Capítulo dois, por Angelique Balti.

1436 Words
Pode ser incomum, mas gosto das segundas-feiras. É, geralmente, o dia em que posso sair, mesmo que por pouco tempo, para estudar algo que não me agrada. Porém, de toda forma, é longe daqui, longe de Lorenzo, o que é bom. Aos oito anos de idade, quis ser desenhista. Porém meus talentos para desenho são um tanto quanto questionáveis, logo, o desejo por tal profissão passou. Após isso, quis cursar medicina, literatura, música e psicologia, mas nunca cogitei a possibilidade de cursar teologia. É uma área interessante, mas não é para mim. Ainda desejo, mesmo sabendo que é quase impossível, cursar jornalismo. Primeiramente por saber que Lorenzo nunca irá permitir. Na região, há apenas a Universidade Católica de Aosta, onde tal disciplina não é lecionada. Para cursar, deveria ir para outra cidade, o que é mais um empecilho. Sem permissão para sair, sem dinheiro para sobreviver. Como eu poderia ir para outro lugar? — Angelique, espero que esteja pronta. — resmunga papai, próximo ao meu quarto. — Não irei esperá-la mais. — Já estou pronta. — respondo. Em frente ao espelho do meu quarto, observo meu reflexo. A maquiagem esconde, não totalmente, o hematoma no meu pescoço. As marcas das mãos de Lorenzo, após me agredir, ainda estão gravadas em minha pele. Tudo isso pois, após a missa, estar conversando com um garoto que estava próximo à mim. Acusou-me de estar falando sobre ele. As marcas nos meus braços, por baixo das mangas do casaco, não são visíveis. As marcas que não consigo esconder por baixo das roupas, consigo esconder com maquiagem. Mas mesmo com maquiagem, o cansaço em meu rosto é aparente. Pego minha bolsa e sigo ao andar inferior, onde Lorenzo está. Lendo seu jornal, impaciente, esperando-me. Em silêncio, desço as escadas. — Podemos ir. — digo, indo em direção à porta. Sou surpreendida por ele, ao segurar meu pulso com força, impedindo-me de seguir. A força que usa é tão grande que sei que ficarão marcas. Olho para ele, assustada e surpresa. Implorando, mentalmente, para que não faça nada comigo. — Nenhuma palavra sobre o que houve aqui. Trate de esconder bem as marcas. — segura meu rosto com força, o erguendo, para encarar suas íris castanhas. — Entendeu? — Sim. — respondo em um murmúrio. É assim. Caso ele imagine que disse algo, irei sofrer suas consequências. — Boa garota. — me solta. — Vamos de uma vez, você me atrasou demais. Ainda assustada, em silêncio, sigo até o carro, estacionado em frente à nossa casa. Um dos nossos vizinhos, Greg, se não me engano, nos cumprimenta. Lorenzo responde, simpático, completo oposto do homem que conheço. Como se, segundos atrás, não estivesse me ameaçando. — Entra logo, Angelique. — limpo uma lágrima no meu rosto e, ao entrar ao seu lado, no banco do passageiro, ele dá partida. O trajeto até a faculdade foi em um silêncio absoluto. Lorenzo concentrava-se na estrada. Eu, brincando com um pequeno zíper da minha bolsa. As vezes, penso em como as coisas seriam se mamãe estivesse aqui. Será que estaríamos com ele, sofrendo nas suas mãos? Será que conseguiríamos fugir, para um lugar distante? Será que ele seria tão agressivo conosco, assim como é comigo? São muitas dúvidas e poucas respostas. Apesar de questioná-lo, várias vezes, sobre esse ódio fora do comum por mim e qual motivo, ele nunca me respondeu. E creio, no fundo, que nunca saberei. Durante algum tempo, acreditei que ele me enxergava como a culpada pela morte de mamãe. Lembro-me que ela foi ao mercado pois eu quis fazer um bolo para nós, como sempre fazíamos. Não tínhamos fermento, necessário para o preparo. E a pedido meu, ela foi comprar. Lembro-me de que, minutos depois, recebi a notícia. Morta. Mamãe estava morta e eu, sozinha. Desamparada, perdida. Ainda estava na cozinha, com os ingredientes para o bolo, esperando seu retorno. E ali, abraçada em nossa vizinha, eu chorei. Como uma criança perdida, em prantos. E até os dias atuais, ainda sinto-me culpada. Mesmo que Eve diga o contrário, sempre que me sinto m*l. Quando o veículo estaciona em frente ao prédio da faculdade, sinto-me aliviada. Arrumo as mangas da minha roupa, e pelo reflexo