Don't you forget about me
(Não se esqueça de mim)
I'll be alone, dancing you know it, baby
(Eu estarei sozinho, dançando - você sabe disso, amor)
Going to take you apart
(Vou desmontar você em pedaços)
I'll put us back together at heart, baby
(Eu nos construirei de volta juntos, no coração, amor)
As you walk on by
(Enquanto você seguir)
Will you call my name?
(Você chamará meu nome?)
— Don't You Forget About Me - Simple Minds.
— Uou. — Rafael soltou o poste, levando as mãos ao peito. Encaro tudo com o cenho franzido. Eu que me entupo de besteiras e esse mister fitness que infarta? Como é isso, produção?
Estranhando um pouco a demora dele para sair daquela posição, me levanto. Tinha que ver o que estava acontecendo, a última coisa que gostaria é vê-lo empacotar na minha frente. Já tenho traumas suficientes, obrigada.
Cautelosamente, pus a mão no ombro dele. Agora de perto podia ver que algumas lágrimas corriam pelo rosto pálido. Parecia desolado.
— O que houve, Rafa? — Tentei ser o mais suave possível. Não estava acostumada a ver homens chorarem, só o Samuel quando ia a lanchonete e o pudim tinha acabado. — Me conta...
Seus olhos encontraram os meus, a noite parecia ter atingido o azul daquele olhar. Estava obscuro, podia jurar ter visto até uma pequena neblina.
— Um aperto... Uma angústia... — Sussurrou, apertando as mãos contra o peito. — Emmy... Algo aconteceu com o meu irmão. — Soluçou como um bebê, se agarrando o máximo que podia a aquele poste. Eu só consegui tentar digerir a imagem que eu estava vendo e a possível notícia de algo relacionado a ele. A quem tanto batalho para tirar de minha mente, corpo e coração e que, mesmo assim, permanece marcado em minha alma. Simplesmente não podia demonstrar alguma forte emoção a não ser compaixão para com o Rafael. Ele notaria e, esperto como é, logo deduziria o que aconteceu e porque eu não rejeitei a ideia de passar um temporada aqui na Itália.
Sem pensar muito, enlacei meus braços envolta do pescoço dele, o puxando para um forte abraço. Sim, eu estava esperando que isso só fosse uma crise e não um tipo de premonição estranha que o Rafa pode estar tendo. Só o pensamento que algo pode ter acontecido com o Samuel faz meu coração se contorcer em uma dor agoniante. As lágrimas do caçula Ferraz molhavam minha regata e eu lutei o máximo para não seguir o seu mesmo caminho.
— Não quero perder mais ninguém... Eu não aguentaria... — Em cada pausa ele soluçava sofregamente. Aquilo era realmente estranho, há alguns minutos, ele estava rindo e tirando uma com a minha cara, agora está desolado em meus braços, falando coisas desconexas e... Sinceramente?
Me deixando muito assustada.
— Emmy... Faz um favor para mim?— O tom de voz dele era tão desesperado que foi impossível abrir a boca e emitir um sonoro "não". Os braços deles estavam me apertando como se eu fosse o último fio de esperança existente em sua vida. E sim, isso significa um abraço quase comparado ao de uma jiboia. Sufocante.
— Se você afrouxar um pouco o aperto, posso até pensar... — Respondi em um só fôlego. Rezando mentalmente para que ele não levasse a m*l, até porque do jeito que está sensível, pode achar que estou o rejeitando ou algo do tipo. Sendo que, a única coisa que quero, é respirar um tiquinho.
Rafael pareceu se dar conta que estava me fazendo de ursinho de pelúcia e se afastou, me deixando respirar fundo e ficar aliviada. Olhando para o seu rosto agora, a compaixão me arrebatou por completo. Não é que eu seja a pessoa mais altruísta do mundo, mas que eu simplesmente, não aguento vê-lo assim. É o momento de esquecer as diferenças e dar a devida atenção as coisas importantes.
Ele passou a mão no nariz avermelhado, fungando baixo. Toda aquela pose de dançarino fodão havia esparecido junto com o ar. Agora, aparentava um menino assustado, que se perdeu dos pais dentro de um imenso shopping e está aqui, me pedindo ajuda para encontrá-los.
Para se encontrar.
— Pronto, pode falar. — Sabe quando você dá um sorriso esperando receber outro? Então. Os olhos azuis escuros piscaram algumas vezes e a sua boca entreabriu, como se estivesse calculando o que iria pedir. Só espero que não peça um beijo. Do jeito que estou carente, sou capaz de consolá-lo e depois me arrepender.
