Minha mãe conseguiu marcar uma consulta com seu amigo Daniel Monteiro para mim. Essa consulta seria hoje pela manhã, antes de eu ir para o escritório. Mesmo com muitas coisas para fazer no escritório, eu não queria perder mais tempo para entender o meu sonho e as minhas visões. Ela tem aparecido insistentemente para mim, tem demonstrado que está sofrendo muito, e isso é meu desespero. Nunca passei por isso, nunca vi alguém sofrer tanto, e agora estava alguém sofrendo, querendo e precisando da minha ajuda, porém eu não sabia o que fazer, e como salvá-la.
Me arrumo todas as manhãs e fico pensando que esse médico tem que me ajudar. Talvez possa descobrir o que há de errado com a garota. Ou se é só ilusão da minha cabeça. Vou até a cozinha já arrumado e dou bom dia para Maria. A mesma me pergunta o que quero para comer, e digo que só quero café, estou sem fome, e também não quero chegar atrasado a essa consulta.
Cheguei no hospital e não demorou para a secretária do Dr me dizer para entrar. Entro na sala, e o mesmo está sentado em uma cadeira perto de um sofá estilo divã. Ele me olha e se levanta sorrindo. Ele parece mais novo do que pensei.
- Sr Renato. Ele me cumprimenta com um aperto de mão.
- Prazer Dr Daniel.
- Prazer é todo meu Sr. Quando Márcia me disse que um dos seus filhos precisava de um atendimento específico, eu não tive como negar.
- Fico feliz que possa me ajudar.
- Tentarei. Sente-se. Pediu me mostrando o sofá. Me sento e espero o mesmo me dizer o que quer de mim, mas ele não o faz, fica me analisando, ou talvez esperando que eu fale algo. Passo uma das mãos no cabelo. Então o que te traz aqui? Suspiro.
-De um tempo para cá eu venho tendo sonhos e visões com uma garota. Digo e ele me olha intrigado.
- E essas visões e sonhos estão te deixando perturbado porque?
- Porque eu não a conheço, porque ela aparece para mim machucada, torturada, ferida, sangrando e chorando. Ela nunca para de chorar. Eu só quero entender o porque ela aparece para mim, e como eu irei ajudar alguém que nem conheço.
- Você não a conhece mesmo? Nunca viu de longe, ou algo assim?
- Não, nunca a vi na vida.
- Estranho, mas não é impossível.
- O Dr acha que ela está morta e eu estou louco? Peço já temendo meu fim.
- Não, nenhuma coisa nem outra. Tem muitas pessoas que acreditam que pessoas mortas podem voltar em espírito e falar ou pedir algo, mas a ciência dos médicos não pode definir isso, pois entra na questão da fé, da crença de alguma religião. No seu caso essa pessoa pode ter alguma ligação com você ou sua família.
- Minha família? E porque só aparece para mim? Peço assustado.
- Talvez porque sua família não acreditaria nela, ou talvez porque alguém da sua família sabe quem ela é e sabe o que aconteceu com ela.
- Impossível. Meus irmãos e meus pais nunca me disseram sobre uma garota de olhos azuis, morena de cabelos longos.
- Sr Renato são suposições que podem levar o Sr a descobrir sobre a garota, e porque ela aparece só para você. Normalmente uma pessoa desconhecida não aparece pra gente, mesmo morta, trazendo a crença para o seu problema, essas aparições ocorrem com conhecidos, entes queridos. E se essa garota está aparecendo para você é porque tem alguma ligação com você ou alguma pessoa da sua família.
- Não deveria aparecer para essa pessoa da minha família então? Indago colocando a teoria dele.
- Sim, deveria, mas pode haver algo que a afaste dessa pessoa e ela está pedindo ajuda a você.
- O Dr está me dizendo que alguém da minha família pode ter feito algo a ela?
- Não, estou dizendo que ela pode não ter procurado essa pessoa, porque pode não ser acreditada.
Estou mais confuso, porém como faço para ajudá-la? Ela sempre vem ao meu sonho chorando. Ela não fala nada, nunca disse uma só palavra. Teve um sonho que ela apareceu para mim duas vezes na noite e eu tentei segui-la para ver onde ela me levaria, mas fui impedido. Teve um outro sonho que estava em uma casa e a mesma estava deitada desacordada no chão, eu a peguei e achei a saída da casa, porém quando atravessei a porta com ela, a mesma havia sumido dos meus braços.