no celular, vejo se a maquiagem nas marcas ainda está intacta. — Espero que fique quieta, ou pagará caro. Sem falar nada e sem esperar que diga mais, sigo para a faculdade, enquanto Lorenzo se vai. Para empresa, ou para algum bar, não faço ideia. — Angel! — exclama aquela voz tão familiar. Resmungo, assustada com a presença de Eve. Levo a mão ao peito, surpresa. Essa garota ainda vai me causar um infarto. — Desculpa, não quis te assustar. — ri. — Senti sua falta na Peccato ontem. — Não pude sair. — Lorenzo viu algo? — n**o. — Trancou-me no quarto após a missa. Apenas por me ver conversando com um garoto. — Eve me abraça apertado. — E eu não estava fazendo nada, Eve. — Eu sei, e sinto muito. Nada disso é sua culpa, nada. Entendeu? — suspira. — Ele machucou você? — segurando minhas mãos, olha nos meus olhos. Eve Salvatore me conhece como ninguém. Sabe quando estou mentindo, quando estou triste, quando estou incomodada. Mesmo que eu tente esconder, ela me conhece. Nos conhecemos pouco mais de dois anos atrás. Eu havia discutido com Lorenzo e, após mais uma agressão, fugi. Perdida, atordoada e machucada, caminhei sozinha pelas ruas escuras e frias de Aosta, até encontrá-la. Mesmo que eu fosse uma completa desconhecida, me ofereceu auxílio, abrigo e o mais importante, sua amizade. Foi uma surpresa para mim quando descobri que iríamos estudar na mesma faculdade, no mesmo curso. Ela, por vontade própria. Eu, por vontade de papai. E talvez, no fundo, cursar teologia é bom. Pois tenho ao meu lado Eve, minha companheira, melhor amiga e porto seguro. — Meu pescoço. E os braços. — digo, em um sussurro. Atentamente, Eve me observa. Afasta meus fios loiros, longos, percebendo onde está machucado, mesmo com a maquiagem. — Esse homem é um doente! — me abraça, enquanto minhas lágrimas caem, sem controle. — Isso vai passar, meu bem. Eu te prometo. Após alguns minutos, limpo minhas lágrimas. Respiro fundo e, com auxílio da câmera do meu celular, arrumo meus cabelos para que cubram as marcas. Eve, preocupada, me observa. — Você ainda pode ficar lá em casa. — diz. — É impossível, Eve. Ele irá atrás de mim e mesmo que não vá, estou sem trabalho. Sem dinheiro algum para ajudar você. — Eu posso dar um jeito. — suspira. — Só não posso te ver sofrer, sem conseguir ajudar. — Sua amizade já é perfeito para mim, tudo que preciso. Um dia conseguirei sair. — respiro fundo. — Eu tenho certeza disso. — acaricia meu rosto. — Amo você, anjinha. E tenho fofocas! — ri, animada. — Diz! — Senhora Evans, professora de cultura religiosa, pediu demissão. — Por quê? — Foi traída. O marido roubou tudo que tinha e foi embora com a afilhada dela. — resmungo, surpresa. — Sério? — assente. — Ela ficou sem nada. Vai mudar-se para casa da mãe, nos Estados Unidos. — suspira. — Vou sentir falta, foi uma boa professora. — Você não a suportava! — comento, rindo. — É, isso é verdade. — rimos. Seguimos para nossa sala, no segundo andar, pois em poucos minutos irá começar a nossa aula. De cultura religiosa, por coincidência. — Enfim, entrará um professor no lugar dela. Damon, se não me engano. Espero que seja bonito, para que eu tenha algo para observar durante a aula. — Você poderia prestar atenção na aula, sabe? — n**a. — O que é belo deve ser observado, anjinha. — dá de ombros. — Se ficar com notas baixas, não diz que não avisei. Ao ver a sala de número 102, entramos. Está cheia, com alguns alunos concentrados em seus livros e cadernos e outros em grupos, mais para o fundo, conversando. Sentamos lado a lado, logo na frente, curiosas em relação ao novo professor. Entre conversas, sobre o ficante atual de Eve e seu novo emprego, os minutos passam. Não percebo quando os alunos aquietam-se, muito menos quando o professor entra ali. Distraída, não o vejo. — Bom dia, turma. — sua voz rouca e grave ressoa no ambiente. Ao observá-lo, fico surpresa. É o mesmo homem do dia anterior, que vi na igreja. Porém agora está em um terno, sem gravata, nos encarando. Com o semblante sério, como na primeira vez que o vi. E parece recordar-se de mim, pois me encara, dessa vez com um sorriso nos lábios. 
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