— LigaParaOSamuelPraMim?
— Hã? Fala devagar ou vou ter que colocar legenda em você. — Revirei os olhos.
— Você pode ligar para o Samuel? Só para saber se ele está bem... — Tentou justificar mas já era tarde demais. Como dizia a Becca, "meu queixo já estava no chão e o coração na mão". Eu não posso dizer um "Nem pensar, Rafael. Não posso ligar para o seu irmão mais velho. Sabe porque? Porque ele é o amor da minha vida e depois de mentir e bagunçar a vida dele, estou tentando e falhando no dever de esquecê-lo."
Então, antes de sair correndo do estúdio, eu simplesmente sorri amarelo e disse:
— Claro.
Como sou burra.
Se fosse na época do jardim infância, faria questão de pôr um chapéu ridículo e cheirar a quina da parede gelada pelo resto da vida. Só para me auto punir e tentar compensar as burradas que cometo.
Coloco nos contatos do meu celular a total contragosto. Sabe quando você deseja que um cometa passe e atraia a atenção toda para ele, só para você não ter que fazer aquela coisa? Tudo eu que queria era que esses dois irmãos se comunicassem via telepatia. Me pouparia os vestígios de dignidade que ainda me restam.
A foto do olho cristalino de Samuel aparece e meu coração aperta de saudade. Solto um sorriso com o nome escrito no contato "Poderoso Chefão". Por um momento senti falta das saias longas e dos óculos ridículos. Do meu escritório colado junto com o dele. Dos nossos almoços exagerados que necessitavam de uma boa dose de antiácido logo após. Ou a maneira que ele ria por causa da minha maneira estranha de dar risada. Porque, convenhamos, eu pareço uma porquinha com congestão nasal.
Aperto a tecla de chamar com as mãos mais geladas que o próprio Alasca. O som de chamada bipa algumas vezes até ser atendido por uma tom feminino que não demoro a reconhecer. Sofie.
— Emily? É v-você? — Ouvir a voz irredutível e séria da minha querida amiga trepidar, faz meu coração dar alguns pulos dentro do peito. Ela não estava acreditando que era eu. Depois de tantos meses longe, ansiei por seu abraço e alguma das suas broncas. — Você está bem? Eles estão te obrigando a algo?
— Não se preocupe comigo. — Forcei a minha voz a sair, precisava organizar minhas ideias. Não posso deixar que a saudade das minhas amigas tire o que realmente tenho que fazer, de foco. — Sofie, me diz... O Samuel está bem?
— Só morrendo aos poucos com a sua ausência... Porque está ai? — Perguntou e eu soltei o ar, cansada de esconder parte da verdade. — Eles m*l deixavam a gente usar celular...
— Meu pai é o "chefe", Sof. Estou na minha antiga casa com ele...
— Depois de tudo que ele fez com você, Emily?
— É uma longa história. — Falei de uma vez, ouvindo-a bufar. Escutei o barulho daqueles medidores de pulsação cardíaca hospitalar. Um "pii pii" chato chamou minha atenção e imediatamente, senti o meu batimento acelerar. O que havia acontecido? Garanto que a Becca não mandou ninguém para o hospital. Não dessa vez. — Que barulho de hospital é esse, Sofie? O que está me escondendo?
— Nada, só estou fazendo um exame de rotina. Sabe, venho dormindo com o Eduardo e quero ver se está tudo em seus conformes lugares. — Ela m*l hesitou ao pronunciar cada palavra. Ficava difícil detectar uma mentira vinda da Sof. Ela sempre soube mentir muito bem. As vezes, até ela acreditava.
— Hum.
— Tenho que desligar, o médico está vindo. Até logo. — Desligou, sem me dar a chance de ao menos me despedir. Não podia evitar o pensamento de que ela está ocultando algo importante de mim. Será que está grávida? Monitores cardíacos só são usados em casos desse tipo...
— Cetim?
A voz do Rafael me fez soltar o celular e pôr a mão no peito. Tomei um baita susto. Sei que se ele ouvisse a minha conversa com a Sof, iria correndo contar ao papai que eu ainda mantenho contato com as outras duas participantes do trio.
Me viro, ainda com a respiração extremamente acelerada. Os cabelos negros dele estavam molhados e o corpo coberto com uma camisa social comum e uma calça jeans surrada.
