Capítulo um, por Angelique Balti.

1311 Words
Quando o carro finalmente estaciona em frente à Catedral Sant'Orso, sinto-me aliviada. Por alguns minutos, enquanto estivéssemos aqui, eu teria paz. Os vinte minutos até aqui foram péssimos, mais uma vez ocupados pelas reclamações de meu pai. É sempre assim, qualquer conversa nossa é sempre uma crítica à mim. Nunca um elogio ou uma conversa comum, entre um pai e uma filha. E quando não são agressões verbais, são físicas. Quando se exalta, desconta toda sua frustração, mágoas e fúria em mim, mesmo que eu não faça nada errado. Sempre tento agir da maneira que lhe agrada, sou moderada em minhas palavras e atitudes, mas nada impede seu ódio por mim, um ódio que sempre nutriu, mas que nunca entendi. Durante toda minha vida, meu pai foi ausente. Principalmente após a morte de mamãe, dez anos atrás. Quando Valentina Balti faleceu, vítima de um acidente de trânsito, meu pai se afastou completamente de mim. Afogou-se no trabalho, nas bebidas e em jogos de azar, onde perdeu parte do nosso dinheiro e, por pouco, não perdeu a empresa da família. Não nos víamos em casa, eram raras as vezes que o encontrava. E quando acontecia, pela madrugada, o via na sala, bêbado, resmungando coisas inteligíveis. Ao tentar ajudá-lo, recusava. Não que antes da morte de mamãe ele fosse um pai exemplar, ou até mesmo presente. Sempre fomos eu e mamãe, enquanto ele passava os dias fora, voltando apenas à noite, sempre ocupado demais para nós. Até mesmo durante a manhã, ao invés de tomar café conosco, saía, pois segundo ele, estava atrasado demais para perder seu tempo. Raramente, voltava para jantar conosco. E nesses momentos, o silêncio predominava. Era tão forçado, tão incômodo, que lembro-me de que jantávamos mais cedo — eu e mamãe — para evitar sua presença. Para evitar suas críticas quanto ao jantar, quanto à nós, nosso lar e qualquer outro assunto que envolvesse mamãe e eu. Não tive apoio algum após a perca de minha mãe, exceto por Georgina Gregori, a simpática vizinha. Uma simpática senhora, que me cuidou como uma filha, como se fôssemos parentes. Preocupou-se comigo, todos os dias me procurava para saber como estava, me ofereceu comida, casa, mas não aceitei, Lorenzo nunca permitiria. Ainda me lembro de que uma noite, quando papai chegou em casa bêbado, tentando me agredir, ela me acolheu. Ofereceu-me ajuda, quis ligar para polícia, mas não permiti. Nenhum outro parente meu iria aceitar ficar comigo, eu seria enviada para um abrigo, não queria isso para mim. Mas não permiti também porque, no fundo, ainda nutria esperanças de que papai mudasse. Senti pena de enviá-lo para prisão, e hoje, sem liberdade, sem ter o direito de fazer minhas escolhas, me arrependo amargamente de não permitir que Georgina ligasse para as autoridades. Na manhã seguinte, após tudo se acalmar, fui para casa, mas Lorenzo não estava mais lá. Por um tempo, Lorenzo não encostou em mim novamente, sequer me dirigia a palavra. Poucos meses após esse acontecimento, a senhora Gregori mudou-se para Roma, para viver com sua filha. Senti, ao despedir-me, que estava sozinha. E para ser sincera, eu estava. Havia perdido mamãe e nesse momento, Georgina também. Eu estava completamente só. Após sua mudança, não havia ninguém para cuidar de mim ou para me proteger. Os amigos da família, parentes e familiares, baseados na imagem de família perfeita que Lorenzo Balti construiu, não poderiam imaginar o que realmente acontecia. Os absurdos que ouvi, as vezes em que me agrediu. As vezes em que fui negligenciada. E, enquanto cresci, me afastei de todos. Perdi os poucos amigos que tive no colégio, e até mesmo os vizinhos novos, que eram próximos de mim. Em meus momentos livres — raros, pois sempre tive que cuidar da casa e de papai, que chegava bêbado —, eu me permitia chorar. Trancada no meu quarto, agarrada ao travesseiro de mamãe, eu deixava que as lágrimas levassem parte da dor, medo