Ideias mirabolantes - Samuel Ferraz

1309 Words
— Essa foi a melhor ideia que eu tive. — Você quer dizer a primeira em todos esses 32 anos, certo Ricardo?  — Foi boa para vocês. — Reclamei ao me deitar na maca, soltei o ar ao sentir a maciez e confortabilidade do colchão. Toda aquela dor e sintomas não eram nada mais, nada menos que uma bela infecção na coluna, extensão de uma pneumonia m*l curada. Sim, eu chorei e até pedi para ver a minha mãe quando dei de cara com a agulha entupida de antibiótico para tratar essa dor. Precisou que os meninos me segurassem para aplicá-la. Eu já estava pensando em como seria para sair dali já que os médicos viram o meu rosto e as meninas levaram as máscaras para casa. Até que o Ricardo teve a ideia de se maquiar e ficar cheio de "hematomas" para tirar a atenção de mim e jogá-la para si. Oque é realmente muito nobre. E inteligente demais para o Rick.  — Deixa de resmungar, quem vai sair como fracote sou eu. — Ricardo se jogou na poltrona, empurrando o Edu que já estava se preparando para sentar. Ele lançou um olhar feio para o outro, que só riu. — Demorou, perdeu lugar... — Olha que eu vou fazer esses hematomas virarem verdade... — Parem, parecem dois cachorros.Querem mijar na cadeira, não? — Resolvo interromper antes que esses dois se matem e, no lugar de apenas uma maca, o hospital tenha que providenciar mais duas. Porque, convenhamos, o ninja dos números ganharia do ninfomaníaco narcisista em dois milésimos. A não ser que alguém xingasse a maluquinha da garota dele, o cara vira um bicho.  — Desculpa. — Disseram em uníssono e eu sorri convencido. Adorava ser o líder dessa matilha de lobos doidões. Mas, ultimamente nem o meu extinto de liderança consegue preencher o vazio que a minha doce Perséfone deixou em meu peito. Ela me marcou como um fazendeiro marca o gado. Ainda sinto a queimadura recente do seu nome em meu coração. Ardente. Como ela. A porta abriu e eu virei, estranhando a Sofie pálida que encontrei.  — Meninos saiam daqui, preciso falar com o Sam a sós. — Ordenou e automaticamente eles se levantaram. É até meio engraçado o poder de persuasão que ela tem sobre os dois. Não comigo. Ela até se chateia com esse detalhe. Eu não a obedeço, depois de passar na mão da Emily, nenhuma delas me impressiona o bastante. Ainda não sei oque realmente Emmy tem de tão especial. — Oque foi? O médico disse que o Samuel só alguns dias de vida? — Choramingou o Ricardo, se agarrando no braço do Edu, que o olhou estranho e tentou se afastar. Mesmo diante da cena cômica, a Sof não deu um meio sorriso.  — Não. — A fala foi tão fria que eu até me arrepiei. — Por favor, saiam logo.  Os caras só assentiram e se foram o mais rápido que podiam. Me sentei com cuidado na maca, já imaginando que ela estava ali para reclamar da ideia louca que o Ricardo teve e que não era para termos feito nada sem consultá-la. Estou tentando me acostumar com esse lado controlador dela. — Olha, eu achei a ideia do Ricardo muito inteligente, até demais para ser verdade, e resolvi botá-la em prática o mais rápido possível. A imprensa já estava ficando maluca sem me ver por aí. — Expliquei o mais calmamente que pude, estava rezando que ela não encucasse com isso. — Você me entende? — Sim, mas não eram para ter feito sem m... — Grunhiu, passando a mão pelos fios negros e bagunçando-os. Não entendi a reação exagerada. — Samuel, eu não quero falar sobre isso, é sobre a... — O médico realmente disse que tenho dias de vida? — Falei em um fio de voz, interrompendo-a. — Eu não vou morrer em paz se não ver a minha Emily... — Levei as mãos até o rosto. Só a ideia de partir, deixá-la e ela encontrar outra pessoa me fazia ter pensamentos completamente homicidas. Nem que eu viesse como assombração, mas eu impediria que isso acontecesse. Seria um Ghost um pouco mais raivoso e óbvio, com direito aquela música f**a. — Ooooh, my loove... My darling... — Cantarolei, lembrando daquela cena da argila.  — Para de me interromper, homem! — Reclamou, me estapeando. Fiz uma pequena careta, encarando-a. Alguém conta pra essa louca que eu estou em um hospital e não posso apanhar atoa? — Prossiga, vossa excelentíssima. — Eu falei com a... — Com quem? Alguém da Vila Sésamo? Se foi com o elmo, me diz... Ele é legal mesmo? — Eu falei com a Emily, Samuel! — Falou e eu comecei a rir alto. — É impossível, eu lembro muito bem quando a Emmy disse para eu deixá-la em paz. Com toda aquela coisa meio melodramática de "Me deixe livre, eu te amo mas preciso ir". — Comentei, ainda rindo. Porém, a minha risada morreu quando olhei para a feição séria de Sofie. — É mentira, não é? — Não, Sam. Ela ligou porque acha que algo aconteceu com você. Eu tive que mentir para não dizer que você caiu de m*l jeito quando estava dançando na Los Demons. — Ela sussurrou, para não correr o risco de ter alguma escuta da imprensa dentro do quarto. Coisa de filme, eu sei. Mas vai que acontece.  Arregalei os olhos. Primeiro como ela sabia que algo havia acontecido comigo e segundo...  Acho que vou ter um infarto.  — C-como ela sabia? Alguma de vocês disse?  — Óbvio que não... Isso é muito estranho. É como se e a Emmy tivesse sentido que você quase se desmontou todo lá no palco. — Devaneou um pouco, me olhando. Eu só conseguia pensar nela. Emily se preocupou, por mais que eu não saiba como ela fez isso, apenas com esse pequeno gesto eu consigo ver uma esperança. Sempre há uma luz no fim do túnel, não tem como se livrar de um amor tão grande de forma rápida. Não existe remédio.  — Samuel, você está me ouvindo? — Qual foi a resposta do público? Positiva ou negativa? Sofie revirou os olhos e cruzou os braços. — Elas jogaram calcinhas e rios de dinheiro em vocês. — Entrouxou a boca com ciúmes do Eduardo. Realmente, nós praticamente tomamos um banho de cédulas. — Claro que foi positiva. Tanto que já adiantaram que, se o próximo show for bom, vão para sede. — Deu de ombros e eu comecei a fazer a minha dancinha da vitória. — AI! CONSEGUIMOS! — Ergui os braços, sacudindo-os de forma exagerada e louca. Sofie me encarava como se fosse ligar para o manicômio a qualquer minuto. — Hmmmm.... Sam? Não parei de me mexer, fiz uns movimentos estranhos com a mão e ela se assustou. — Lembra que perguntou se eu tinha falado com alguém da Vila Sésamo? — Sim... — Aquiesci, sorrindo. — Ainda não acredito que conseguimos... UHUL! — Acho que eu conheço o Elmo... — SÉRIO? ME APRESENTA?! — Gritei. — É VOCÊ! — Berrou e eu parei, me olhando.  — Mas eu não sou vermelho... — Falei e a Sof afundou o rosto nas mãos, me encostei da almofada. Ainda não conseguia tirar o sorriso b***a do rosto. Ela tinha ligado pra mim, eu vou conseguir ir até a Itália. Vou recuperar o amor da minha existência. — Ai, ai. — Lembre-se, você tem outra estratégia e outro tema pra bolar. Alarguei ainda mais o meu sorriso. — Credo, Ferraz. Fiquei com medo desse sorriso de serial killer ai. — Murmurou, indo até a porta. Puxei o meu caderninho, que estava no pequeno criado mudo ao lado da cama.  — Eu já sei qual é que vai ser o tema. — Então... Mãos a obra, Safiras de Seda. 
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