Sem nenhum sinal da máscara.
— Fiu, fiu. — Assobiei, fazendo-o soltar uma pequena risada. — Alguém aqui vai sair. Quem é que vai para o abate, tigrão? — Eu mesma ri do que falei, era uma completa idiotice, mas só queria garantir se ele realmente estava bem. Não gostaria de vê-lo chorar novamente. É estranho.
Rafael só sorriu, bagunçando o cabelo e respigando água em mim. Grunhi.
— Vai molhar a tua b***a no chuveiro!
— m*l-humorada. — Se aproximou e eu me sentei na mesa. Meu escritório era pequeno, só para dar uma olhada nas finanças do Clube. E como é de se esperar, todo em preto e vermelho. Meu pai anda meio obcecado com essas cores. Estou com medo de acordar e todo o meu guarda roupa se resumir a esses tons.
— Vim te convidar para jantar.
— Não estou com fome. — Meu estômago resolveu desmentir a minha afirmação. Ultimamente, venho tentado comer menos. Depois daquela crise percebi que preciso entrar em consenso comigo mesma, me ocupar e parar de descontar minhas frustrações e dores em hambúrgueres, tortas e etc. Não que isso seja fácil. Só não é impossível.
— Vou dizer ao Tony que você não quer comer. — Disse, em tom vencedor. Pior que o Rafael no meu pé, seria o papai e aqueles brutamontes dele. Até os seguranças pegam no meu pé.
Revirei os olhos e arranquei o vestidinho que estava em um completo contragosto. Só então percebi que tinha plateia. Quer saber?
Foda-se.
— Você tem que parar com essa mania de ficar seminua na minha frente. — A voz dele estava enrouquecida. Caminhei calmamente e o mais abusada que pude até a porta que ligava o escritório ao meu quarto. — Sua b***a não pode ser de verdade. Ela parece ter sido escupida pelos deuses...
Ri, enquanto vestia uma calça e camiseta básicas. Se era para ir jantar e tirá-los da minha cola por algum tempo, faria esse "sacrifício". Amarrei o cabelo de qualquer jeito e passei um gloss labial, estou sem saco nenhum para me maquiar. A fome estava me deixando irritada, porém a ideia de que a Sofie pode estar mentindo para mim e ocultando uma suposta gravidez , está me deixando com os nervos a flor da pele.
— Nossa, a famosa e grandiosa Cetim n***o vestida com uma calça jeans e uma camiseta mais velha que a primeira guerra mundial. — Rafael anunciou, me fazendo levantar o dedo do meio para ele. Sei que dar dedo é coisa de pessoa m*l-educada, mas convenhamos, ele está provocando. Estou sendo até delicada. — Porque não fala? O gato aqui não comeu sua língua.
Bufei, trombando com o ombro dele ao passar e tive vontade de estapeá-lo quando escutei sua risada.
— Rafael, tem como ser mais maduro? — Sai em disparada do escritório direto para as escadas da tortura. Teria que cantarolar uma música enquanto desço. Brilha, brilha estrelinha...
— Naturalmente, mia pietra preziosa. (Claro, minha pedra preciosa). — A voz do Rafa falando em um italiano perfeito logo atrás de mim não interrompeu a minha cantoria. Ao contrário, desenfreei a berrar aquela musiquinha irritante. Se ele me achar louca, não posso fazer nada. Odeio essas escadas e, as vezes, sinto que esse ódio é meio recíproco. — Você tem que perder esse medo de escadas, até parece ter um trauma profundo com esses degraus inofensivos. Por acaso caiu como naquelas novelas mexicanas?
Inconscientemente, toquei na cicatriz perto da minha clavícula.
Aquiescendo, completamente muda, consegui murmurar um "sim" fraco quando pus meus pés no chão da sala principal.
— Não é como se você tivesse rolado nas esc... O quê? — Espantou-se ao se dar conta da minha resposta positiva. Os olhos azuis dele estavam arregalados e emanavam surpresa. Soltei o máximo de ar que pude e me dirigi para a porta, abrindo-a sem nenhuma cerimônia. Ao sair, fiz uma pequena careta e mostrei a língua para um dos seguranças que estavam ao lado do carro do Rafael. — Ei, Emmy! Espera e me explica isso direito! — O som do carro destrancando foi como um coral de anjos em meus ouvidos, entrei rapidamente e virei o rosto para janela. Eu não queria lembrar daquela maldita queda. Mandaria esse projeto de modelo masculino da Calvin Klein perguntar ao seu pseudo pai.