- Porque você não conseguiu segui-la?
- Ela passou pelo portão trancado, e eu teria que pegar a chave e abrir.
- Entendo. A cena dela nos seus braços e depois não estava mais, você não pode levá-la, pois ela está presa a casa. Ela pode estar trancada, amarrada ou algo assim. Você pode tentar tirá-la em sonho mas não irá conseguir. Precisa descobrir o que está havendo com ela, e onde ela está.
- Mas como? Ela não fala nada, só chora.
- Você disse que tem visões também, não só sonhos. Ela aparece para você em algum lugar específico?
- Na minha casa, no meu quarto, na casa dos meus pais, na rua.
- Porque você não tenta segui-la com essa visão. Talvez ela possa te mostrar algo.
- Vou fazê-lo. Só espero que as pessoas não me achem louco. Porque isso está me deixando m*l.
- Não se preocupe com isso. Tente ajudá-la. Quero ver você na próxima consulta, preciso saber se você está bem. Suspiro.
- Não conseguirei ficar bem enquanto não achar essa garota. Digo me levantando.
- Última pergunta. Você prestou atenção na casa?
- Não. Porque?
- Poderia ser algum lugar que você conheça. Fico tentando lembrar, mas não é nada parecido com o que já vi.
- Não sei mesmo.
- Ótimo, vamos nos ver na próxima consulta. Ele fala e se levanta me cumprimentando. Vou embora.
No escritório concentro a minha atenção a tudo que está sendo falado na reunião. O departamento de tecnologia está desenvolvendo computadores de mão com um pequeno avanço. Fico bem animado com a tecnologia desenvolvida por eles. É só um protótipo, mas espero que seja aceito mundialmente.
Volto para minha sala e começo a analisar vários contratos, tenho pessoas querendo fazer negócios comigo, sem nem ao menos fazer o dever de casa. E eu amo isso, pois assim fica mais fácil o meu trabalho. Descarto qualquer tentativa de chegar a mim e aos meus negócios, ainda mais quando vejo que a pessoa é ambiciosa e gananciosa. Ouço batidas na minha porta. Peço que entre. Fran aparece dizendo que tem um Sr esperando para falar comigo. Questiono quem é, e ela me diz que é o Sr Willian Prates. Sei muito bem quem é. Peço a ela que o deixe entrar. Ela sai da sala e em poucos minutos Willian entra na minha sala.
- E aí cara? Como vai? Peço me levantando e indo de encontro a ele. Dou um abraço no mesmo que me corresponde sorrindo.
- Estou ótimo e você melhor ainda pelo que vejo né.
- Não tenho do que reclamar. Falo. Então quais as novidades? Já sei que você se casou, e nem quis me convidar. Indago fazendo cara de chateado.
- Me casei, mas foi uma cerimônia simples com poucas pessoas. Ele diz e eu assinto. E outra, acho que você não iria se deslocar daqui para ir à Rússia assistir meu casamento.
- Que isso Willian, claro que iria. Assim também mataria a saudades dos meus irmãos e cunhadas.
- Então meu amigo me perdoa, achei que você não iria até lá.
- Tudo bem, eu te perdoou. Mas me fala o que te traz ao país de novo? Quando voltou?
- Voltei há alguns meses, e na verdade não queria morar na Rússia, só fui para lá porque mamãe e Verônica insistiram. E foi bom né, conheci minha esposa lá.
- Que cara de sorte.
- E você? Nada de casar ainda? Está ficando velho hein. Sorrio, pois é verdade. Me sinto só, mas não desesperado para namorar e casar com qualquer uma.
- Estou ainda dentro do tempo de arrumar alguém.
- Verônica ainda pergunta por você. Na verdade não para de falar em você. Bufo. Nem pensar que quero Verônica na minha vida.
- Sua irmã é louca, e nem quero nada com ela. Só tivemos um caso de faculdade e nada mais. Nunca gostei dela, e espero que ela fique onde está. Digo sério.
- Vou dizer isso a ela. Mas eu estou aqui porque fiquei sabendo que sua empresa está com uma vaga de diretor financeiro em aberto, queria ver com você, se não poderia assumir essa vaga.
