focado em pedir ajuda para ela.