— Não fica fugindo de mim, droga. — Reclamou e eu o imitei comicamente enquanto revirava os olhos. Tem horas que o Rafael é tão dramático que dá vontade de mandá-lo de volta para a radio novela que ele deve ter saído. — Conta pra mim? Por favor? — Pede suavemente e eu sinto minha guarda baixar um pouco.
— Eu tinha brigado com o papai porque ele havia enxotado um colega meu. — Senti as memórias voltarem como se tivessem sido ontem. A diferença é que eu não sentia aquele ódio e rancor inesgotáveis, só um pouco de dor por ainda guardar essas lembranças tão ruins. — Lembro que ele e a mamãe disseram ao coitado do menino que eu não servia, que procurasse uma garota magra e bonita. Que ele era bom demais para mim. — Meneei a cabeça, fitando o vazio e deixando as palavras me tomarem. — Minha mãe desceu as escadas gritando comigo e quando corri para não ouvir o que o papai também falaria, tropecei entre os meus próprios pés e cai escada a baixo. — Senti os dedos quentes do Rafa enxugarem minhas lágrimas, só ai me dei conta que estava chorando. Puxei a blusa devagar, mostrando a cicatriz em forma de "V" existente na minha clavícula. — Fraturei a clavícula e quem cuidou de mim foi a minha vó... Engordei uns cinco kilos durante o período de recuperação. — Ri fraco, lembrando da minha Nona. Ela dizia que eu estava muito magrinha, fazia comidas deliciosas com as quais eu me esbaldava.
— O Antony nunca me disse isso... — Sussurrou, me olhando com toda intensidade que aqueles olhos tão claros e mesmo assim tão escuros podiam fazer. Sentia que poderia enxergar a alma perturbada do Rafael só de fitar o azul de seu olhar assim, de perto. Queria saber o que tanto o atormenta, além da perda dos pais e do afastamento do irmão. A algo mais.
— Óbvio que ele não diria. Ele deve não se orgulhar disso. — Sorri irônica, enquanto passava a mão no rosto e me virava para o meu lugar. Rafa dá a partida, começando a dirigir pelas ruas frias de Veneza. Admirei um pouco toda aquela paisagem digna de um cartão postal.
— Você pode voltar a dançar. — Escutar aquelas cinco palavrinhas deixar os lábios do meu querido parceiro fez um sorriso singelo crescer no meu rosto e meu peito se encher de algo parecido com felicidade. Olhei-o e vi que um sorriso parecido com o meu também apareceu por sua face. Tudo bem que o dele era dez mil vez mais bonito, dava até vontade de b*******a foto para ver depois. — Temos que finalizar e ensaiar o nosso número, o tema ainda vai ser a...
— Shhhhhh... — Praticamente berrei, escutando-o rir da minha reação exagerada. — Não fica falando o tema, pode dar azar e tudo dar errado... Imagina?! Vai que dessa vez, — Deus que nos livre — você se machuque?
Ele negou rapidamente, assustado com a hipótese, enquanto estacionava.
— Então fica caladinho... — Comecei e senti os meus olhos brilharem ao ler o letreiro do meu restaurante predileto desde que me entendo por gente. — Ou melhor... Vamos entupir essa boquinha com muita lasanha e vinho!
***
— O tio Carlos vai contar ao papai o que você fez com o vinho! — Rimos juntos ao sair do restaurante, quase que meu tio nos expulsou. Disse que o papai devia ter cuidado, porque tem duas crianças em casa. — Você desperdiçou um belo prato de pudim. Quem já se viu jogar vinho no pudim, criatura?
Ele riu, agarrando o meu braço enquanto caminhávamos até onde ele estacionou o carro. Não bebemos muito, descobri que o Rafael não é uma pessoa muito chegada ao álcool, disse que na época da faculdade bebia muito e que o fígado dele já teve uma boa quantidade para aguentar. Já eu comi o que tinha direto.
— É o meu jeito masterchef de comer pudim, Emmy. Me deixe! — Sorri, dando língua para ele. Já estava me cansando de caminhar. Sou uma pessoa extremamente preguiçosa e rabugenta quando quero.
— Credo, Rafa!
— O que foi dessa vez? — Fez bico e eu ri, fingindo uma cara feia.