- Para mim tudo bem Willian. Vou pedir a Francielle para verificar como anda o recrutamento e poder cancelar o mesmo. Para mim você já está contratado.
- Que ótimo cara. Obrigada pela oportunidade.
- De nada. Achei que você tinha seu próprio negócio.
- Não deu certo. Ele falou meio nervoso.
- O que não deu certo? Você é um cara esperto, inteligente. Não vejo o porque não daria certo. Indago querendo tirar dele o que me esconde.
- Tive alguns problemas com a Sra Prates e então achei melhor não ter um negócio próprio. Mulher consumista, sorrio por dentro.
- Mulher consumista? Ele não responde e fica olhando para o nada. Está tudo bem Willian?
- Hã, está, sim, ela é um pouco consumista. Ele diz e não sei, mas eu conheço Willian desde a faculdade e - sinto que tem algo a mais aí.
- Fica tranquilo, pois é difícil arrumar uma mulher que não seja consumista.
- Então estamos acertado né. Posso começar que dia? Ele pede se levantando. Ele está estranho.
- Amanhã mesmo. Essa vaga é de máxima urgência. Digo e ele assenti.
- Deixa eu ir então. Amanhã estarei aqui cedo. Ele fala e me cumprimenta novamente, porém com um aperto de mão.
Willian vai embora, e eu ligo para Fran pedindo que ela verifique com o pessoal do RH sobre a vaga de diretor financeiro. Era para ser cancelada a vaga, pois já tínhamos um candidato.
Willian me pareceu um pouco estranho. Acredito que deva estar passando por problemas financeiros e até mesmo em seu casamento. Espero que com essa vaga ele consiga recuperar sua vida e a alegria. Ele não parece nem um pouco feliz.
O resto do dia foi tranquilo. Maycon havia me ligado para encontrá-lo no apto de Sarah, pois eles estavam arrumando as coisas e queriam ajuda. Não estou fazendo nada mesmo, e é bom que distrai a minha cabeça da garota, porque sei que assim que ficar sozinho com meus pensamentos, esse tormento vai vir com força em minha mente e eu me sentirei inútil por não poder fazer nada.
Chego no apto de Sarah e ela autoriza a minha entrada. Subo até o quarto andar e a porta já está aberta.
- Estou entrando. Digo adentrando o apto que está cheio de caixas.
- Pode entrar cunhadinho. Só não repara a bagunça. Ela diz vindo do corredor. Tudo bem? Ela me cumprimentou com dois beijos no rosto. Olho para ela, e noto que estava chorando.
- Você estava chorando? Peço preocupado.
- Desculpe, mas é que eu estava lembrando da minha irmã.
O que tem Cláudia? Ela está doente? Fico mais preocupado ainda.
- Não. Cláudia está ótima, mas não estava falando de Cláudia, porém da minha outra irmã. Fico surpreso, pois nunca soube que elas tinham outra irmã.
- Não sabia que vocês tinham outra irmã. Falei surpreso.
- Não gostamos de falar sobre ela. Ficamos muito m*l quando falamos dela.
- Porque?
- Ela está morta. Sarah diz com lágrimas nos olhos.
- Sinto muito. Meus irmãos nunca comentaram isso comigo.
- Não tem problema. Só que às vezes sinto muita falta dela. Era a caçula e sempre cuidamos uma da outra.
- Não chora, não gosto de ver mulheres chorando. Me sinto impotente. Falei abraçando.
- Já chegou cara? Achei que você iria demorar. Maycon aparece e olha para Sarah. O que foi amor? Está tudo bem? Ele pede a puxando para seus braços.
- Sim, está, eu só estava lembrando da minha irmã e contando para Renato. Ela diz limpando seus olhos.
- Não fica assim. Você e Cláudia vão ficar bem. Meu irmão diz e faz sinal com a boca de que depois me conta. Eu dou de ombros e chamo a atenção deles para a bagunça.
- Então vamos nos distrair desse assunto e colocar tudo aqui em ordem? Indago sorrindo e Sarah já sorri também.
Passamos quase o resto da noite colocando as coisas no lugar, só deixamos umas dez caixas que foram para o um quarto vazio, onde correspondia às coisas da irmã de Sarah. Dayane.