e angústia que sentia. Era demais para mim, suportar tudo aquilo. Uma criança de treze anos, perdida, sofrendo agressões, cuidando sozinha de uma casa enorme. Ao passar dos anos, as coisas mudaram. Pouco, mas mudaram. Papai, ao quase perder sua empresa, deixou os jogos de azar. Vai para bares frequentemente, fica bêbado, mas não mais joga. As agressões físicas diminuíram, mas ainda continuam. As agressões verbais continuaram, até os dias atuais para ser sincera. Decidiu voltar para igreja e, mesmo contra minha vontade, o acompanho, para que todos tenham a imagem de família perfeita. É assim que somos. Quebrados, frágeis, tóxicos, mostrando aos outros algo que não existe. Nunca existiu. O homem que me abraça, carinhoso, me guiando até a entrada da catedral, não é o pai amoroso que finge ser. Enquanto ri, falso, esconde o ódio e nojo que sente por mim. Enquanto em meu rosto carrego um sorriso tímido, sinto repulsa dele. — Ainda bem que chegamos no horário. — resmunga, apertando meu braço. — Como sempre, você nos atrasa. — Não me obrigue à vir na próxima. Eu não quero ser parte desse seu teatro ridículo. — digo, receosa. Sei os perigos de enfrentá-lo. A pequena cicatriz na minha face, próximo à orelha, é uma prova disso. Ele não responde. Não afrouxa o aperto no meu braço, logo sei que a marca ficará. Sobe as escadas da catedral, apressado, me arrastando ao seu lado. Com dificuldade, devido ao salto, consigo acompanhá-lo. — Bom dia. — cumprimenta, com uma falsa simpatia, os fiéis que estão na área externa da igreja. — Está me machucando. — digo em um sussurro, fazendo seu aperto no meu braço ceder. Alguns conhecidos se aproximam, nos cumprimentando. Para me distrair, uso meu celular. Vejo algumas mensagens dos outros estudantes, no grupo da faculdade. Estou no quarto período de teologia, mais uma escolha de papai. Eu, basicamente, vivo de acordo com suas escolhas para mim. Ele escolhe minhas roupas, minhas amizades e até mesmo escolheu minha faculdade. Não posso dar opiniões. Minha vida é como um boneco de marionetes, o qual é manipulado por Lorenzo. Não posso sair, não posso trabalhar e em hipótese alguma, ir embora, denunicar seus maus tratos. Meu dinheiro, herança de mamãe, está sob seu domínio. Quer dizer, o que não perdeu em apostas e jogos de azar. Quando tentei trabalhar, para conseguir algum dinheiro e finalmente ir embora da sua casa, fui impedida. Por meio do suborno, conseguiu que eu não fosse contratada. É como se eu fosse apenas um objeto, para ele manipular e agir como deseja, para despejar seu ódio, suas frustrações e problemas. É como se eu fosse um erro, o qual merece suas punições. Não há como fugir. Não há para onde ir, não há ajuda. Eu já perdi as minhas esperanças, apenas aceito suas ordens e as obedeço, sou a melhor filha que posso, para não deixá-lo com raiva. E assim, conseguir livrar-me das agressões e castigos. Mas ainda assim, não estou livre. Mesmo sem as agressões físicas, sou agredida verbalmente. Bêbado ou sóbrio, sou seu saco de pancadas, alguém para despejar suas frustações. "Peccato às 23:00. Amo você, E." — a mensagem recém chegada brilha no visor do meu celular. Sinto alguém nos observar, desviando minha atenção do aparelho. Observo ao redor, procurando pela pessoa, até ver um homem, jovem, distante de nós. Mesmo assim, com a distância, consigo vê-lo bem. Seus cabelos negros lisos, as íris azuladas, os lábios em uma linha fina, sério. Mesmo com meus olhares para ele, continua a me observar. Inclina um pouco sua cabeça para o lado, me observando atentamente. Quando os sinos da catedral tocam, indicando o início da celebração, desvio o olhar. Ainda impressionada com sua beleza, curiosa para saber o motivo dos seus olhares. Sou arrastada para dentro da catedral, por papai. Antes de entrar, ainda o vejo uma última vez. Parado, no mesmo lugar, com aquele mesmo olhar misterioso.
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