— Estacionasse esse carro aonde? Em Nárnia? — Ele abriu a boca para falar algo mais fomos brutalmente interrompidos. Três homens saíram do beco ao lado do carro. Rafael lançou um olhar nervoso para mim e eu me agarrei mais em seu braço.
— Ora, ora.Vejam o que temos aqui. — O mais alto do trio falou, me encarando de cima abaixo com uma cara extremamente nojenta de desejo. — O que essa delizie faz com um mauricinho como esse? Precisamos de uma dessa para saciar a nossa fome, não é rapazes?
Me puxou de modo grosso do braço do Rafa, um deles acariciou meu braço. Dava para ver que o Rafael estava cerrando os punhos e dente de tanta raiva. Disfarçadamente, pisquei para ele, vendo-o ficar sem entender nada. Esperei o filho da mãe cometer o erro de enlaçar os braços ao redor da minha cintura. Não pensei duas vezes, me virei com agilidade — que tenho graças as aulas de boxe e yoga — e lhe dei uma bela cabeçada. Ele saiu trepidante e soltou uma risada irônica. Os outros dois já estavam partindo para cima do Rafael. Corri para ajudá-lo, mas fui impedida por uma mão.
— Quer dizer que a gatinha arranha? Adoraria te domar...— Fechei os olhos, sentindo a raiva borbulhar em minhas veias. Foi rápido, em um momento ele estava apertando meu braço e no outro, eu havia quebrado aquele m****o. O som do osso deslocando e os gritos de dor do p****e atraiu a atenção dos colegas dele. De relance vi Rafael levar e revidar alguns socos, era feroz.
Um baixinho m*l encarado se pôs na minha frente, esticando o punho para me socar. Desviei algumas vezes até que um acertou os meus s***s. Gemi de dor e o encarei com raiva.
— Quer jogar sujo? — O acertei no rosto, meu punho doeu um pouco com impacto, porém não liguei. Queria bater nele. — Nós iremos jogar, então... — Me aproximei agarrando-o pelo ombro e depositando uma forte joelhada na virilha. Ele caiu no chão, ao lado do amigo. Escutei o baque de outra coisa no solo e pedi a Deus que não fosse o Rafael. Sei que ele sabe lutar mas nunca vi ele realmente em ação. Me virei lentamente, dando de cara com um loiro ensanguentado e um Rafa ofegante, com alguns hematomas.
Soltei o ar e puxei-o de cima do cara. Legítima defesa até vai, homicídio nem pensar.
— Vamos logo! — Entramos no bendito carro e ele pisou no acelerador.
Depois de alguns minutos na estrada, senti seus olhos em mim.
— Nossa. — Arfou, relaxando no banco.
— Foi intenso e você está sangrando. — Falei ao ver que ele havia cortado a boca. Rafael só passou a mão fazendo uma careta de dor. — Quando chegarmos em casa, eu cuido disso.
— Me lembra de nunca me meter em uma briga com você. — Riu baixo, me encarando. Minha blusa estava com um pouco de sangue do soco que dei no maxilar de um dos caras que nos abordaram. Meu cabelo totalmente rebelde.— Parece uma leoa, uma pantera brigando pelo seu alimento. — Disse, estalando a língua e eu me limitei a revirar os olhos. Cada um que me aparece.
— Estou parecendo uma louca, isso sim. Vamos tomar cuidado quando passar naquela avenida que tem um manicômio, vão achar que está me ajudando a fugir.
Ri, sendo acompanhada por ele. Ao chegar na frente de casa, eu e o Rafael tentamos fazer o mínimo de barulho possível. Papai o mataria se soubesse o que tinha acontecido. Fomos direto para o quarto dele, só parei para pegar o kit de primeiro socorros no banheiro principal e o segui.
— Senta na cama. — Mandei, vendo-o fazer uma careta ao me observar molhar o algodão com um pouco de água oxigenada. — Não vai doer muito...
— Mily, eu sou formado em medicina. Sei que isso vai doer pra c*****o. Vai em fren... p***a! — Exclamou quando pressionei a oxigenada no canto da boca dele. Com calma e delicadeza limpei o lugar e coloquei um pequeno curativo. Estendi uma bolsa de gelo para ele, que pegou sem reclamar.
Tirei minha blusa e, antes que ele pudesse reclamar, soltei mais um gemido de dor, encarando o hematoma roxo bem em cima do meu seio direito.
— Aquele filho da p**a fez isso?
Afirmo, travando o maxilar.
— Precisa pôr gelo e algum daqueles gelzinhos que o seu pai tem. — Sorri fraco.
Depois de tomarmos um bom banho, separados claro. Me joguei na cama do Rafael, para ele colocar o gel no meu machucado. Só não esperava que ele entrar no quarto sem camisa. É injustiça.
— Aqui está o gel. — Sentou-se ao meu lado. Puxando a toalha para baixo e revelando um dos meus s***s. Virei o rosto para o lado, constrangida. Quando os dedos dele deslizaram suavemente com a pasta gelada, pressionando devagar e o mais delicado que podia aquele hematoma, suspirei.
Fazia tempo que não era tocada de tal forma. Meu corpo estava se assimilando a um fio desencapado, ligado a uma alta voltagem. Qualquer carícia mais profunda causaria um tremendo curto circuito. E todos nós sairíamos machucados. Porque eu não posso e talvez nunca poderei retribuir o sentimento que o Rafael tem por mim. Não posso escolher quem amar, nem entregar meu corpo a outro sabendo que, quem realmente é o dono do meu coração, está distante.
Ele apertou mais um pouco e sua mão esbarrou em meu mamilo, que nessas horas, já estava endurecido de desejo. Por mais que eu não queira o toque, meu corpo é teimoso. Soltei um gemido baixo e franzi o cenho.
— Você é tão perfeita... Seus s***s, esse pescoço.. — Depositou alguns beijos em meu pescoço e eu me remexi desconfortável. — Você é linda...
— Rafa... — Arfei quando os dentes dele roçaram meu pescoço e, simultaneamente, sua mão brincavam com o meu seio. Ele apertava e massageava com muito cuidado para não me machucar. Por um segundo, nossos olhos se encontraram.
Eram azuis, porém escurso e misteriosos.
Eu queria os cristais claros, similares a duas safiras puras e brutas. Brilhantes.
— Rafael..— Falo enrouquecida, tirando-o de cima de mim e fazendo-o, sem querer, cair do meu lado. Engoli a seco cada gota de t***o que estava sentindo. Era errado.— Não posso fazer isso com você. E muito menos comigo. Não posso me enganar.
Rafael soltou o ar, passando a mão no rosto e me olhando em seguida. Tomada por uma coragem anormal, segurei sua mão forte, lançando-lhe um sorriso fraco, porém singelo. Não queria perder a sua amizade, por mais que brigássemos, ele tornava minha estadia aqui um pouco mais fácil.
— Porque? Que razão?
— Porque sou a razão, não posso me relacionar nem algo desse tipo agora. Meu coração não está aqui, eu o deixei em casa antes de embarcar e aceitar em ficar aqui na Itália. — Falei a verdade, ocultando a parte que a verdadeira razão disso tudo era o seu irmão e o louco amor que sinto por ele. — Espero que me entenda.
— Sei que há algo a mais que não está me contando...
Abri a boca para protestar e inventar alguma desculpa.
Ele ergueu a mão pedindo para esperar.
— Não se preocupe não precisa ter o trabalho de me contar. — Despejou transbordando de ironia, enquanto pegava o controle da televisão. — Seja o que for, eu mesmo irei descobrir. — Resolvi ficar calada e observá-lo ligar a TV, calmamente me aconcheguei em seus braços. Sou folgada, né?
Após passar uma década zapeando por canais e procurando algo que prestasse, Rafael passou por um que me chamou atenção.
— Volta naquele, Rafa!
Ele obedeceu e nós dois nos assustamos com o que estávamos.
— Aqui é Lily Hutson, diretamente dos hospital St. Julies onde acabamos de ver o nosso CEO garanhão, Samuel Philip Ferraz, sair com Ricardo Walker, que estava estupidamente machucado e com vários hematomas. O que será que aconteceu com o amigo do nosso presidente predileto? Será que arrumou alguma briga? Mais notícias sobre esse assunto, logo após os comerciais. — Passaram as imagens, Ricardo se segurava em Samuel ao subir a escadaria. Estranhei-o um pouco, ele estava mais forte, parecia um novo homem. Mas o que realmente me deixou em alerta não foi isso, mas sim, a imperceptível careta de dor que o Sam fazia quando a câmera deu um close. Depois de divagar durante um tempo e tentar encaixar as peças desse quebra cabeça, me dei conta de uma única coisa: Essa história está muito m*l contada.